Funcionários de saúde recebem ameaças de morte por recomendar uso de máscaras e isolamento nos EUA



NOVA YORK – Líderes estaduais e locais de departamentos de saúde foram alvo de assédio, insultos pessoais e ameaças de morte nas últimas semanas, uma resposta de uma minoria raivosa que diz que as exigências de uso máscaras e restrição aos funcionamento dos negócios foram longe demais.


Uma das principais autoridades de saúde dos Estados Unidos, Barbara Ferrer, diretora do Departamento de Saúde Pública de Los Angeles, emitiu uma declaração nesta segunda-feira condenando ataques a diretores de saúde pública e divulgando que ela mesma enfrentava ameaças repetidas a sua segurança.

"As ameaças de morte começaram no mês passado, durante um briefing público sobre Covid-19 no Facebook Live, quando alguém sugeriu casualmente que eu deveria levar um tiro", disse Ferrer em comunicado. "Não vi a mensagem imediatamente, mas meu marido viu, meus filhos viram e meus colegas também. É profundamente preocupante imaginar que nossos médicos, enfermeiros, epidemiologistas e especialistas em saúde ambiental, ou qualquer um de nossos outros membros da equipe, tenha que enfrentar esse nível de ódio."


Em todo os Estados Unidos, muitas autoridades de saúde pública entraram na pandemia do novo coronavírus com equipes desprotegidas e orçamento "estrangulado", deixando-os mal preparados para lidar com a crise. Antes da pandemia, eles se concentravam na prevenção e rastreamento de contatos para doenças transmissíveis, em vacinas e campanhas contra o fumo e o cigarro eletrônico.


Agora, alguns deles, que de uma hora para a outra passaram a encarar o público com instruções regulares na televisão sobre os esforços para combater o novo coronavírus, estão optando por deixar suas posições.

Lori Tremmel Freeman, diretora executiva da Associação Nacional de Autoridades de Saúde, disse na semana passada que dezenas de funcionários do setor renunciaram ou foram demitidos desde o início da pandemia. Pelo menos quatro diretores estaduais de saúde se demitiram de seus cargos. Amy Acton, diretora de saúde do estado de Ohio, deixou o cargo neste mês depois de sofrer ataques antissemitas e manifestações de pessoas armadas em seu jardim.


Umair A. Shah, diretora executiva do Departamento de Saúde pública do Condado de Harris, no Texas, que inclui Houston, descreveu a tensão do seu novo papel: 

– Agora que estamos bastante visíveis e ajudamos a tomar decisões muito difíceis, naturalmente essas decisões impactam os membros da comunidade de maneira muito específica. É aí que entra o problema.


Nem todas as autoridades disseram por que estão deixando seus cargos. Algumas citaram motivos pessoais ou aposentadorias que já estavam planejadas, mas Freeman disse que já ouviu muitos relatos de assédio.


– Há um grande alvo vermelho nas costas deles – disse Freeman. Eles estão se tornando vilões pelas orientações que passam. Em tempos normais, eles seriam membros muito confiáveis em suas comunidades.

Alguns críticos dos diretores de saúde pública acreditam que vale o risco de espalhar o novo coronavírus para permitir que as empresas voltem a operar e que os diretores de saúde são muito cautelosos em relação à reabertura. Outros citaram teorias da conspiração que afirmam que o coronavírus é uma farsa; ou que o desenvolvimento de uma vacina faz parte de um grande esforço para rastrear os cidadãos e monitorar seus movimentos; ou ainda que o fato de usar máscara ou cobrir o rosto ameaça a liberdade pessoal.


No estado de Washington, onde os condados rurais estão lutando com novos surtos e tentando alertar os moradores a tomar precauções básicas para conter a propagação do vírus, os pedidos das autoridades locais de saúde têm sido frequentemente respondidos com hostilidade e ameaças.


No condado de Yakima, que tem mais de seis vezes mais casos por habitantes do que Seattle, os hospitais atingiram a capacidade máxima e os pacientes tiveram que ser transferidos para receber atendimento médico. O governador Jay Inslee alertou no fim de semana que "estamos francamente no ponto de ruptura" e disse que exigiria que os moradores de Yakima usassem máscaras para cobrir o rosto, em um esforço geral para diminuir a propagação do vírus.

– Fui chamado de nazista várias vezes – disse Andre Fresco, diretor executivo do Distrito de Saúde de Yakima. – Disseram para eu não aparecer em certas empresas. Fui chamado de comunista e de membro da Gestapo. Sou amaldiçoado e geralmente tratado de uma maneira muito pouco profissional. É muito difícil.


Na Califórnia, manifestantes raivosos rastrearam endereços de agentes de saúde pública e se reuniram do lado de fora de suas casas, cantando e segurando cartazes. Na semana passada, um grupo chamado Freedom Angels fez exatamente isso no município de Contra Costa, na Califórnia, filmando a si mesmos e postando os vídeos no Facebook.

"Viemos hoje para protestar em frente à casa do nosso funcionário de saúde pública do condado, e algumas pessoas podem ter problemas com isso", disse uma das mulheres no vídeo. "Mas eu tenho que dizer a vocês, eles estão vindo para nossas casas. A agenda deles é o rastreamento de contatos, testes, máscaras obrigatórias e, finalmente, uma injeção que não foi testada ”, disse ela, aparentemente se referindo a uma vacina, embora nenhuma tenha sido aprovada.


Nichole Quick, diretor de saúde do condado de Orange, na Califórnia, renunciou à medida que os protestos e o assédio se intensificaram após a exigiência do uso de máscaras em certos negócios, incluindo supermercados e farmácias. Emily Brown, diretora do Departamento de Saúde Pública do condado de Rio Grande, na zona rural do Colorado, foi demitida quando encontrou resistência da comunidade às regras mais rígidas que havia incentivado.

Essas desistências em todo o país levaram as autoridades a questionar se há falta de liderança desses departamentos de saúde, mesmo quando combatem a pandemia.

– Nunca vimos esse nível de agressividade antes – disse Kat DeBurgh, diretora executiva da Associação de Escritórios de Saúde da Califórnia. – Estou preocupada não apenas com o presente, mas com o futuro. Quando eles estão sujeitos a esse tipo de assédio, quem aceitará esses empregos?


Fonte: O Globo

5 visualizações

© 2020 Portal Saúde Agora. Tudo sobre SAÚDE em um só lugar!

  • Facebook
  • Instagram