Masculinidade excessiva associada a alto risco de suicídio

A masculinidade excessiva está associada a um aumento significativo do risco de morte por suicídio em homens, sugerem novas pesquisas.

No primeiro estudo a mostrar essa associação, os pesquisadores descobriram que homens com uma alta masculinidade tradicional – um conjunto de normas que inclui competitividade, repressão emocional e agressão – tiveram chance de morrer por suicídio quase duas vezes e meia maior do que indivíduos sem MTA. O achado ressalta o “papel central” do gênero na morte por suicídio.

“Descobrimos que homens com alta masculinidade tradicional tiveram chance de morrer por suicídio 2,4 vezes maior do que aqueles que não apresentaram masculinidade tradicional alta. Achamos que este é um resultado significativo, e para o qual é muito raro obter evidências”, disse ao Medscape o pesquisador do estudo, Dr. Daniel Coleman, Ph.D.

“Nossos outros achados também são importantes e interessantes”, acrescentou Dr. Daniel, professor associado da Fordham University, nos Estados Unidos.

“Um dos achados foi que a alta masculinidade tradicional foi associada a uma série de outros fatores de risco significativos para a morte por suicídio. Portanto, a masculinidade tradicional alta não apenas aumenta o risco de morte por suicídio, mas também pode ter efeitos indiretos por outras variáveis, como mau comportamento.”

O estudo foi publicado on-line em 12 de fevereiro no periódico JAMA Psychiatry.

Primeira avaliação

Nos Estados Unidos, a morte por suicídio é 3,5 vezes mais comum entre homens do que entre mulheres. Vários fatores podem explicar esse fenômeno; um fator plausível pode ser o alto nível do que os pesquisadores descrevem como “masculinidade tradicional”.

Curiosamente, estudos anteriores sugerem que os homens com alta masculinidade tradicional têm mais pensamentos suicidas do que as outras pessoas. No entanto, a possível influência da alta masculinidade tradicional e da mortalidade por suicídio ainda não foi estudada.

O estudo em tela é uma análise secundária do estudo longitudinal nacional Add Health , que começou em 1995 e acompanhou 20.745 adolescentes até a idade adulta jovem. O estudo não apenas mostrou uma associação direta entre medidas de masculinidade e morte por suicídio, mas também corroborou a conexão entre alta masculinidade tradicional e outros fatores de risco de suicídio identificados em pesquisas anteriores.

Para encontrar essa relação, Dr. Daniel e colaboradores usaram dados do estudo nacionalmente representativo Add Health. Um estudo anterior concluiu que nove variáveis do Add Health estavam associadas a suicídio, como história familiar de suicídio, ter sido expulso da escola, fugido de casa ou usado alguma arma, ser branco, já ter fumado, ter se envolvido em alguma briga séria no ano anterior, delinquência e brigas.

No estudo em tela, os pesquisadores avaliaram a hipótese de a alta masculinidade tradicional estar associada a essas nove variáveis, além de suicídio, depressão e acesso a armas.

O estudo Add Health começou em 1995 com 20.745 adolescentes que foram acompanhados ao longo do tempo. Na análise atual, os pesquisadores compararam dados deste estudo com os registros de óbito do National Death Index de 2014. A morte por suicídio foi definida usando procedimentos do National Death Index.

Os pesquisadores então usaram um procedimento protocolar para pontuar atitudes e comportamentos representativos de gênero. Como parte disso, uma única variável de probabilidade latente para se identificar como homem foi gerada a partir de 16 variáveis discriminadoras de gênero.

Os participantes que apresentaram probabilidade de pelo menos 73% de ser identificados como homens (> 1 desvio padrão acima da média) foram classificados como MTA.

“Há muita especulação sobre a masculinidade como fator de risco de suicídio entre os homens”, disse o Dr. Daniel.

“Mas é muito difícil estudar a morte por suicídio e algo psicossocial como a masculinidade. Portanto, essa foi uma tentativa de preencher essa lacuna e de testar a hipótese que está sendo bastante discutida.”

Um fator de risco relevante

Vinte e duas mortes ocorreram entre os participantes do estudo Add Health. Entre esses participantes, 21 eram homens (razão de chances ou odds ratio, OD, de 21,7; intervalo de confiança, IC, de 95%, de 2,9 a 161; P < 0,001).

A análise mostrou que todos os nove riscos de suicídio destacados em pesquisas anteriores foram positivamente associados a alta masculinidade tradicional, com tamanhos de efeito de pequenos a médios. Destes, o mais pronunciado foi história familiar de suicídio (OD de 1,89; IC 95%, de 1,3 a 2,7).

De maneira mais reveladora, os homens com uma alta masculinidade tradicional tiveram probabilidade 2,4 vezes maior de cometer suicídio do que aqueles que não receberam essa definição (IC 95%, de 0,99 a 6,0; χ2 = 3,979; P < 0,046). No entanto, os homens com alta masculinidade tradicional também tiveram probabilidade 1,45 vezes menor de relatar ideação suicida (OD de 0,69; IC 95%, de 0,60 a 0,81; χ2 = 23,06; P < 0,001). Não houve associação entre MTA e tentativas de suicídio.

Curiosamente, os homens com alta masculinidade tradicional tiveram probabilidade um pouco maior de relatar acesso fácil a armas (OD de 1,1; IC 95%, de 1,01 a 1,20; χ2 = 4,27; P < 0,04), mas apresentaram níveis mais baixos de depressão (d de Cohen = 0,17; P < 0,001).

A alta masculinidade tradicional não apenas tem uma associação direta com o suicídio, mas também com uma rede de efeitos indiretos, graças a sua associação com todos os outros riscos identificados no estudo anterior por outro grupo de pesquisadores.

A alta masculinidade tradicional pode ser uma influência subjacente no suicídio masculino, que aumenta a probabilidade de externalizar fatores de risco comportamentais, como raiva, violência, acesso a armas e problemas escolares.

O achado de que quase todas as vítimas de suicídio eram homens ressalta o papel central que o gênero desempenha nessas tragédias. Como tal, os pesquisadores esperam que o estudo leve a mais pesquisas, bem como esforços de intervenção abordando o papel da masculinidade no suicídio.

“Já existem medidas sendo tomadas em todo o mundo para tentar abordar os fatores de risco da masculinidade para a morte por suicídio. Portanto, embora não tenhamos as evidências de que este seja um fator de risco, de todo modo as pessoas têm operado sob essa hipótese”, disse o Dr. Daniel.

“Esperamos que a nossa pesquisa contribua para chamar a atenção para o fato de que a masculinidade tradicional alta é um fator de risco relevante em torno do qual nós podemos organizar a prevenção e o tratamento”, acrescentou.

Contribuição importante

Comentando os resultados para o Medscape, o Dr. Mark S. Kaplan disse que o estudo traz uma importante contribuição para a pesquisa sobre suicídio.

“Qualquer estudo que tente associar uma amostra viva a dados de mortes, como fizeram aqui, é importante”, disse o Dr. Mark, professor de bem-estar social da Luskin School of Public Affairs da University of California, Los Angeles, nos EUA.

“Também é importante por começar a fornecer dados sobre fatores mais proximais ou distais que estão associados ao suicídio, e a masculinidade é um desses fatores”, acrescentou o Dr. Mark.

“Além disso, começa a se somar ao quebra-cabeças composto pelos motivos que fazem com que os homens apresentem uma taxa de mortalidade mais alta do que as mulheres. Porque, quando se trata de suicídio, homens e mulheres são realmente maçãs e laranjas.”

Dr. Mark acredita que a MTA é uma das variáveis que podem levar os homens a darem fim a suas próprias vidas.

“Existem questões de todos os tipos, por exemplo, a masculinidade pode estar interagindo com algumas das duras condições socioeconômicas que muitos homens enfrentam. Eu acho que tudo isso aponta para a real necessidade de entender por que os homens morrem de suicídio”, disse Dr. Mark.

Fonte: Medscape

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