Filhos de profissionais da saúde desenham os pais na linha de frente contra a COVID-19



Quem em sã consciência poderia imaginar que, no Dia das Crianças, meninos e meninas pediriam de presente... uma injeção? Pois os tempos mudaram, e, após mais de sete meses bombardeados com informações e cuidados ditados pela pandemia do novo coronavírus, o desejo é único: uma vacina para pôr fim ao sofrimento da humanidade. No pensamento e no papel, Letícia Gabriele Simões da Cruz, de 7 anos, considera a imunização o bem mais precioso e esperado neste momento. “Não tenho medo de injeção. A vacina vai salvar vidas. Todo mundo fica muito preocupado com a doença, né?”, resume a filha da enfermeira Luana Simões Alves Guimarães da Cruz e do empresário Lucas Manoel, irmã do pequeno Lucca Gabriel, de 1 ano e 8 meses.


A convite do Estado de Minas, cinco crianças desenharam a forma como imaginam a rotina dos pais, profissionais da área de saúde, atuando em hospitais, atendimento a pacientes em domicílio ou em outras situações. Moradora do bairro Glória, na Região Noroeste da capital, Letícia desenhou uma enfermeira com jaleco verde aplicando injeção em um menino. “Adoro desenhar... fazer um desenho livre”, explica a estudante do segundo ano do ensino fundamental.


Enfermeira há 13 anos na Santa Casa BH, maior instituição filantrópica de saúde 100% SUS em Minas, na região hospitalar da capital, Luana Simões conta que em todo o período de isolamento social – em 11 de março, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o avanço do novo coronavírus como pandemia – manteve sua rotina no hospital. “O mais importante é o autocuidado. Minha filha entendeu as mudanças, porque sabe o que faço, por isso não se preocupou. Meu marido tem sido supercompanheiro, está trabalhando em casa. Houve mudanças no dia a dia da família, tenho minha mãe, Marlene, de 59 anos... Fomos nos adaptando a tudo”, conta.

Continua depois da publicidade


Considerando a profissão um sacerdócio, por envolver amor e dedicação, Luana acredita que, se o período nos colocou à prova, “é preciso tirar de letra”. A ideia da filha pode ter vindo de uma cena à qual assistiu: “Trabalho no hospital e também atendo pessoas em casa, para tratamento de lesões. Há algum tempo, meu marido precisou tomar uma injeção e a apliquei. Ela viu e deve ter gravado na memória”.


Força do afeto





Embora a mãe tenha 20 anos de formada em fisioterapia, Giovana Astolfi Cardoso, de 11, nunca entrou em um hospital. “Ela nunca me viu trabalhando no CTI (centro de terapia intensiva) da Santa Casa BH, onde atuo há 18 anos”, conta Rozana Astolfi Cardoso, casada com Klaus Cardoso, que não é da área de saúde, e mãe também de Arthur, de 14. “Então, foi tudo fruto da imaginação”, revela a moradora do bairro Serra, na Região Centro-Sul da capital.


Giovana usa a mesma palavra, imaginação, para explicar seu desenho: no quarto do hospital, recebendo o medicamento por meio intravenoso e apoiada com a mão direita numa bengala, uma idosa ganha o estímulo de uma pessoa jovem: “Vem, você consegue”. Para Giovana, aluna do 5º ano do ensino fundamental, os traços procuram traduzir a necessidade de a senhorinha se exercitar, e o empenho da outra pessoa, no caso sua mãe, em ajudá-la. Neste Dia das Crianças, a menina concorda que o melhor presente seria a vacina contra a COVID-19, pois, com a imunização em massa, poderia se reencontrar com os familiares, os coleguinhas da escola e os amigos.

Atenta às palavras da filha, Rozana considera o período de quarentena iniciado em março um desafio ainda maior para quem tem uma filha de 11 anos e um adolescente. “Deus foi maravilhoso comigo. A situação não é fácil, mas tomo todos os cuidados para não contaminar minha família. Felizmente, não tive a doença.” Sete meses depois do início da pandemia, a fisioterapeuta destaca o amadurecimento dos filhos e a dedicação permanente ao ofício que escolheu. “Tenho amor pela minha profissão e pela minha família. Esse sentimento nos dá segurança em períodos assim.”

Traços do coração



Há quase sete meses, os médicos intensivistas Lucas Timm Pisoler e Ana Carolina Marques Barbosa de Oliveira Pisoler, moradores da capital, não se encontram com os filhos Maria Luíza, de 7, e João Lucas, de 6. Trabalhando em CTI, o casal preferiu deixar as crianças com os avós maternos em Lagoa Santa, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. “Só vemos as crianças no fim de semana, mesmo assim de longe. Não é uma situação fácil, mas é essencial para evitar os riscos”, conta Ana Carolina, que trabalha na Santa Casa e no Hospital Belo Horizonte.


Mesmo a distância e sem nunca ter visitado o local de trabalho dos pais, Malu e Joãozinho, como são carinhosamente chamados em família, recriaram o ambiente do CTI, não se esquecendo dos equipamentos de proteção dos intensivistas e aparelhos da sala. Ao ver a arte da dupla, Ana Carolina se emocionou: “Olha só! Colocaram até a roupa verde que uso no hospital!”.

Na manhã de sexta-feira, logo após as tarefas escolares on-line, Malu e Joãozinho falaram, por telefone, sobre o desenho, agradecendo os elogios. Ao lado, a vovó Virgínia comentou sobre a alegria de ter os netos em casa: “Com eles aqui, estou ganhando da COVID-19 de 7 a 0”.

O incentivo das palavras

Uma frase dita por Maria Cecília Murta de Oliveira, de 11 anos, ficou na cabeça e bem gravada no coração da médica infectologista Cláudia Murta de Oliveira: “Seu trabalho, mãe, é muito importante. Você ajuda muitas pessoas no hospital”. Ao repetir as palavras, Cláudia mistura lágrimas e sorrisos, pois sabe que cada letra dá força para continuar atuando no Serviço de Controle de Infecção Hospitalar da Santa Casa BH. A equipe trabalha também com pesquisas de antibióticos e vacinas.

Casada com o ortopedista Gilberto Byrro, Cláudia se surpreendeu com a riqueza de detalhes contidos no desenho da filha. Como se fosse o recorte de uma história em quadrinhos, mostrando o cotidiano da médica infectologista, há cenas e diálogos no laboratório de pesquisas diante de um paciente, na volta para casa e ainda uma consulta on-line, à noite. “Desde o início da pandemia, temos trabalhado mais do que o de costume. E ela mostrou isso”, observa.

Maria Cecília espera que tudo passe logo para a vida voltar logo ao normal: “Quando tivermos uma vacina contra a COVID-19, será bem legal”. Mesmo com um desenho que toca o coração, a menina não pensa em ser artista do traço. Por enquanto, o desejo é seguir os passos dos pais e se formar em medicina.

Proteção




A criatividade das crianças não tem limite, muito menos o caminho de um lápis deslizando sobre a folha de papel em branco. Simone de Fátima da Silva Morais, de 7, imagina o pai, o técnico de enfermagem José Fábio de Morais, usando todos os equipamentos de proteção individual necessários para quem trabalha em hospital. No desenho, ela ainda faz uma declaração de amor: “Meu pai é demais. Ele cuida de pacientes também”. O mais surpreendente é o pai estar ao lado de um respirador, aparelho fundamental para vítimas hospitalizadas com COVID-19.

Simone não esconde que tem medo de injeção, embora saiba da importância vital da vacina para livrar o mundo do mal. José Fábio explica que nenhum dos três filhos – a mais velha, Simone, Samuel, de 5, e Maria Júlia, de 3 – entrou em um hospital, porém conhecem o ambiente pelas chamadas de vídeo que o pai costuma fazer nos momentos de folga.

A família mora no bairro Rosarinho, em Santa Luzia, perto do limite com Belo Horizonte, e José Fábio conta que trabalha na Santa Casa BH desde 2007. Lembrando que os tempos não têm sido fáceis para ninguém, especialmente para profissionais de saúde, o técnico de enfermagem, casado com Alcione de Fátima da Silva Morais, garante que, para trabalhar na área, torna-se essencial amar o que faz. E tem uma filosofia: “A vida é viver e sobreviver”. 


Fonte: Estado de Minas

8 visualizações0 comentário