Mortes em UTIs de Covid no estado de SP já superam as altas médicas



O aumento expressivo de pacientes com suspeita ou confirmação de Covid-19 internados no estado de São Paulo desde meados de fevereiro teve como resultado a reversão de uma tendência que havia se mantido desde o início da pandemia. Agora, a quantidade de pessoas que estavam internadas em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) e morreram já supera a de doentes que venceram a doença e tiveram alta médica.


Desde a semana 7 de 2021, que teve início em 14 de fevereiro, pelo menos 52% dos pacientes que entraram na UTI naquela semana morreram. Neste intervalo, 48% receberam alta da UTI. Os dados podem ser observados no gráfico abaixo, a partir da coluna "semana 7", no canto direito. O trecho em vermelho da coluna se refere às mortes, enquanto a parte azul equivale às altas. No período posterior à semana 7, as quatro semanas seguintes, que incluem o intervalo entre 14 de fevereiro e 13 de março, as mortes continuaram superando as altas na UTI. Os números contrariam dados divulgados pelo governo estadual em entrevista à imprensa na última sexta-feira (9). Na ocasião, Paulo Menezes, membro do Comitê de Contingência do governo paulista, afirmou que “nós hoje temos uma letalidade de UTI no estado de São Paulo de cerca de menos de 30%”.

Nesta terça-feira (13), em entrevista coletiva de imprensa, o secretário estadual de Saúde, Jean Gorinchteyn, confirmou os dados da análise feita pela TV Globo. “É uma doença que vem se mostrando mais agressiva especialmente em jovens”, afirmou Gorinchteyn. “À medida que esses jovens retardam também a sua procura às unidades de saúde, até porque se sentem mais tranquilos por serem jovens, vêm numa condição muito mais grave. Aí sim a letalidade atinge a cifra de 50%, 52%.” Em nota, a Secretaria Estadual da Saúde explicou que, “considerando os óbitos e internações da semana epidemiológica 14 [entre 4 e 10 de abril], a letalidade foi de 30%, o que condiz com os dados apresentados na coletiva da última sexta-feira (9)". Ampliação de leitos no estado Entre 1º de fevereiro e 1º de abril, o número de pacientes em UTI aumentou 115%, de 6.032 para 12.964. Para fazer frente a essa demanda, o governo estadual anunciou a ampliação de leitos. No mesmo período, eles saltaram de 8.836 para 14.054 em média. No entanto, medidas mais rígidas de distanciamento social só foram implementadas em 6 de março.

Para entender como o aumento da demanda influenciou na letalidade nas UTIs de Covid, a produção da TV Globo analisou dados divulgados pelo Ministério da Saúde de mais de 117.498 pacientes de UTIs de Covid públicas e privadas de São Paulo.

Os pacientes deram entrada na UTI em algum hospital do estado no período entre 1º de março de 2020 e 13 de março de 2021, com sintomas de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). Considerando o histórico total da pandemia, 54% deles (63.675 pessoas) acabaram tendo alta. Os demais 53.823 vieram a óbito por alguma causa (Covid-19 confirmada, outra causa de SRAG ou sem SRAG especificada). Mas, observando o desfecho dos casos semana a semana, é possível ver que, no período mais recente analisado, a maior parte dos casos acabou em óbito. Agravamento da doença e precarização do atendimento Segundo o médico sanitarista Walter Cintra Ferreira, professor da Faculdade Getúlio Vargas (FGV-SP) e especialista em administração hospitalar, o aumento da letalidade dos casos graves de SRAG pode ser explicado por mais de um motivo.

“É preciso verificar se esse aumento de letalidade é decorrente da doença ou da condição de atendimento. Eu acredito que sejam as duas coisas. Os casos são mais graves, e as condições de atendimento pioraram”, afirmou ele.

Segundo Cintra Ferreira, as condições de atendimento envolvem a escassez de insumos, devido ao alto número de novos pacientes sendo internados na UTI. “Por exemplo: a falta de insumos de intubação orotraqueal [procedimento que insere o tubo dentro da traqueia] piora as condições de manejo dos pacientes.”

Essas condições também podem ser afetadas por falta de recursos humanos suficientes para atender tantos pacientes. “A sobrecarga dos profissionais com a ampliação de leitos e a contratação de equipes ainda em formação, ou mesmo improvisação de equipes, certamente baixam a qualidade da assistência e levam à piora nos desfechos”, explica o médico. “A gente não vai superar essa pandemia aumentando o número de leitos de internação. A gente só vai superar essa pandemia na hora que a gente conseguir cortar a cadeia de transmissão”, diz Walter Cintra Ferreira, médico sanitarista. Em nota, a secretaria afirma que “a reportagem também equivoca-se ao correlacionar a expansão de leitos com a letalidade em decorrência da COVID-19, uma vez que os efeitos da doença em cada organismo variam e consideram uma série de fatores clínicos do paciente, podendo ou não ocorrer agravamento”. Ainda de acordo com a pasta, “o Governo de São Paulo tem feito sua parte e mantém 12 hospitais de campanha, praticamente tendo triplicado o número de leitos de UTI, saltando de 3,5 mil leitos no pré-pandemia para os atuais 10 mil leitos do tipo, um recorde no fortalecimento da rede com apoio dos municípios”. Dados mais recentes ainda são preliminares A análise não considera as quatro semanas mais recentes, devido ao atraso de notificação e ao alto número de casos sem desfecho.

Os números se referem apenas aos casos que já continham no Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica de Gripe (Sivep-Gripe) até a atualização de 5 de abril o registro da data em que o paciente deu entrada na UTI e o desfecho do caso: se a pessoa teve alta ou acabou morrendo.

Outros 12.283 casos de pacientes que precisaram de UTI constam no sistema até essa data, mas ainda não tiveram o desfecho registrado. Por isso, não é possível saber se esses pacientes ainda estão internados, se já tiveram alta ou se já morreram.

Foram considerados todos os casos de SRAG porque a triagem e o tratamento dos pacientes ainda suspeitos de Covid-19 são feitos pela mesma estrutura hospitalar que o de pacientes com a doença já confirmada.


Fonte: G1



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