Novos casos de hepatite C diminuem, mas surgem novos desafios relacionados com a doença

A prevalência de hepatite C crônica vem diminuindo entre pacientes que passaram por transplante renal. Isso é o que mostra estudo feito no Hospital do Rim, ligado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que avaliou transplantados atendidos na unidade em dois períodos: 1993 a 2003 e 2004 a 2014.

Apesar da tendência de queda da infecção pelo vírus da hepatite C verificada nos últimos 20 anos, o artigo publicado em setembro no periódico European Journal of Gastroenterology & Hepatology [1] mostra que surgiram novos desafios clínicos, por exemplo, a idade mais avançada dos pacientes e a maior prevalência de cirrose.

A médica gastroenterologista Dra. Maria Lúcia Ferraz, professora da Unifesp e uma das autoras da pesquisa, explicou os dados em entrevista ao Medscape.

O estudo de coorte retrospectivo identificou 11.715 pacientes que passaram por transplante renal no período analisado, destes, 2.969 pacientes foram atendidos de 1993 a 2003, e 8.746 de 2004 a 2014. A prevalência de infecção pelo vírus da hepatite C no primeiro período foi de 7% e caiu para 4,9% no segundo período.

Ao observar os pacientes transplantados que tinham hepatite C crônica, os avaliados mais recentemente (2004 a 2014) eram mais velhos: 46,2 anos versus 39,5 anos. Neste período também foi observada predominância de transplantes com doadores falecidos (74% vs. 55%), mais pacientes com história de transplante renal (27% vs. 13,7%) e mais pacientes cirróticos (13% vs. 5%). Por outro lado, entre 2004 e 2014 a taxa de pacientes com história de transfusão sanguínea foi menor (81% vs. 89,4%), bem como com coinfecção hepatite B/hepatite C (4,7% vs. 21,4%).

Quanto aos resultados dos transplantados, os pesquisadores não identificaram diferenças com relação à perda do enxerto, porém, a descompensação foi mais frequente no período mais recente e a sobrevivência dos pacientes também foi menor do que em relação à primeira década.

A Dra. Maria Lúcia afirmou que, segundo a literatura, o paciente em diálise tem uma frequência de hepatite C crônica cinco vezes maior do que a população geral, e essa taxa acaba sendo transposta para os pacientes transplantados.

“A hepatite C é mais frequente nos pacientes com doença renal porque, em geral, antes de fazer um transplante eles ficam muito tempo fazendo diálise e pode haver a contaminação nesse procedimento. Isso era uma questão principalmente antigamente, pois o vírus da hepatite C era desconhecido. Além disso, essas pessoas, principalmente as mais velhas, recebiam muitas transfusões de sangue em um período em que ainda não havia testagem para esse vírus. Há ainda um outro ponto: o vírus da hepatite C, além de atacar o fígado, também pode acometer o rim e causar uma glomerulonefrite associada ao vírus. Existe, portanto, uma mão dupla: quem tem doença renal tem mais hepatite C e quem tem hepatite C tem mais doença renal”, destacou.

A queda de prevalência de infecção pelo vírus da hepatite C entre os transplantados nos últimos 20 anos, como observado na pesquisa da Unifesp, reflete, segundo a Dra. Maria Lúcia, que, nos últimos anos, passou-se a ter um controle maior com a adoção de medidas de higiene durante a realização da diálise.

“Outra questão importante é que, hoje em dia, os pacientes não precisam de tanta transfusão de sangue e, mesmo quando esse recurso é usado, há segurança: o sangue é testado para o vírus da hepatite C”, lembrou.

A tendência de redução da incidência de hepatite C tem sido verificada também na população em geral: “A incidência diminuiu muitíssimo, e casos novos são raros. De maneira geral, as novas contaminações estão mais restritas a alguns grupos, por exemplo, entre usuários de drogas intravenosas”, afirmou a médica, lembrando que, em contrapartida, “a descoberta de casos antigos foi intensificada, pois há esforço nesse sentido, reforçado por campanhas frequentes nos meios de comunicação”.

Se, por um lado o número de casos novos da doença está em queda, ainda se observa resquício do passado na atualidade, como o perfil mais idoso do paciente infectado e com maior prevalência de cirrose observada entre 2004 e 2014.

“A idade avançada acaba acarretando maior gravidade porque esses pacientes têm mais tempo de infecção e, quanto mais tempo, maior a tendência de a doença evoluir com cirrose. Quando a cirrose ou outras complicações já estão instaladas, mesmo que o tratamento seja feito e que haja cura da infecção, as complicações não desaparecem. O transplantado é um paciente complicado porque é imunossuprimido e o quadro torna-se mais complexo quando há cirrose e/ou outras complicações”, destacou a pesquisadora. Ela acrescentou que, antigamente, mesmo quando se conhecia o diagnóstico de hepatite, o tratamento era difícil, pois o medicamento (interferon) causa muitos efeitos colaterais e frequentemente os pacientes não toleram a terapia, o que contribuía para evolução da doença e frequência maior de cirrose.

Hoje, segundo a Dra. Maria Lúcia, o panorama mudou radicalmente, pois existem antivirais que são de uso oral, administrados em dose única diária por três meses e que alcançam a cura em quase 100% das pessoas.

“A situação é muito diferente, porque conseguimos tratar os pacientes em diálise e conseguimos que eles cheguem ao transplante sem vírus. Se fizermos esse mesmo estudo daqui a 10 anos, teremos um cenário completamente diferente, onde praticamente não haverá ninguém com hepatite C e cirrose. De fato, isso já acontece em alguns países. A França é um exemplo”, destacou.

Segundo a pesquisadora, a hepatite C vem diminuindo e provavelmente diminuirá mais, porém ainda há pacientes que podem requerer atendimento multidisciplinar.

“O atendimento do paciente renal deve envolver o nefrologista, mas também outros especialistas, entre eles, o hepatologista”, disse.

Fonte: Medscape

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