Médico vítima de Covid-19 sonhava em formar outros médicos: 'Sabia que tinha a missão de servir'


Filho exemplar, amigo fiel, profissional e aluno dedicado. Assim o médico paraibano recém-formado Lucas Alves, de 28 anos, que morreu vítima de Covid-19, foi descrito por familiares e amigos. Ele faz parte da triste estatística de mais de 400 mil de brasileiros que tiveram suas vidas e projetos interrompidos pelo novo coronavírus.

Entre tantos outros sonhos que Lucas nutria estava o de se especializar em imunologia e se tornar professor universitário para formar novos médicos.

Lucas nasceu e morava em Campina Grande, no Agreste da Paraíba. Formado em medicina havia pouco mais de um ano, o jovem também era oficial do Exército Brasileiro e prestava serviços médicos desde o início da pandemia no Posto Médico do Exército na mesma cidade.

Prima e amiga de Lucas, Alana Ramos conta que desde muito novo ele demonstrou interesse pela área da saúde. Um tempo depois de concluir o ensino médio, deu início a graduação em uma faculdade particular de Campina Grande, e no fim de 2019 conquistou o tão sonhado diploma. “Ser médico sempre foi uma vontade dele. Ele manifestou pra nós mais tarde, já na adolescência, mas era nítido que ele já tinha um dom muito natural para o cuidado. Era nato o zelo dele com as pessoas”, comenta Alana. Durante a graduação, Lucas se destacou na participação das mais diversas atividades acadêmicas, segundo o médico cardiologista Guilherme Veras, professor e amigo do então estudante. “Houve uma simbiose entre professor e aluno, porque Lucas era uma pessoa de uma gentileza que não vemos todo dia. Já formei mais de 1,2 mil médicos, ensino tantos outros que ainda não concluíram a graduação, mas não conheci ninguém como Lucas. Era realmente um ser iluminado, não precisamos o lapidar”. Não foram poucas as vezes em que Guilherme ouviu Lucas afirmar que estava realizado por se tornar médico. Após se formar, então, em conversas por ligação - em datas especiais, como aniversários, Dia do Professor e Dia do Médico – e, antes da pandemia, em encontros presenciais, demonstravam a felicidade do ex-aluno por realizar dois de seus grandes sonhos: ser médico e servir às Forças Armadas.

“Dias antes de adoecer ele me ligou e eu o perguntei como estava. Ele disse que se sentia muito feliz, pois finalmente estava exercendo a profissão e ajudando muita gente em um momento tão difícil. Eu tenho certeza que, embora não soubesse que teria uma vida tão curta, Lucas faleceu realizado, viveu muito intensamente”, conta o professor, emocionado. “Ele não se esquivou de trabalhar na linha de frente. Lucas sentia de maneira sincera a fé, e achava que a missão dele era dar à população carinho, atenção e afeto. Me falou que, apesar das dificuldades, estava realizando um grande sonho ao trabalhar durante a pandemia, pois sabia que tinha a missão de servir”, afirma o médico. Com o avanço da pandemia, era nítida a preocupação de Lucas com a saúde dos pais e demais familiares. Além de seguir todos os protocolos de prevenção à Covid-19, sempre que podia o jovem médico alertava os amigos nas redes sociais, pedindo para que eles tivessem consciência a respeito da gravidade da situação. “Ele sempre falava da importância de cumprir os protocolos de prevenção à Covid-19, era um médico muito firme, muito consciente. Como profissional de saúde e cidadão, Lucas seguia muito rigorosamente todos os protocolos com firmeza e responsabilidade”, afirma Alana, prima de Lucas.

A família acredita que o rapaz tenha sido infectado pelo novo coronavírus durante os atendimentos médicos, mas não se sabe ao certo quando ele teve contato com o vírus. Ele testou positivo para Covid-19, e poucos dias depois dos primeiros sintomas buscou assistência médica em um hospital de Campina Grande.

Rapidamente o quadro de saúde do médico se agravou, havendo necessidade de transferência para um hospital particular da capital João Pessoa, onde ficou pouco mais de um mês internado. Foi encaminhado para um tratamento mais intensivo em leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), chegou a ser intubado, mas não resistiu. “Nós tínhamos esperança, apesar de saber da gravidade do quadro dele. Estávamos com uma fé muito grande, rezávamos juntos, aí chegou a notícia. Foi traumatizante”, relembra a prima, com voz embargada. Semanas após a morte do jovem, a família encara a difícil fase do luto. A prima do rapaz confessa que teve dificuldades para digerir a realidade, e define o momento como sendo “profundamente doloroso”, uma emoção completamente diferente de tudo que ela já viveu. Assim como Lucas fazia em momentos de dificuldade, como lembra a família, é na fé que eles têm encontrado forças para seguir em frente. “Como ele era muito espiritual, eu entendi que 'Luquinhas', com apenas poucos anos de idade, cumpriu tanta coisa em favor de outras pessoas, sabe... Entendi que Deus recolheu ele de volta. O que ele tinha que fazer, ele fez e fez muito bem, de forma linda como muitos não fazem durante uma vida inteira. Vou esperar pelo reencontro com meu galeguinho”, relata a prima, consternada.

Por fim, Alana alerta para o perigo do não cumprimento de regras de combate à pandemia. Ela, que perdeu um “primo-irmão” jovem e cheio de sonhos pra Covid-19, lembra que o momento é de pensar no próximo, com muita autopreservação e empatia.

“Não foi fácil acompanhar tudo que Lucas passou enquanto estava internado, o que meus tios e meu primo estão passando de forma ainda mais profunda e mais intensa do que todos nós da família, ver uma vida tão jovem ser interrompida... Depois disso tudo eu só penso na autopreservação. Devemos pensar que a vida do outro depende de nós também”, conclui.


Fonte: G1

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