Medo de contrair Covid-19 e morrer aumenta entre jovens e adolescentes em SP em relação a 2020


A pandemia de Covid-19 mudou drasticamente a rotina da Tainara Almeida, de 22 anos, moradora do Grajaú, no extremo da Zona Sul de São Paulo. Acostumada a sair logo cedo e só retornar no fim da noite, agora, a jovem passa o dia trancafiada em casa. Asmática, ela não sai de casa há seis meses com medo de contrair o novo coronavírus.

“Eu não faço nada fora de casa, eu compro no mercado tudo por aplicativo porque tenho muito medo. Eu sou asmática e sei muito bem o que é ficar sem ar”, disse. Em home office desde o início da pandemia, a engenheira de software também estuda pelo computador e dá aulas virtuais em uma Organização não Governamental (ONG) que ensina tecnologia para jovens da periferia. A última vez que saiu de casa foi no dia 3 de dezembro para ir ao médico e passar no trabalho.

O medo da contaminação fez com que ela redobrasse os cuidados e rotina de higiene após o aumento do número de casos confirmados da doença e mortes em todo o país.

“Saio de casa só para colocar o lixo para fora e saio com as luvas e com a máscara, tenho um sapato para colocar o lixo na rua e tenho um sapato para ficar em casa. Lavo duas, três, vezes a mão ao pegar alguma coisa que não foi esterilizada. Dinheiro só pego com luva. Estou tomando três vezes mais cuidado do que no começo [da pandemia].” A jovem conta que o medo de ser infectada aumentou muito em relação ao início da pandemia, em março de 2020. “Eu perdi alguns tios, primos, eu perdi amigos. Agora o medo está maior porque a vacina não vem, mesmo sendo asmática eu não consegui tomar a vacina porque minha asma é considerada leve”, argumentou. Assim como o caso de Tainara, também aumentou o medo entre jovens e adolescentes de contraírem a Covid-19 ou morrerem devido às complicações da doença no estado de São Paulo. É o que aponta um levantamento realizado pela Espro (Ensino Social Profissionalizante).

A pesquisa mostra que 89% dos entrevistados têm preocupação alta ou muito alta de ficar doentes. Em abril de 2020, data em que foi realizada a primeira pesquisa, o índice era de 83%, e de 82% em novembro do ano passado, quando foi feita a segunda etapa do levantamento.

O temor dos jovens cresceu à medida que o perfil das vítimas fatais de Covid deixou de ser prioritariamente de idosos.

“Depois que os idosos começaram a ser vacinar e a gente viu pessoas novas que não tinham tomado a vacina morrendo eu me desesperei porque eu sei que sou asmática, mas tem pessoas que não são e estão morrendo”, contou. Levantamento Segundo a pesquisa, 81,3% dos entrevistados relataram medo de morrer, ante 70,3% em abril de 2020 e 75% em novembro. “O levantamento mostra de forma clara que o adolescente e o jovem paulistas finalmente entenderam que a Covid-19 é uma doença extremamente contagiosa”, afirmou Alessandro Saade, superintendente executivo da Espro. Entre os entrevistados, a preocupação que amigos e familiares sejam infectados pela Covid é de 96,1%. Na primeira etapa da pesquisa, 92,5% relataram esse medo e 94,6% na segunda fase.

Quando questionados se tinham medo que um familiar morresse com o novo coronavírus, 95,72% dos entrevistados disseram que sim, contra 90,71% em abril do ano passado e 94,5% em novembro.

A pesquisa Jovem Covid-19 é um levantamento sobre a influência da pandemia na vida pessoal e profissional de brasileiros entre 15 e 24 anos. Foram entrevistados 1.710 pessoas somente no estado de São Paulo em abril deste ano. Ao todo, foram realizadas 17.422 entrevistas em 18 estados e no Distrito Federal. Isolamento O número de jovens que diziam sair de casa mesmo para fazer coisas não essenciais despencou no estado de São Paulo, de 23,28% na etapa anterior da pesquisa (novembro de 2020) para 6% em março de 2021.

O índice dos que alegavam não tomar nenhuma medida de isolamento também diminuiu de 7% para 1% no mesmo período.

E aumentou o número de jovens que dizem que não recebem mais visitas em casa: 59,86% (ante 40,13% em novembro). Já os índices de outras das principais medidas de prevenção, como lavar as mãos, usar álcool em gel e utilizar máscara, têm se mantido estáveis, em patamar acima dos 90%.

"A pesquisa revela que os adolescentes e jovens paulistas, estão mais conscientes sobre o isolamento e praticando medidas de distanciamento social. Houve queda drástica de jovens que dizem não tomar nenhuma medida de isolamento. Outro índice que mostra esse movimento: se em novembro de 2020 23% diziam sair de casa mesmo para fazer coisas não essenciais, agora o percentual é de 6%", disse Saade. Sentimentos Os jovens e adolescentes também expressaram os sentimentos mais comuns durante a pandemia e dizem que estão tomando mais cuidados para evitar a contaminação pela doença.


Veja abaixo:

  • estou “mais cuidadoso do que o normal”: (83%)

  • “mais preocupado”: (79%)

  • “mais triste”: (76%)

  • “mais pensativo”:(93%)

  • “mais ansioso” (91%).

“Eu tenho muito medo de quando precisar sair, eu não sei mais se consigo conversar com as pessoas em público e interagir socialmente”, afirma a moradora do Grajaú. Ela começou a fazer terapia para lidar com o isolamento social. Economia O medo de perder o emprego ou a fonte de renda dos jovens durante a pandemia continua alto e chega 89,6%. Esse é o mesmo índice de novembro do ano passado. Em abril de 2020, o índice era de 87,8%.

Os impactos da pandemia na economia também aflige 92,3% dos entrevistados que dizem estar preocupados ou muito preocupados. Em novembro de 2020, a taxa era de 88,8% e de 82,01% em abril de 2020.

A queda de renda é outra preocupação, sendo que 6% dos jovens relataram terem tido diminuição dos ganhos ou teve diminuição no salário de alguém que reside junto e divide as contas. Outros 7% disseram ter perdido o emprego ou conhecerem alguém que perdeu neste período.

O recorte também mostra que jovens socialmente vulneráveis correm maior risco de queda de renda com a Covid-19. O percentual de jovens com renda de até um salário mínimo que tiveram queda de renda própria ou em casa foi de 9,4%. Já os que recebem acima de cinco salários mínimos foi de 1,1%.

Apenas 28% dos jovens paulistas dizem que fazem home office integral e 39% ainda trabalham integralmente na empresa.

"Quanto menor a renda do jovem paulista, menos ele trabalha em home office integral. Para jovens com renda familiar até um salário mínimo, o índice é de 20,5%; já para jovens com renda familiar acima de cinco salários mínimos, o percentual é de 46,7%. O contrário é verdadeiro: 40% dos jovens com renda familiar de até um salário mínimo continuam indo normalmente até a empresa, ante 26,1% dos com renda familiar acima de cinco salários mínimos", explica Saade. Apesar de morar na região periférica da cidade, onde a maioria das pessoas trabalham presencialmente, Tainara é uma das poucas exceções e faz home office desde março do ano passado. “Eu me sinto muito privilegiada.”


Fonte: G1

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