O bom uso da tecnologia pode melhorar o atendimento médico



“Sempre houve muita resistência à adoção, no Brasil, da telemedicina, que é a possibilidade de prestar atendimento médico à distância por meio do uso da tecnologia.


A experiência durante a pandemia do novo coronavírus quebrou muito dessa resistência e tornou evidentes as oportunidades e as vantagens que existem tanto para médicos quanto para pacientes.


A telemedicina ajuda a quebrar barreiras logísticas ao levar atendimento médico de forma rápida a diferentes lugares. Pode ser usada, por exemplo, por pacientes para uma primeira consulta com um clínico geral antes de ir a um hospital ou procurar um especialista. Com isso, coloca-se o paciente certo na porta correta, evitando desperdícios e sofrimento.


Durante a pandemia, operei alguns casos de apendicite com urgência, porém em fases avançadas, porque as pessoas ficaram dias em casa, com dor e medo de ir aos hospitais. Se tivessem feito uma consulta remota, teriam tido uma experiência melhor com atendimento mais precoce.


Outro benefício é a possibilidade de conectar especialistas a profissionais de saúde em lugares carentes e, assim, permitir um atendimento de qualidade.


Em 2017, fizemos, em conjunto com a prefeitura de São Paulo, um programa de telemedicina em dermatologia com o objetivo de acelerar a triagem para os casos de câncer. Conseguimos zerar uma fila de 66 mil pacientes ensinando os clínicos a analisar e tratar e, dependendo da situação, encaminhar o paciente para cirurgia.


A telemedicina também é fundamental para facilitar o atendimento em regiões afastadas. Pense em um trabalhador em uma plataforma de petróleo: tirá-lo de lá para um tratamento custa cerca de US$ 15 mil, precisa ser feito por helicóptero. A tecnologia permite que um enfermeiro possa fazer atendimentos simples com a ajuda de um médico atuando de forma remota.


E pode ser vital em casos graves também. Há alguns anos, uma enfermeira de uma plataforma de petróleo no Brasil conseguiu detectar, com o apoio da telemedicina, que um trabalhador estava sofrendo um infarto. Orientada pelo médico online, administrou os medicamentos adequados e encaminhou o trabalhador a um hospital equipado para tratá-lo.

Um entrave para a expansão dessa prática no Brasil é legal. A regulação brasileira de telemedicina é de 2002. Ou seja, foi feita em um momento em que não existia nem banda larga nem smartphone.

A regulação cria um obstáculo, que é a exigência de haver médicos nas duas pontas para que o atendimento possa ser feito, o que, muitas vezes, acaba com a vantagem de quebrar a barreira logística e atingir lugares remotos.


Em março de 2020, um decreto presidencial retirou essa exigência, mas, quando sua vigência terminar, volta a regra antiga, o que não faz sentido. Acho que a sociedade não permitirá esse retrocesso. Argentina, Uruguai e até Venezuela têm legislações mais modernas que a nossa.


Em janeiro de 2020, antes da pandemia, a telemedicina do Einstein fez 1,2 mil atendimentos. Em maio, foram 21,8 mil e, em dezembro, 22,5 mil. No início, a maior demanda era relacionada à Covid-19. Depois, ganharam espaço as consultas para o controle de doenças crônicas.


A experiência foi aprovada pela imensa maioria dos pacientes que a utilizaram e vão querer incorporar a telemedicina. A regulação precisa acompanhar.


O Conselho Federal de Medicina já fez uma proposta para atualizar a regulação, mas ela causou uma celeuma tão grande que não foi para a frente. Alguns médicos temem perder espaço para as máquinas. Discordo.


A telemedicina permite levar o atendimento para longe, o que aumenta o campo de atuação dos médicos – desde que realizado com a maior qualidade à semelhança do que é feito presencialmente.

Outros criticam a suposta desumanização da relação médico-paciente. Vejo o contrário acontecendo.

A tecnologia, de forma geral, pode tornar o atendimento mais humano ao permitir que o médico se concentre na consulta de fato e não em atividades secundárias ou burocráticas.


Isso vai além da telemedicina. Programas de digitalização e inteligência artificial podem, por exemplo, inserir informações de uma consulta no prontuário sem tomar o tempo do médico e do paciente.


Também podem analisar exames e informar automaticamente resultados que são normais: não há necessidade de agendar uma nova consulta para passar essa informação. O médico só seria acionado quando houvesse algo fora do padrão.


Os pacientes podem ter suas informações centralizadas e receber avisos de programas de prevenção e de quando devem fazer check-ups.


Temos de continuar evoluindo para fazer um bom uso da capacidade tecnológica que temos, e que vai evoluir ainda mais, para ampliar e melhorar a qualidade e a humanização do atendimento médico.”


Fonte: InfoMoney

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