Giovanna Ewbank, Lázaro Ramos: especialistas explicam por que os casos de burnout explodiram nos últimos anos
- Portal Saúde Agora

- 13 de jun. de 2025
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Em recente entrevista ao jornal Extra, Giovanna Ewbank revelou que a sobrecarga da profissão — ela acaba de estrear a terceira temporada do programa de entrevistas “Surubaum”, em que apresenta ao lado do marido, o ator Bruno Gagliasso — e as tarefas da maternidade — ela é mãe de Titi, de 12 anos, Bless, de 10, e Zyan, de 4 — a levaram a ter uma síndrome de burnout.
A condição é caracterizada por um estado de tensão emocional e estresse relacionado ao trabalho que leva ao esgotamento físico e emocional e afeta diversas esferas da vida de uma pessoa.
— Tive crises de ansiedade por vários motivos. Estava trabalhando demais, com muitos projetos ao mesmo tempo, e não tinha o tempo que julgava ser suficiente para os meus filhos. Isso mexeu com minha cabeça e meu emocional. Todo dia é insuficiente para resolver tudo o que preciso nesse mundo de hoje. É tudo urgente, para ontem. Não estamos preparados para essa velocidade — afirmou a apresentadora.
O ator Lázaro Ramos, por exemplo, foi diagnosticado com a condição de esgotamento mental, no início de 2024, após intenso período de trabalho.
— A gente vive numa época que tem muitas fontes de informação, o difícil é se sensibilizar. Tive o burnout, porque era tanta opção, tanta dúvida, tanta coisa que a cabeça não parava para conseguir processar os sentimentos — disse em entrevista à revista Veja na época.
O problema é muito maior quando percebemos que mais de 30% dos trabalhadores brasileiros sofrem de níveis elevados de estresse, e muitos enfrentam o burnout sem saber, de acordo com a Associação Internacional de Controle do Estresse e da Tensão (ISMA Brasil).
— Nós trabalhamos mesmo doentes, mas isso não quer dizer que é saudável. Isso ocorre por dois fatores, basicamente: o primeiro é a falta de conhecimento sobre a doença e a outra é que vivemos em uma sociedade que se cobra muito para entregar melhores resultados e cumprir metas. Então, sair de licença por problemas de saúde é a mesma coisa que não conseguir cumprir esses objetivos, o que deixa a pessoa com a sensação de culpa — afirma o psiquiatra e especialista em saúde mental Thyago Henrique Neves da Silva Filho.
Dados da ISMA ainda mostram que 70% dos trabalhadores no Brasil enfrentam sintomas de esgotamento no ambiente corporativo. Levando o país a ocupar o segundo lugar no ranking global da doença, perdendo apenas para o Japão — nação conhecida justamente pela rotina de trabalho intensa e altas taxas de suicídio.
Segundo especialistas, esse esgotamento é um efeito do pós-pandemia, quando maioria dos trabalhadores foi para o home office, e as pressões por resultados, bem como o excesso de trabalho e a falta de equilíbrio entre vida pessoal e profissional, foram aumentadas e estremecidas.
A psicóloga e psicanalista Luciana Inocêncio, especialista em transtornos graves das psicoses, afirma que o burnout pode aparecer na dificuldade de fazer tarefas relacionadas ao trabalho que antes se fazia com maestria. Um cansaço extremo ao chegar em casa ou no escritório, falta de vontade de trabalhar, não se sentir mais satisfeito com o que está fazendo, se sentir ineficaz ou incompetente. E o principal sintoma de alerta: o medo e o receio de trabalhar tão grandes que pode desencadear situações extremas como crises de ansiedade e pânico.
— Quem manda no corpo é a mente e, se ela parar, o corpo também paralisa. É como um aparelho de medir a pressão, mas, diferente da pressão, não conseguimos medir ou diminuir o nosso psicológico. Se não pararmos e tratarmos, ele só aumenta — explica.
Entre os principais sintomas do burnout, além do esgotamento extremo relacionado ao trabalho, fadiga e medo, estão: a despersonalização (ou seja, a pessoa começa a se sentir desconectado de seu corpo e seus pensamentos); redução da realização pessoal (acredita que não é mais suficiente, eficaz e que não vai conseguir exercer o seu trabalho como antes); distanciamento afetivo, seja com amigos do trabalho ou com vínculos pessoais e familiares; indiferença em relação ao trabalho, insônia, irritabilidade, dores musculares, problemas gastrointestinais. Há ainda uma das principais manifestações que faz as pessoas buscarem apoio médico: crises de ansiedade e pânico.
A novela das nove da Globo, "Vale tudo", também trará o tema no folhetim assim que Renato (João Vicente de Castro) for diagnosticado com síndrome de burnout. O empresário vai sentir uma dor no peito e desmaiará no escritório da agência Tomorrow após abusar de remédios e cafeína para se manter acordado. Ele também estará abalado emocionalmente por conta do término com Leila (Carolina Dieckmmann). O personagem vai ficar internado e precisará se afastar por um tempo indeterminado de seu trabalho na agência.
Especialistas afirmam que é preciso seguir algumas recomendações para se desligar mentalmente do trabalho e das telas, como por exemplo: ter uma hora para parar de trabalhar, não responder o celular de madrugada (principalmente se for relacionado a trabalho), desligar o computador após o horário do trabalho, se alimentar bem e ter consciência de que esse estresse contínuo e o desejo de resolver tudo a qualquer instante podem te deixar doente.
— Este uso excessivo das telas é um fator de risco para todos os transtornos mentais. Bem como o trabalho 100% remoto, que também contribui para os transtornos relacionados ao trabalho, porque não temos mais um horário para desligar, estamos sempre conectados. O nosso cérebro não foi feito para usar telas. O brilho excessivo e artificial quando entra em nossa retina desregula os nossos neurotransmissores, podendo, quando ocorre um excesso ou diminuição no número deles, surgir transtornos — afirma o psiquiatra Thyago Henrique Neves da Silva Filho.
Norma regulamentadora
Desde maio deste ano, a saúde mental dos trabalhadores passou a ser uma prioridade legal para as empresas brasileiras. O crescimento dos afastamentos por estresse, ansiedade e burnout levou à atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que agora exige que as companhias adotem medidas concretas para identificar e combater riscos psicossociais no ambiente de trabalho.
As empresas precisam criar mecanismos internos que previnam o estresse, o assédio e a sobrecarga mental dos funcionários. A norma exige ainda que empregadores reorganizem tarefas, promovam um ambiente mais saudável e monitorem constantemente as condições de trabalho. A saúde mental passa a integrar também os relatórios de risco ocupacional, reforçando a responsabilidade das organizações em oferecer um ambiente seguro e equilibrado.
No entanto, as penalidades por descumprimento da norma — que podem gerar multas de até R$ 6 mil — só começarão a ser aplicadas a partir de 26 de maio de 2026, para as empresas terem um período de transição e adaptação às novas regras.
— A norma foi anunciada em agosto de 2024, no mesmo ano em que o Brasil registrou o maior número de afastamentos por transtornos mentais no trabalho em uma década. É necessário ter esse período de transição para as empresas se preparem e implementarem as mudanças, realizar workshops, construir programas e palestras — afirma Silva Filho.
Quando é hora de parar?
A psicóloga Luciana Inocêncio revela algumas dicas para saber quando está na hora de pedir ajuda psicológica, psiquiátrica e, talvez, um afastamento do emprego. O primeiro grande passo é reconhecer os sinais que o corpo fornece. Perceber se você se sente cansado ou com uma fadiga extrema ao ir trabalhar, se pensa que seu trabalho não é mais suficiente ou importante ou ainda se você se julga incompetente e incapaz de fazer o seu trabalho.
Um segundo passo é entender se esse cansaço se estende a períodos de folga ou finais de semana. Se mesmo quando não está trabalhando você não sente vontade de fazer nada, não quer sair de casa ou fazer atividades que antes você gostava de realizar.
Um terceiro passo é perceber se você está ficando sem força, sem vontade de trabalhar e começa a se entristecer. Num quarto passo, a ajuda profissional já é necessária, porém, o quadro pode se intensificar se perceber que esse cansaço e fadiga estão prejudicando sua vida pessoal e seus relacionamentos.
— Costumo dizer que o burnout vai devastando a pessoa aos poucos. Ela começa com um cansaço, vai atacando seu psicológico, você não se sente mais capaz, não tem mais vontade de fazer nada, nem mesmo sair com seus amigos e, quando menos espera, está destruído por dentro e por fora — analisa a psicóloga.
Num quinto e último estágio, a pessoa sente mal-estar, dor de cabeça, passa mal só de pensar em trabalhar, não consegue mais sair de casa com medo e começa a ter ataques de pânico, crises de ansiedade e tem a impressão de que nada mais adianta. Ela não consegue mais ligar o computador, chegar ao trabalho ou adentrar no escritório.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou o burnout como um fenômeno ocupacional, ou seja, um problema diretamente relacionado ao trabalho, e reconheceu a condição com um código específico na Classificação Internacional de Doenças (CID-11).
Perfil dos trabalhadores com burnout
A especialista afirma que há três tipos de trabalhadores mais propensos a uma síndrome de burnout. O primeiro deles são workaholics, ou seja, aqueles que trabalham mais de 15 horas por dia e não de desligam nem quando saem do escritório. Têm um nível de estresse e pressão muito grande e colocam o trabalho em primeiro lugar antes mesmo da própria saúde.
Em segundo lugar estão aqueles profissionais cujo trabalho requer alcançar objetivos e conseguir prêmios, como metas e audiência. A competição é algo essencial nesse tipo de emprego, o que leva ao nervosismo, estresse, pressão e à mentalidade de que o trabalhador que não conseguir aquela meta é ineficiente ou incapaz. Isso reduz o bem-estar, a autoestima e faz aflorar a angústia, a tristeza e o cansaço físico e mental pelo trabalho.
E em terceiro lugar estão os assalariados que precisam acordar às 5 horas da manhã, pegar um transporte público lotado para chegar no trabalho e encarar um ritmo apertado, sem benefícios, com pressão, cobrança e ainda ganhar um salário-mínimo sem vislumbrar projeção de carreira no futuro.
— As pessoas precisam estabelecer limites entre o profissional e o pessoal. Principalmente quem trabalha de home office precisa entender que há uma hora de trabalhar e outra de estar em casa com a família, curtir com os amigos, ter um momento de prazer pessoal, se dedicar a um hobby. É necessário também resgatar atividades prazerosas, ir ao parque, shopping, fazer uma atividade ao ar livre, ter um momento de autocuidado. Todo excesso é ruim e vai te causar problema — diz Inocêncio.
A especialista afirma que, depois de reconhecer os sinais, é importante buscar ajuda profissional, como psicólogos e psiquiatras, e que o tratamento com os dois será necessário, uma vez que o burnout, quando é diagnosticado, na maioria dos casos está em estágio avançado.
— Em muitos casos, é necessário entrar com medicamentos psiquiátricos, principalmente em casos paralisantes extremos. Eu falo com meus pacientes que eles precisam, de tempos em tempos, rever suas expectativas e sonhos colocados em cima do trabalho. Assim como os nossos objetivos de vida, os do trabalho também mudam e está tudo bem, mas nosso corpo e mente também precisam entender isso sem se frustrar e entrar em exaustão profissional — explica.
Em casos de diagnóstico positivo para o burnout, o mais indicado é ter o afastamento temporário do trabalho e continuar o tratamento psicológico e psiquiátrico.
Fonte: O Globo






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