Jejum de dopamina: vale a pena ficar longe de hábitos que dão prazer para melhorar o desempenho?



Você conseguiria dar um bom tempo de coisas gostosas da vida, como comida, sexo, telas, drinques e festas ? E o que é pior: de uma só vez? Isso é o que propõe o Jejum de Dopamina, método criado por Cameron Sepah, professor de psiquiatria da Universidade da Califórnia, que ganhou adeptos no Vale do Silício, polo de desenvolvimento e tecnologia (e também de modismos), ao prometer aumento de produtividade. A ideia central é que, sem um de seus principais agentes de prazer, a dopamina, cérebro ajuste o foco no desempenho. Defensores da prática acreditam que, hoje, perdemos muito tempo com coisas improdutivas, de estímulo rápido, que nos viciam em pequenos prazeres e altas doses do neurotransmissor. Quebrando o ciclo dopaminérgico e conquistando um maior controle de estímulos, a pessoa ficaria mais tranquila, focada e inteligente.


A endocrinologista Isabela Bussade acredita que o estilo de vida contemporâneo, muito focado no prazer instantâneo, tem mantido as vias de recompensa sempre em funcionamento, o que acaba tendo um um custo. “Pode ser prejudicial para a saúde física e mental”, diz. “Não estou falando só de comidas. Na pandemia, com o confinamento, usamos muito WhatsApp e Instagram, apps que alimentam esse ciclo vicioso. À medida que diminuímos as fontes de prazer, conseguimos ter um melhor funcionamento do córtex pré- frontal, área que ajuda na performance cognitiva, na elaboração e planejamento e ideias”, explica.

Ao mesmo tempo, não se pode ter medo da dopamina. Ela é fundamental para o cérebro conseguir fazer tarefas relacionadas à memória, à motivação, à recompensa, ao aprendizado, à atenção e aos estados de alerta. E ainda atua controlando o sistema motor (a Doença de Parkinson, por exemplo, é causada por uma diminuição intensa da produção de dopamina).

Para o clínico geral Theo Webert, o termo “jejum de dopamina” não deveria ser usado: “É errado. O jejum não é desse neurotransmissor, mas sim de atividades hiperestimulantes que fazem com que o corpo sinta uma descarga exagerada de hormônios do prazer. Não existe a possibilidade de você conseguir se privar do neurotransmissor. O que pode existir é tentar equilibrar a sensibilidade à dopamina ficando longe desses hábitos”.

Ficar cerca de quatro horas por dia longe do celular, da TV e sem comer alimentos com açúcar, por exemplo, já ajudaria a acalmar o corpo e a mente. Assim como tentar um dia inteiro no fim de semana e até uma semana inteira no ano. A ideia é evitar ações que causam gatilhos para distúrbios comportamentais e emocionais. “Acredito que minimizar os estímulos, como sugere o jejum, seja uma alternativa para entender as necessidades reais, melhorar a sensibilidade e, assim, diferenciar o que realmente dá prazer e o que virou uma compulsão”, diz Webert.

Para o neurologista do Hospital Israelita Albert Einstein Saulo Nardy Nader a nova prática parece ser só mais uma das “invenções sem embasamento médico que nascem no Vale do Silício”. “A região é conhecida dentro do campo da medicina por lançar tendências baseadas em achismos. Ainda não há nenhum estudo sobre jejum de dopamina na literatura médica. Não vejo motivos para uma pessoa aceitar se privar de um estímulo saudável, que faz bem, sem qualquer garantia de resultado”, destaca. Na dúvida, aprecie com moderação.


Fonte: O Globo

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