Médicos não percebem tanto as microagressões quanto as médicas

Os homens subestimam a frequência com que as mulheres sofrem microagressões no consultório, nas clínicas e nos hospitais, segundo um estudo publicado on-line no periódico Academic Medicine.

Os participantes do estudo assistiram vídeos retratando situações de microagressões nas quais – “comportamentos diários sutis verbais ou não verbais provenientes de preconceitos inconscientes, preconceitos dissimulados ou hostilidade” – ocorreram ou não.

“Ao assistir os vídeos com as microagressões, os homens identificaram menos a situação do que as mulheres”, disse ao Medscape Dra. Arghavan Salles, Ph.D., residente na Stanford University School of Medicine, nos Estados Unidos.

“Em outras palavras, os homens podem não perceber todas as formas pelas quais o trabalho e a autoridade das mulheres são depreciados nas interações quotidianas”, continuou a Dra. Arghavan, que não participou do estudo em tela, mas já escreveu artigos publicados sobre o viés implícito entre os profissionais da saúde.

Para o estudo em pauta, a Dra. Vyjeyanthi S. Periyakoil, médica, professora associada de medicina e diretora do Stanford Aging and Ethnogeriatrics Center na Stanford University School of Medicine, nos EUA, e colaboradores coletaram microagressões “que aconteceram na vida real” de mulheres no exercício da medicina. Os pesquisadores identificaram 34 experiências informais pessoais, fizeram um roteiro, e contrataram atores profissionais para representar essas experiências em 68 vídeos – 34 retratando as microagressões e 34 vídeos com as mesmas situações sem as microagressões (vídeos de controle).

A seguir, os pesquisadores recrutaram 124 docentes (79 mulheres e 45 homens) de quatro centros médicos universitários para assistir os vídeos em ordem aleatória e então responder se eventos semelhantes eram comuns nas suas próprias instituições. A amostra de participantes tinha diversidade racial e étnica, e pertencia a várias faixas etárias e níveis acadêmicos. Tanto as mulheres como os homens trabalhavam com medicina em mediana há 15 anos.

Em 33 dos 34 vídeos que retrataram microagressões, as mulheres “identificaram as microagressões representadas com frequência bem maior” em comparação com os homens, explicaram os autores.

“Em evidente contraste, os homens informaram que estas microagressões eram raras”, escreveram Rao e colaboradores. Os pesquisadores não encontraram essas diferenças entre os homens e as mulheres quando os participantes assistiram os vídeos de controle.

Os principais fatores demográficos, como idade, raça/etnia, grau acadêmico e tempo de formado, não tiveram efeitos significativos nas observações do estudo.

Os pesquisadores agruparam as microagressões mais comuns em seis temas; das 21 microagressões identificadas pelas mulheres, a mais comum foi o sexismo, que ocorreu em seis vídeos. A segunda microagressão mais comum encontrada foram vieses referentes à gestação e a cuidar dos filhos (cinco vídeos), seguida de subestimar a capacidade das mulheres (quatro vídeos), comentários inapropriados de natureza sexual (três vídeos), serem relegadas para tarefas menores (dois vídeos) e sentimento de exclusão e/ou marginalização (um vídeo).

A Dra. Arghavan disse se questionar por que os pesquisadores indagaram aos participantes a frequência da ocorrência dessas microagressões em geral, e não especificamente contra as mulheres, quando as mulheres foram a sua população-alvo. “Isso poderia ser parte da causa pela qual os homens perceberam menos a ocorrência destes acontecimentos do que as mulheres”, explicou a Dra. Arghavan, acrescentando que é possível que as respostas dos homens pudessem ter sido diferentes se a pergunta tivesse sido formulada sobre a frequência dessas situações especificamente com mulheres.

Quando as microagressões realmente ocorrem

A Dra. Arghavan disse que quando esses incidentes ocorrem, a segurança é sua primeira preocupação. A pessoa pode ou não estar segura onde se encontra, e pode ser ou não seguro para esta pessoa falar algo nesse momento.

A dinâmica de poder entre a vítima e o agressor, se a natureza da relação é “uma interação pontual ou um relacionamento prolongado”, e a natureza da microagressão são, todas, fatores importantes a levar em conta. Se a pessoa decidir dizer algo, precisa escolher bem o momento de falar. “Às vezes é melhor pegar a pessoa de lado e falar sobre o ocorrido em outro momento”, explicou a Dra. Arghavan.

As pessoas presentes têm um grande poder e podem estar “em uma posição mais forte para responder”, acrescentou a médica. Os presentes podem querer apoiar a pessoa no momento do incidente ou mais tarde, ou podem decidir confrontar o agressor durante o incidente ou após o fato.

Se a pessoa resolver falar, a Dra. Arghavan recomenda “tentar entender de onde a pessoa vem e personalizar problema, usando o pronome “eu” na sua fala, como, “Eu me sinto assim quando você diz/faz isso“. Mas ter essa conversa exige confiança, o que não costuma ocorrer nesses casos.

Às vezes as pessoas relutam em se envolver em uma situação na qual elas não são o alvo, indiciou a Dra. Arghavan. “Esta atitude, embora comum, contribui para criar ambientes de trabalho tóxicos. Se, por exemplo, eu for alvo de uma microagressão e ninguém à minha volta diz nada a respeito, isso indica que eles não se importam. Com o passar do tempo, isso é prejudicial e leva o alvo a sentir que não pertence àquele lugar.”

Os autores informaram não ter conflitos de interesses relevantes.

Fonte: Medscape

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