Medicina de dados: as promessas (e os desafios) do big data na saúde

Imagine se tivéssemos um sistema público de saúde integrado de norte a sul do país, com máquinas capazes de cravar diagnósticos e que indicassem a necessidade de o paciente ser internado ou passar por uma cirurgia. Parece cena de filme de ficção, mas é a realidade para a qual a medicina está caminhando, graças às tecnologias de inteligência artificial, também conhecida simplesmente como IA. Tem sido cada vez mais comum ver médicos e estudos da área da saúde usando termos como big data, machine learning e data analytics. E toda essa tecnologia tem um propósito — quer dizer, vários: melhorar o atendimento, fazer diagnósticos sem erros, realizar exames mais precisos e prevenir acidentes são alguns deles. Vai muito além, portanto, do desenvolvimento de sistemas, aplicativos e outros dispositivos.

A inteligência artificial tem sido encarada como uma grande aliada dos profissionais de saúde. “Sabemos que a terceira maior causa de morte [nos Estados Unidos] ocorre por condutas erradas [dos médicos]. O uso de computadores deve melhorar a forma como tomamos decisões”, afirma o médico Leo Anthony Celi, pesquisador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos EUA, e um dos cientistas mais respeitados globalmente na área de estudos sobre medicina e big data — que nada mais é do que a união de um volume grande e complexo de dados. Para que médicos e pacientes possam um dia desfrutar de um sistema de saúde ultratecnológico, não podemos falar apenas de aparelhos avançados baseados em IA. É preciso discutir, primeiramente, como será feito o registro de dados clínicos da população. Afinal, eles são o ponto de partida para que especialistas (e computadores) acompanhem a evolução do paciente e entendam padrões epidemiológicos, por exemplo.

“21% das instituições de saúde com acesso à internet armazenam dados em formato totalmente eletrônico”

Coletar e registrar informações de saúde pode parecer algo tão simples quanto preencher um formulário, mas não é bem assim. Principalmente em um país do tamanho do Brasil, que soma 210 milhões de pessoas com acessos muito divergentes à rede de saúde. A inteligência artificial pode ajudar muito: ela é capaz de pegar um volume imenso de dados, reconhecer padrões e gerar algoritmos que podem tanto auxiliar médicos no atendimento diário quanto revelar o cenário da saúde de toda a nação. Para isso, no entanto, é preciso ter sistemas informatizados e substituir fichas de papel por prontuários eletrônicos — o que, além de evitar gastos e erros, economiza tempo nas consultas. Algo que ainda está fora da realidade de muitas instituições do país. Para ter ideia, 39% dos estabelecimentos de saúde brasileiros registram informações cadastrais e clínicas dos pacientes exclusivamente em prontuários manuscritos, enquanto apenas 21% das instituições com acesso à internet armazenam os dados em formato eletrônico. Esses números são do livro Medição da Saúde Digital (2019), publicado pela Organização Pan-Americana da Saúde e pelo Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br). O documento mostra, por outro lado, que o cenário está mudando: 40% dos médicos já fazem prescrições digitalmente.

A missão parece ainda mais impossível se o objetivo for integrar as informações colhidas em todos os estabelecimentos de saúde do país — um entrave que inclusive países reconhecidos pelos investimentos em tecnologia enfrentam.

É o que mostra uma pesquisa feita em 2016 pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) — que reúne 36 países e leva a fama de ser o “clube dos ricos”. O levantamento incluiu 30 países-membros e revelou que, apesar de a maioria investir em registros eletrônicos, poucos conseguiram alcançar um nível de integração que permita extrair dados para pesquisas e estatísticas. A maior parte ainda colhe informações de forma isolada e as analisa separadamente. Canadá, Espanha, Suécia e Suíça, por exemplo, só conseguiram fazer isso em algumas regiões de seus respectivos territórios. Já Chile, Dinamarca, Japão, México e Estados Unidos estão na lista das nações que nem sequer pretendem implementar o registro eletrônico na saúde em âmbito nacional.

Big data na saúde pública No Brasil, dinheiro não é o único problema. Usar inteligência artificial na saúde pública é difícil pela ausência de infraestrutura. “O profissional de saúde tem dificuldade de registrar a informação adequadamente por não ter equipamentos suficientes”, avalia Jacson Barros, diretor do Datasus, o departamento de informática do Sistema Único de Saúde (SUS). “Temos hoje na atenção básica 40 mil UBSs [Unidades Básicas de Saúde]. Dessas, pouco mais de 50% têm um sistema de informação e conseguem informatizar sua rotina”, destaca. Ele ressalta que a situação é mais crítica nas regiões Norte e Nordeste. As startups, que poderiam ajudar o Ministério da Saúde a desenvolver soluções para o cruzamento nacional de informações, ainda são pouco contratadas. “Precisamos alterar o nosso modus operandi e a forma de trabalhar com a iniciativa privada, tornando-a mais flexível”, comenta o diretor do Datasus. Segundo ele, a pasta planeja criar uma área de inovação no sertão nordestino para entender, na prática, quais são as maiores dificuldades em áreas com pouco acesso a serviços de saúde de qualidade.

O Datasus também está criando bases de dados regionais para, em breve, conectar hospitais e postos de saúde em todo o país. “A massa de dados que temos hoje, mesmo ainda podendo ser ampliada, já é suficiente para a geração de algoritmos que possam nos ajudar”, ressalta Barros.

Os dados estão seguros? Essa é a pergunta que algumas pessoas se fazem quando preenchem as fichas dos estabelecimentos de saúde. Um receio evidente no estudo Data Citizens: A Era da Pós-Privacidade, realizado pela empresa de tecnologia MindMiners: quando perguntados o que sentiam ao compartilhar seus exames e históricos, 29% dos entrevistados responderam “nada confortáveis” e 21% declararam ficar “pouco confortáveis”. Mas há realmente o que temer? Segundo Priscila Raupp, cardiologista e membro do núcleo de telemedicina do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, já houve ataques a sistemas hospitalares com o objetivo de sequestrar informações, mas nenhum deles aconteceu no Brasil. Também existe um alerta na comunidade médica sobre o risco de dispositivos como bombas de infusão de insulina e marcapassos estarem na mira de hackers. Há a possibilidade de o sistema do equipamento ser invadido e o hacker fazer o software entender que a bateria acabou. Se o dispositivo for vital para o paciente, ele pode ter complicações e até falecer. Ameaças como essas não devem criar pânico. Mas, como o vazamento de informações pessoais não é algo tão improvável assim, todo cuidado é pouco. Cabe aos estabelecimentos de saúde fazer sua parte, como orientar funcionários a não acessarem sites suspeitos e adotarem senhas específicas nos computadores. “É muito importante que a gente saiba que existe esse risco e que tenha a cibersegurança como uma das medidas de boa prática médica e de bom atendimento ao paciente”, defende Raupp.

Fonte: Revista Galileu

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