Há amor na UTI: equipes criam formas de amenizar solidão de pacientes


Com a maioria dos leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) ocupadas por pessoas com Covid-19, alguns métodos criados por profissionais de saúde tentam amenizar a angústia dos pacientes. De acordo com pesquisas e com experiências presenciadas pelas equipes clínicas, a humanização do atendimento não traz apenas conforto emocional, ela ajuda na recuperação.


Um dos métodos mais usados durante as internações na pandemia, quando as visitas não são permitidas, são as videochamadas. Antes deste tipo de tecnologia se popularizar, Lucas Albanaz, clínico geral de UTI e coordenador da Clínica Médica do Hospital Maria Auxiliadora, conta que ligações telefônicas com o mesmo intuito já eram comuns.


O contato funciona como um alívio imediato para o paciente, que precisa lidar não só com o intenso desconforto dos sintomas, mas também com a solidão e as incertezas do tratamento.


“Participei de uma videochamada com um paciente idoso, de cerca de 76 anos de idade, e notei que ele ficou mais tranquilo. O paciente fica muito ansioso, sem saber se ele vai evoluir para uma intubação, por exemplo”, descreve Lucas.

Segundo o médico, ouvir a voz e ver o rosto de pessoas amadas tem impacto revigorante nos pacientes. “Observamos que há a diminuição do cortisol, hormônio que aumenta em períodos de estresse e que pode provocar a contração muscular e dificultar a respiração”, relata.

Para o especialista, as videochamadas são importantes não só para o paciente matar a saudade de familiares e pessoas queridas, mas para que essas pessoas conheçam a equipe médica. “Eles conseguem ver que há uma equipe cuidando de seu familiar. É uma troca de experiências e de energia que também nos envia um feedback de que eles estão sentindo confiança no nosso trabalho”, avalia.


A prática ajuda, ainda, na criação de um ambiente mais humanizado para a equipe de saúde. “Temos duas máximas na medicina, que são ‘cuide dessa pessoa como se ela fosse seu familiar’ e ‘todas as pessoas são o amor de alguém’. Então isso nos ajuda a enxergar aquele paciente não só como um número ou um prontuário, mas como uma pessoa que merece afeto.”


Técnica da mãozinha


Criada pela enfermeira carioca Lidiane Melo, a “técnica da mãozinha” é uma tentativa de oferecer algum tipo de “calor humano” a pacientes que não podem ter contato físico com outras pessoas, especialmente pacientes com Covid-19. Em uma rede social, Lidiane afirmou que o método de preencher uma luva com água quente foi criado para “melhorar a perfusão do paciente e ver melhor sua saturação”, mas também para que ele pudesse sentir como se alguém estivesse segurando sua mão.


Em entrevistas, Lidiane explicou que a ideia surgiu após ela notar que a mão de um paciente estava muito fria. Para tentar resolver o problema, a enfermeira tentou enrolar a mão dele em algodão ortopédico e atadura, mas não foi bem sucedida, uma vez que a circulação do paciente não voltou ao normal.


Depois, a enfermeira cogitou molhar a mão do homem em água quente, porém desistiu da ideia ao levar em conta o alto risco de contaminação. “Pensei mais um pouco e coloquei água morna dentro das luvas cirúrgicas e envolvi na mão dele”, relatou. A atitude viralizou nas redes sociais e a profissional de saúde foi amplamente elogiada pela iniciativa.


Prontuário afetivo


Além de detalhes sobre o estado de saúde dos pacientes, profissionais de hospitais do Distrito Federal inventaram uma nova forma de utilizar o prontuário médico: fixando papéis com características dos pacientes internados. No “documento”, vale tudo o que possa servir para descrever o paciente. Médicos e enfermeiras anotam gostos pessoais, o time do coração, tipo de música preferido e outros detalhes da personalidade dos doentes.


Tudo começou com uma intervenção artística de Isadora Jochims, reumatologista do Hospital Universitário de Brasília (HUB) e artista visual. Em março deste ano, a médica passou a entrevistar parentes de pessoas intubadas para anotar as informações. A ideia foi fazer com que aquelas pessoas fossem lembradas por suas personalidades e não só por seu quadro clínico.


“Faço parte da Comissão de Humanização do HUB e tive a ideia de começar com esse prontuário afetivo porque, quando tratamos pacientes graves, não conseguimos conversar com eles, e isso reduz o contato afetivo. A família fica muito angustiada, com poucas informações e não pode fazer visitas por causa do isolamento”, justificou Isadora.


Mensagens de gratidão


O árduo trabalho dos colaboradores de hospitais que trabalham junto aos profissionais que fazem o tratamento de pacientes com coronavírus ganhou reconhecimento. No início de abril, equipes de fisioterapia e nutrição do Hospital de Base (HB) se uniram para mandar mensagens de apoio para eles nos intervalos das refeições.


A equipe médica inseriu pequenos bilhetes nas tampas das marmitas com mensagens de apoio e agradecimento. Para Agda Ultra de Aguiar, chefe do Serviço de Saúde Funcional do HB, a iniciativa reforça a importância do olhar dos gestores com os profissionais. “Lidamos com seres humanos diariamente e só teremos bons profissionais se cuidarmos da humanidade deles”, observa. “O impacto disso vai se refletir diretamente na assistência mais humanizada ao paciente”, completa.


Tratamento musical


Todas as quartas-feiras, pacientes com Covid-19 do Hospital Regional da Asa Norte (Hran) são visitados por uma equipe de psicólogos e pelo fisioterapeuta Fernando Beserra. Além de videochamadas, o grupo faz apresentações musicais, com o intuito de deixar a rotina hospitalar um pouco mais leve.


Lígia Costa Nova, psicóloga que faz parte da equipe multiprofissional do Hran, explica que a iniciativa é uma forma de tentar amenizar um sintoma comum em pacientes internados, chamado delirium. O distúrbio de consciência e cognição é caracterizado pela diminuição da atenção e por alterações secundárias, tais como percepção, memória, orientação e raciocínio.


O fenômeno é causado por algumas características da UTI, que podem interferir no estado clínico dos pacientes. Não ter noção de horário, se é dia ou noite, a perda de realização das atividades de vida diária e laborais e a falta de contato com amigos e familiares são algumas delas. A música os ajuda a se distraírem, além de conectar a pessoa com o que está acontecendo ao seu redor.


“Não posso dizer que haja uma relação causal direta na melhora do paciente, mas podemos sim estar prevenindo que ele desenvolva essa condição de delirium. Potencialmente pode ajudar também como intervenção não farmacológica em pacientes que estão fazendo delirium. Temos visto despertares bem complicados em pacientes com Covid-19, em uma incidência maior do que observávamos antes”, explica a psicóloga.


Fonte: Metrópoles

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