Nos EUA, escolas descobrem riscos para saúde na água depois dos fechamentos causados pela covid-19



A covid-19 não é a única doença com a qual professores, alunos, pais e funcionários terão de se preocupar enquanto algumas escolas tentarem reabrir. A Legionella poderá aparecer nos encanamentos de água dos edifícios escolares, e é possível que algumas medidas destinadas a garantir a segurança das pessoas contra o coronavírus até mesmo aumentem os riscos de doenças letais causadas pela bactéria.


Na semana passada, em Ohio, os funcionários encontraram a Legionella em cinco escolas de diversas cidades. Na sexta-feira, um distrito escolar da Pensilvânia também informou ter encontrado a bactéria em quatro de suas escolas.


"Não é comum ouvir dizer que nove escolas, em apenas uma semana, detectaram a bactéria", disse Andrew Whelton, professor-adjunto de engenharia civil, ambiental e ecológica da Purdue University, Indiana, que estuda os efeitos do fechamento nas redes hidráulicas. Ele acrescentou que é possível que um número maior de outras escolas esteja testando a água para verificar a presença da bactéria em um ano típico.


A Legionella, em geral chamada Legionella pneumophila, é a bactéria que causa a moléstia dos Legionários, que afeta as vias respiratórias. Ela pode se formar na água estagnada e depois dispersar-se pelo ar e ser inalada, por exemplo, ao abrir um chuveiro ou uma torneira. Pode ser fatal em 1 caso sobre 10, segundo os Centros de Prevenção e Controle de Doenças (CDC).


Embora as crianças menores sejam menos suscetíveis a ser afetadas pela doença dos Legionários, as maiores, adultos e pessoas com sistemas imunológicos comprometidos são vulneráveis.


Como medida de proteção contra o coronavírus, muitos edifícios escolares ficaram desocupados desde março. Banheiros, lanchonetes e instalações esportivas deixaram de ser usados. Embora uma baixa taxa de ocupação das escolas seja normal durante as férias, muitas estão abertas para os cursos de verão e outras atividades. Os especialistas temem que a água tenha ficado estagnada nas tubulações durante o fechamento e que as escolas não disponham de planos ou de uma orientação eficiente das autoridades da saúde para tratar os efeitos dos fechamentos prolongados.


"Em geral as escolas não têm um plano de gerenciamento da água", disse Whelton. "É um mito que tenham alguma coisa. Pela minha experiência, não têm".


As precauções que as escolas podem tomar a fim de limitar a infecção do coronavírus poderão até acrescentar outro problema às preocupações com a Legionella. Por exemplo, algumas escolas desligaram os bebedouros a fim de prevenir a disseminação oral do vírus ou desativaram todas as pias para garantir o distanciamento social. Algumas instalações esportivas também permanecem fechadas por causa do risco para atletas estudantes e treinadores.


Mas a água estagnada em bebedouros não usados ou nos encanamentos das pias pode ser um excelente reservatório para as bactérias se desenvolverem. E os chuveiros, como os dos vestiários, são lugares típicos de proliferação da Legionella. Os gerentes das instalações precisarão ficar alertas contra a bactéria nos complexos de atletismo das escolas se os esportes reiniciarem na próxima primavera. Segundo Whelton afirmou, muitas pessoas responsáveis pela gestão das redes hidráulicas dos edifícios "não tinham ideia de que é possível pegar a Legionella em chuveiros e toaletes.".


Os CDC emitiram diretrizes para a reabertura de lojas e edifícios depois do fim do fechamento por causa do coronavírus. Uma porta-voz da agência disse que suas diretrizes "se aplicam a todos os tipos de edifícios", inclusive às escolas. Mas a linguagem vaga de muitas destas diretrizes, disse Whelton, implica que as escolas possam adotar as mesmas medidas ou nem todas as medidas preventivas gerais e declarar que obedeceram às normas.


Em geral, contra o crescimento da Legionella usa-se um processo conhecido como descarga. A introdução de água limpa na rede com uma pequena dose de cloro consegue limitar a capacidade de propagação da bactéria. Mas a descarga precisa ser feita regularmente e para todas as saídas. Isto significa abrir cada torneira e chuveiro e fazer funcionar todas os toaletes.

Uma das escolas de Ohio que encontrou a bactéria - Englewood Elementary, no distrito escolar de Northmont City, fora de Daytona - começou a aplicar a descarga em suas tubulações em julho. Quando a companhia de manutenção hidráulica descobriu a Legionella, na semana passada, a escola fechou toda a água do edifício e despejou uma quantidade elevada de cloro no sistema. Uma porta-voz do distrito informou que os testes da água continuam para garantir a sua pureza.


A única maneira de se saber se a descarga é eficiente é testando a água. Uma única descarga não eliminará a Legionella presente. A Union High School de Milton, Ohio, começou os testes no fim de julho. Depois de 72 horas, ela descobriu que o nível do cloro havia caído a zero, e quando os testes foram repetidos, o nível voltou mais uma vez a zero. A escola aplicou novamente a descarga, e encontrou Legionella na água.


Caitlin Proctor, um pesquisadora do curso de pós-doutorado na Purdue, que estudou a Legionella durante o fechamento, disse que, apesar do uso do cloro, o biofilme das bactérias pode proteger algumas delas impedindo que desapareçam completamente. "Elas podem proliferar novamente quando o desinfetante desaparece".


Funcionários do distrito escolar da Área de Fox Chapel, em um subúrbio de Pittsburgh, que também detectaram a bactéria em diversas escolas, avisaram em um e-mail dirigido aos pais que estavam jogando água quente na rede. O processo, conhecido como choque térmico, foi proposto pelas autoridades de saúde do condado como outro método para a eliminação da bactéria. Entretanto, grupos do setor questionam a eficácia do choque térmico no caso da Legionella. Tampouco há uma ordem para que as escolas comuniquem se a encontrarem. As autoridades de saúde são obrigadas a informar aos CDC os casos de doenças provocadas pela Legionella, mas não a presença da bactéria. Algumas das escolas dos estados de Ohio e Pensilvânia abriram as portas aos estudantes esta semana, apesar de não terem condições de confirmar a eliminação da bactéria, o que pode levar semanas.


Whelton disse que se outras escolas testarem a água, muitas provavelmente vão detectar o problema. Resta ver quantas vão optar por fazer isto. "Se os pais não foram comunicados pelas escolas a respeito da realização dos testes, terão de começar a fazer perguntas".


Fonte: G1

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