O médico que quer salvar o planeta com hambúrguer vegetal: conheça a Impossible Foods



Patrick “Pat” O’Reilly Brown estava no ápice de uma bela carreira de médico e pesquisador em 2009, quando decidiu tirar um período sabático para repensar a vida. Para a maioria de seus colegas, Pat, 55 anos à época, estava só fazendo uma parada estratégica para retomar, depois de alguns meses de descanso, seu campo de trabalho original, a investigação científica em busca de novos tratamentos de doenças. Mas não foi isso que ocorreu.


Pat havia feito pós-doutorado na Universidade da Califórnia, em São Francisco, sob a orientação dos ganhadores do Nobel de Medicina Michael Bishop e Harold Varmus, premiados em 1989 por estudos em cancerologia, e se notabilizado por integrar uma das equipes que definiram o mecanismo pelo qual o HIV infecta as células humanas. Teve participação importante ainda em estudos que desvendaram o desenvolvimento de vários tipos de câncer.


Ao interromper a rotina de pesquisador e professor de bioquímica na Universidade Stanford, Pat não queria se afastar totalmente do meio científico, mas usar sua expertise em algum empreendimento inovador. Como não sabia que empreendimento seria esse, ao longo dos 18 meses de seu período sabático rodou o mundo e manteve contato com especialistas das mais diversas áreas. Acabou definindo seu novo rumo profissional, porém, num almoço com um velho conhecido, o geneticista e cientista computacional americano Michael Eisen.


Quando a conversa com Michael se concentrou num tema caro aos dois, as mudanças climáticas, Pat pediu a opinião do colega sobre medidas para conter as emissões que degradam o planeta. “O problema maior são os bois”, respondeu Michael, referindo-se ao bilhão e meio de reses ruminantes que jogam metano na atmosfera.


“Logo percebi que o maior problema ambiental do mundo era a criação de animais”, contou Pat à Época NEGÓCIOS. “Quase metade da terra livre de gelo e mais de um quarto da água doce do planeta são usados para produzir o trilhão de quilos de carne consumido no mundo por ano. Se reduzirmos o uso de animais como alimento, a terra e a água poderão ser usadas de forma mais equilibrada, atenuando as mudanças climáticas e deixando as pessoas mais saudáveis.”


Depois de levantar uma rodada inicial de capital de risco da Khosla Ventures, Pat fundou a Impossible Foods em 2011, decidido a descobrir como criar carnes, laticínios e peixes à base de plantas que pudessem concorrer, de igual para igual, nos quesitos sabor e textura, com os produtos tradicionais de origem animal. Nos anos seguintes, a Impossible Foods continuou recebendo investimentos, que hoje somam US$ 300 milhões.


“Nosso objetivo nunca foi oferecer produtos para veganos ou vegetarianos, que já escolhem seus cardápios de maneira sustentável. Para deslocar a demanda por carne animal, tínhamos muito claro que era preciso alcançar os consumidores que amam carne e só admitem trocá-la por outro produto tão ou mais saboroso. Cerca de 90% dos consumidores do nosso hambúrguer são comedores de carne animal”, afirmou Pat, um vegetariano que comeu seu último bife de boi em 1976.


Até lançar o Impossible Burger, o primeiro — e, até agora, único — produto da empresa, foram cinco anos de tentativas e erros. Ele é feito à base de proteínas de soja e de batata, combinadas com óleos de coco e girassol, mas seu diferencial está num “ingrediente mágico”, o “heme”, uma molécula de ferro presente em todas as células animais e nas raízes da soja. É essa molécula, muito abundante no músculo animal, que torna a carne deliciosa, segundo Pat. Ela será a base também de todos os produtos a serem lançados pela empresa — os próximos serão os substitutos vegetais das carnes de porco, frango e peixe.


A escolha do hambúrguer como primeiro produto da Impossible Foods foi muito natural — os norte-americanos são loucos por essa bolacha de carne moída, consumindo três delas, em média, por semana. Para entrar nesse enorme mercado, a startup de Pat abusou dos testes cegos, nos quais desafiava provadores — todos onívoros — a escolher o hambúrguer de que mais gostavam, entre o produzido por ela e algum outro de origem animal. A partir dos resultados amplamente favoráveis para seu Impossible Burger, que frequentemente vencia esses comparativos, a companhia foi firmando uma clientela fiel.


“Nosso hambúrguer é vendido em 17 mil restaurantes em todo o mundo e em 3 mil supermercados nos Estados Unidos. Nosso objetivo a longo prazo é estar disponível em todos os lugares onde a carne animal convencional é vendida, e isso inclui o Brasil, é claro!”, informa Pat, sem avançar mais detalhes.


A distribuição do produto fora dos Estados Unidos ainda é uma barreira a ser vencida. Hoje os hambúrgueres “impossíveis” saem da fábrica da empresa em Oakland, Califórnia, ou são produzidos sob licença em unidades do OSI Group, todas localizadas nos Estados Unidos. A rede Burger King, por exemplo, vende o Impossible Burger em suas lojas norte-americanas, mas no Brasil lançou um hambúrguer vegetariano fabricado pela Marfrig.


De acordo com Pat, o Impossible Burger exige 75% menos água e 95% menos terra para ser produzido, além de gerar cerca de 87% menos emissões de gases de efeito estufa do que um hambúrguer convencional. Quando este e os futuros produtos da sua empresa ganharem escala mundial, Brown afirma que serão muito mais baratos do que os equivalentes de origem animal, além de mais saudáveis e não menos saborosos. Em 15 anos, acredita ele, esses produtos poderiam substituir completamente os consumidos hoje nos churrascos de fim de semana — salvando o planeta do superaquecimento.


Fonte: Época Negócios

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