Imunoterapia de primeira linha para o câncer hepático avançado ainda é incerta

Barcelona, Espanha — A promessa de uma imunoterapia de primeira linha continua sendo uma expectativa para os pacientes com carcinoma hepatocelular avançado, mas resultados preliminares de uma combinação parecem favoráveis.

O nivolumabe, utilizado como tratamento de primeira linha em pacientes com carcinoma hepatocelular avançado, não mostrou diferença significativa na sobrevida global em comparação com o tratamento convencional com sorafenibe.

No entanto, a taxa de resposta global (ORR, sigla do inglês, Overall Response Rate) foi quase o dobro com nivolumabe (15% versus 7% para sorafenibe). As respostas parcial e completa também foram maiores entre os pacientes que receberam nivolumabe.

Estes resultados vêm do ensaio clínico CheckMate 459, apresentados na reunião anual da European Society for Medical Oncology (ESMO 2019).

“É improvável que estes resultados modifiquem o padrão de tratamento atual, no entanto, é cada vez mais evidente que a imunoterapia pode ter o seu papel no tratamento de primeira linha do carcinoma hepatocelular avançado, e as diferenças entre as respostas são clinicamente significativas”, comentou a Dra. Angela Lamarca, médica da Christie NHS Foundation Trust, no Reino Unido, em uma declaração da ESMO.

A Dra. Angela ficou decepcionada que a maior taxa de resposta com o nivolumabe não tenha se traduzido em melhora da sobrevida. No entanto, a médica assinalou que o nivolumabe tem um perfil de segurança favorável, que “torna-se evidente com menos suspensão do tratamento relacionada com efeitos tóxicos no braço do nivolumabe”.

Resultados do CheckMate 459

O CheckMate 459 recrutou 743 pacientes com carcinoma hepatocelular avançado para receber nivolumabe a cada duas semanas (N = 371) ou sorafenibe duas vezes por dia (N = 372) até a progressão da doença ou a ocorrência de toxicidade intolerável.

Cerca de metade dos pacientes (45%) tinha carcinoma hepatocelular de etiologia não viral. A maioria dos pacientes tinha doença grave: cerca de 80% dos casos eram do estágio C na escala de câncer hepático da Barcelona Clinic Liver Cancer (BCLC); mais de 70% tinham invasão vascular ou disseminação extra-hepática.

A maioria dos pacientes suspendeu o uso de nivolumabe (90%) ou sorafenibe (98%) por progressão da doença. A mediana de acompanhamento foi de 15,2 meses para os pacientes recebendo nivolumabe e 13,4 meses para os pacientes recebendo sorafenibe.

A mediana de sobrevida global foi de 16,4 meses para os pacientes que receberam nivolumabe. Os resultados não foram significativamente diferentes dos pacientes que receberam o sorafenibe (mediana de sobrevida global de 14,7 meses; = 0,0752).

Apresentando os resultados, o Dr. Thomas Yau, médico da Universidade de Hong Kong, na China, observou que a mediana de 14,7 meses observada com o sorafenibe foi maior do que os dados históricos de estudos anteriores (p. ex.: 10 meses no estudo SHARP e 12,3 meses no estudo REFLECT).

A maioria dos pacientes do estudo cuja doença evoluiu fez tratamento subsequente: 49% para o nivolumabe vs. 53% para o sorafenibe. No tratamento sistêmico de segunda linha foram administrados outros inibidores da tirosina quinase, quimioterapia, medicamentos experimentais ou imunoterápicos oncológicos. Com 20% dos pacientes do braço do sorafenibe tendo recebido imunoterápico oncológico subsequente, o Dr. Thomas sugeriu que o tratamento de segunda linha poderia explicar a maior sobrevida global do que a observada historicamente com o sorafenibe.

O debatedor, Dr. Arndt Vogel, médico da Medizinische Hochschule Hannover, na Alemanha, concordou. “A quantidade e a qualidade dos medicamentos após o estudo mudaram”, comentou. O Dr. Arndt notou que regorafenibe, lenvatinibe, cabozantinibe e ramucirumabe são outros inibidores da tirosina quinase de segunda linha para o carcinoma hepatocelular avançado que podem responder por alguns dos resultados.

O perfil de segurança do nivolumabe foi melhor do que o do sorafenibe, com menos eventos adversos relacionados com o tratamento (TRAEs, do inglês Treatment-Related Adverse Events) levando à sua suspensão. Eventos adversos relacionados com o tratamento de grau 3 ou 4 ocorreram em 22% dos pacientes recebendo nivolumabe e 49% dos pacientes recebendo sorafenibe.

Dr. Thomas também informou que a qualidade de vida relacionada com a saúde foi melhor para os pacientes do braço do nivolumabe.

Quando alguém da plateia disse que o CheckMate 459 deveria ser considerado um estudo fracassado, Dr. Thomas disse: “Não sou estatístico, sou um médico que trata de pacientes.”

Dr. Thomas destacou que o nivolumabe demonstrou melhora da resposta global e da resposta completa com o tratamento de primeira linha do carcinoma hepatocelular avançado, que deve ser considerada clinicamente significativa.

“O pacote de eficácia, segurança e qualidade de vida favorece o nivolumabe”, Dr. Arndt comentou durante a discussão, concordando com Dr. Thomas que estes dados foram clinicamente significativos.

Imunoterapia com bevacizumabe

Outra apresentação (Abstract 39 LBA) na mesma sessão trouxe os resultados de um estudo de fase 1b (GO30140), mostrando que o acréscimo de bevacizumabe à imunoterapia com atezolizumabe melhorou significativamente a sobrevida livre de progressão da doença em comparação com a monoterapia com atezolizumabe.

O Dr. Michael S. Lee, médico do Lineberger Comprehensive Cancer Center da University of North Carolina, nos Estados Unidos, apresentou dados de duas coortes do estudo.

Em uma coorte de 104 pacientes com carcinoma hepatocelular avançado irressecável, com mediana de acompanhamento de 12,4 meses, a combinação de atezolizumabe e bevacizumabe propiciou uma mediana de sobrevida global de 17,1 meses, de sobrevida livre de progressão da doença de 7,4 meses e uma taxa de resposta global de 36%.

Enquanto a combinação estava sendo avaliada, os pacientes foram incluídos em um grupo separado do estudo, que comparou a combinação (N = 60) com a monoterapia com atezolizumabe (N = 59).

Nesta comparação, a mediana da sobrevida livre de progressão da doença foi significativamente maior entre os pacientes que receberam a combinação (5,6 meses vs. 3,4 meses para a monoterapia com atezolizumabe; razão de risco ou hazard ratio, HR, = 0,55; P = 0,0108). A taxa de resposta global também foi maior para os pacientes recebendo a combinação (20% vs. 17% para o atezolizumabe em monoterapia).

O Dr. Michael informou que os eventos adversos vistos com a combinação foram semelhantes aos observados anteriormente com cada um dos dois medicamentos, acrescentando que os eventos adversos foram tratáveis e a maioria foi de baixo grau.

Os resultados deste estudo foram considerados suficientemente promissores para que a combinação seja agora avaliada em um estudo de fase 3 IMbrave150. Os resultados estão previstos para 2022.

O estudo CheckMate 459 é financiado pela empresa Bristol-Myers Squibb, fabricante do nivolumabe. O estudo IMbrave150 é patrocinado pela Roche, fabricante do atezolizumabe.

Dr. Thomas Yau informou receber honorários (institucionais) e atuar como assessor/consultor da empresa Bristol-Myers Squibb. Dr. Michael S. Lee recebe financiamento de pesquisa das empresas Amgen, Bristol-Myers Squibb, Pfizer, EMD Serono e Genentech/Roche. Dr. Arndt Vogel informou atuar como consultor, palestrante e conselheiro das empresas Roche, Bayer, Sanofi, Bristol-Myers Squibb, Lilly, Novartis, Eisai, AstraZeneca, Merck, Incyte, Medac, Ipsen, Servier, PierreFabre, MSD, BTG e Janssen. Dr. Arndt Vogel também recebe financiamento da pesquisa da Servier e atua como um provedor de educação médica comercial para a empresa OncLive.

Reunião anual da European Society for Medical Oncology (ESMO 2019): Abstract LBA 38_PR (CheckMate 459) e LBA 39 (GO30140). Apresentado em 27 de setembro de 2019.

Fonte: Medscape

#câncer #hepático #imunoterapia

3 visualizações

© 2020 Portal Saúde Agora. Tudo sobre SAÚDE em um só lugar!

  • Instagram