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‘O médico que trabalha com IA é um médico melhor’, diz Sidney Klajner, presidente do Hospital Albert Einstein



Poucos médicos falam do uso de inteligência artificial na medicina como o médico Sidney Klajner. Desde que assumiu a presidência do Hospital Albert Einstein, em 2016, investiu pesado na tecnologia que hoje transforma o dia a dia da instituição paulistana. Nascido com 8 profissionais há 8 anos, o grupo responsável pela criação e entendimento de algoritmos no hospital, hoje conta com mais de 143 pessoas.


Klajner vai levar a experiência para o maior festival de inovação e tecnologia do mundo, o South by South West (SXSW), em Austin, no Texas. Amanhã, dia 8, mediará um debate, ao lado de executivos da Mayo Clinic, do City of Hope, ambos dos EUA, e o Sheba Medical Center, de Israel, sobre como as organizações de saúde podem usar a IA e sua importância na inclusão de pessoas que estão à margem da boa medicina.


Quais são as grandes mudanças que a IA já provocou na medicina?

O impacto é generalizado. Imagine um sistema que pensa mais rápido e com mais dados que o cérebro humano consegue fazer. Com isso, mesmo um médico primoroso, que passa no quarto do paciente a cada 2 horas no pós-operatório para examiná-lo, não poderá ser comparado aos milhares de dados gerados sobre esse paciente através da monitorização da IA. A medicina personalizada e a genômica também não seriam o que são hoje sem a IA. Ela permitiu a análise de milhões de sequências genéticas, velozmente. Permitiu detectar precocemente doenças. No Einstein, temos um algoritmo, para você ter uma ideia, que detecta o câncer de pulmão através de exame de imagem, mesmo que esse exame não tenha sido pedido para esse fim. Temos outro que levamos para regiões mais pobres no norte do país que interpreta a conversa entre o médico de família e a paciente gestante e sugere ao profissional de saúde as perguntas que devem ser feitas durante a consulta para que ela seja perfeitamente examinada e cuidada. Essa IA é alimentada com informações de 2 mil artigos selecionados.


Como a IA pode mudar a rotina de um hospital?

Em diversos aspectos. Ela impacta tanto na gestão como na assistência. Temos, por exemplo, uma predição de leitos de hospitais que hoje nos permite saber, em até meia hora, se o paciente que chega ao pronto-atendimento vai ou não ficar internado. Isso é feito com base nos dados de triagem, histórico médico e exames que foram pedidos. E permite também bloquear o quarto destinado ao diagnóstico. Esse procedimento economiza 15% do tempo de internação e resulta em um prognóstico melhor. Há algoritmo que detecta se a qualidade que queremos entregar ao paciente está sendo entregue. Um centro de monitoramento vê, graças ao algoritmo, se há problema com paciente no centro cirúrgico só pela análise do traço do monitor da sala de operação.


Essa realidade ainda está muito longe de se disseminar no SUS?

Distante, mas não por ser cara. Esse tipo de ideia é escalável para reduzir custo. Na hora que você implementa e evita uma complicação, economiza, não só a médio prazo, mas a curto também. E não se trata apenas de investimento de recurso. Mas de investimento de gestão para economizar gastos desnecessários. Um paciente com um câncer detectado precocemente vai ser muito mais barato para o sistema. Ele vai precisar de menos tempo de internação, de menos quimioterápicos, menos tempo de UTI.


Qual é a capacidade de precisão de plataformas como o ChatGPT tem nos diagnósticos?

Plataformas como essa têm a base aberta. Ou seja, elas procuram informações em diversas fontes e podem estar sujeitas a inúmeros vieses. O rastreamento pode, por exemplo ser feito na empresa que fabrica os aparelhos de imagem, no laboratório e em estudos não atualizados. Vou dizer o que aconteceu comigo recentemente. Meu joelho falhou enquanto eu praticava exercício físico. No dia seguinte doía um pouco. Para testar, usei a plataforma para saber o que seria bom fazer. Ela me mandou fazer um exame de ressonância. O que naturalmente seria um exagero.


Dias depois a dor tinha passado. De maneira geral, esse tipo de IA aberta vai melhor em situações mais fáceis, como diagnosticar uma sinusite. Nas complexas ela vai bem para descartar problemas. Isso salvou a vida de uma paciente do Einstein no fim do ano. Ela operou o fêmur e no dia seguinte, no quarto, entrou em coma. A IA levantou a possibilidade de que a suprarrenal tivesse parado de produzir corticoide. Dentro do universo médico costuma-se trabalhar com o que é mais provável e essa seria uma possibilidade que estaria no rodapé das suspeitas.


Como a IA pode ser usada em pesquisas clínicas?

Ainda há um pouco de resistência na academia, mas ela pode ajudar em um dos dos grandes problemas da pesquisa médica que é ter voluntários metódicos, que cumpram todas as etapas do estudo. A tecnologia permite a descentralização dos estudos, facilitando a adesão dos participantes. Ela pode avisar o voluntário que ele não fez tal exame e os pesquisadores acompanham em tempo real o que está acontecendo.


Como o senhor imagina o futuro da medicina com IA, até onde poderá chegar?

Ela vai permitir ao médico saber de antemão e precisão se o paciente terá uma doença por meio de um sequenciamento genético extremamente completo. Não será mais usar o dedo para ter uma gotinha de sangue para ser examinado, mas ter informações por meio de um milhão de contas para entender sequencias genéticas. E aqui entra uma questão ética importante. Imagine uma pessoa a ser admitida em um emprego com uma variante genética que lhe fará viver por mais um ano e o empregador saber disso? Há muito o que ser ainda discutido na medicina do futuro.


O senhor acredita que a IA vai um dia substituir o médico?

Não. Mas o médico que trabalha com IA tem inúmeras vantagens, é um médico melhor. A IA pode ler os exames trazidos pelo paciente e ainda entregar para o médico uma leitura sobre o que aconteceu com o indicador que ele quer ver. O profissional da saúde economiza tempo e tem uma interpretação rápida e melhor. Mas o poder de decisão é do médico.


Fonte: O Globo

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