Exército indiano de 600 mil mulheres agentes de saúde entra em greve



NOVA DÉLHI — Elas ajudaram a erradicar a pólio na Índia e reduziram o número de mulheres que morrem durante o parto. Mas o surto catastrófico de coronavírus no país, agora o terceiro maior do mundo, levou esse exército feminino de profissionais da saúde ao limite.


Após meses de assédio, pagamento insuficiente e falta de proteção contra infecção, cerca de 600 mil do 1 milhão de Ativistas Sociais de Saúde Credenciadas — ou ashas, o que também significa “esperança” em hindi — estão em greve de dois dias a partir de 7 de agosto para chamar a atenção para sua situação. Os líderes sindicais esperam que mais pessoas se juntem à medida que a notícia se espalha.


Elas querem um pagamento melhor e em dia, e um status legal que garanta salários mínimos, para continuar com seu trabalho de ajudar as autoridades indianas a rastrear contatos de alto risco de pacientes da Covid-19 em favelas e áreas rurais de difícil acesso do país.


A perda das ashas não só ameaçaria os esforços de contenção do vírus na Índia, mas também impactaria outros serviços essenciais de saúde que elas fornecem para famílias rurais, que vão desde vacinação infantil até controle da tuberculose.


— Para trabalhar das 7h às 17h, ganhamos apenas 2.000 rúpias (R$ 144) por mês e sem máscaras ou desinfetante — disse Sulochana Rajendra Sabde, uma asha de 45 anos no distrito de Jalgaon em Maharashtra, um estado ao longo da costa Oeste da Índia cuja capital é Mumbai.


Sabde ainda não recebeu as 2.000 rúpias extras por mês prometidas pelo governo estadual para o trabalho relacionado ao vírus.


— Temos que manter tantos documentos por uma soma insignificante que também nunca chega a tempo — disse ela. — O governo não tem lugar para nós em seu âmago.


Incapacidade de controle


A frustração das ashas é mais uma evidência da incapacidade do governo indiano de controlar totalmente a epidemia, que infectou mais de 2 milhões de cidadãos, incluindo o Ministro do Interior e a maior estrela de Bollywood, a atriz e Miss Mundo 1994 Aishwarya Rai.


Apesar de um bloqueio nacional no final de março que causou devastação econômica, o surto na Índia se acelerou em todo o país, sobrecarregando seu sistema de saúde já em ruínas. O país somou mais de 62 mil casos da doença na sexta-feira.


Saira Anwar Sheikh, uma asha no estado de Maharashtra, recebeu máscaras e luvas, mas nenhum traje de proteção. Ela morreu de Covid-19 em 1º de junho, deixando seu marido e quatro filhos para trás. Cerca de 20 ashas morreram no surto, de acordo com um relatório da mídia local.


— Ela era a alfabetizada entre nós dois. Ela dedicou 11 anos de sua vida a esse trabalho e não houve ajuda do governo — disse Anwar Sheikh Ahmad, seu marido, que não conseguiu reivindicar o seguro prometido pelo governo de Narendra Modi para os trabalhadores da linha de frente da Covid-19, apesar de várias visitas às agências locais responsáveis.


A experiência dos países mais bem-sucedidos na mitigação do vírus, como Coreia do Sul e Alemanha, mostra que um exército eficaz e com bons recursos de rastreadores de contato rastreando as cadeias de transmissão tem sido uma vantagem crucial para conter os surtos. Mas a velocidade com que o coronavírus se espalha, frequentemente em grupos ocultos de portadores assintomáticos, ameaçou sobrecarregar esses esforços mesmo em países desenvolvidos como o Japão.


As ashas da Índia sempre atuaram como um paliativo no poroso sistema de saúde do país, prestando assistência desde a saúde materna até a imunização em seu vasto interior rural.


Criadas pela Missão Nacional de Saúde Rural em 2005, elas deveriam ser um grupo jovem e itinerante de profissionais de saúde formado exclusivamente por mulheres, o que significa que elas são normalmente mais bem-vindas em casas rurais. Elas trabalham com honorários e recompensas vinculadas ao desempenho, mas o surto de coronavírus significa que muitas agora estão marcando 10 horas diárias em vez das duas ou três originalmente previstas.


A negligência com o bem-estar das ashas é sintomático do desrespeito demonstrado aos segmentos desfavorecidos da sociedade indiana, disse T. Sundararaman, coordenador global do Movimento de Saúde do Povo, com sede em Nova Délhi.


— Elas atendem famílias de casta inferior. Elas estendem as mãos às mulheres. Elas não se dedicam à classe média ou a elite de Bollywood — disse ele. — O desafio é chamar a atenção para o que se perde quando essas pessoas saem do campo.


A Bloomberg conversou com oito ashas em quatro estados indianos e descobriu um padrão comum de atrasos nos salários e, mais recentemente, assédio em suas comunidades, já que a Covid-19 é estigmatizada na Índia e as pessoas temem ser levadas para centros de quarentena.


Voluntárias, não trabalhadoras


— Ashas são consideradas voluntárias honorárias, e não trabalhadoras, sob a lei do salário mínimo, embora implementem todos os esquemas de saúde pública — disse Amarjeet Kaur, secretária-geral do Congresso Sindical de Todas as Índias, que junto com outros nove sindicatos está os mobilizando para a greve de dois dias.


Eles não tiveram uma resposta do governo central sobre suas demandas. Ashas organizaram protestos e representaram oficialmente suas demandas na sexta-feira e continuarão no sábado, disse ela.


Ligações e um e-mail para o Ministério da Saúde pedindo comentários sobre a greve das ashas não foram respondidos imediatamente.


Sabde se lembra de como teve que chamar a polícia depois que um homem se tornou violento quando ela perguntou seu histórico de viagens recente.


— As pessoas gritam comigo, me xingam e me pressionam para não dar todos os detalhes — disse ela, referindo-se a quando sai à procura de gente resfriada ou com febre.


Balbir Kaur, uma asha no estado de Punjab, no Norte, tem comprado luvas, máscaras e desinfetante depois de esgotar os suprimentos do governo que conseguiu em maio. Antes da pandemia, ela visitava sete casas por dia. Agora, ela vai a 25 casas diariamente.


Vista como delatora, as pessoas a importunam dizendo que foram enviadas para centros de quarentena por causa de seu relatório sobre pacientes suspeitos para funcionários do Departamento de Saúde, disse Balbir Kaur. Informar as autoridades locais sobre as pessoas que entram e saem das aldeias — parte de suas funções — é visto como delação, disse ela.


O Ministério Sindical da Saúde tem desembolsado fundos para as ashas, incluindo o pagamento adicional da Covid-19, disse Vikas Sheel, secretário adjunto do Ministério da Saúde. Mas pode haver problemas em nível local, disse ele.


Um funcionário do governo do estado de Maharashtra, que não quis ser identificado porque não tinha permissão para falar publicamente, disse que as taxas regulares estavam sendo pagas às Ashas, mas que o pagamento adicional pelos serviços da Covid-19 ainda não havia sido oficialmente liberado para desembolso.


— Se elas pararem de trabalhar, mesmo os serviços de rotina, incluindo imunização e controle da tuberculose, serão seriamente afetados — disse Sundararaman. — Elas estão tentando chamar a atenção para as pressões gerais que sofrem. Não é a greve de dois dias, é a negação de seus termos básicos de serviço.


Embora as ashas esperem que a greve melhore suas circunstâncias, poucas podem desistir totalmente do emprego em meio a uma contração econômica histórica, apesar dos riscos.


— Nossos maridos já perderam os empregos devido à pandemia, então não podemos perder o nosso também — disse Jeet Kaur, asha em Ludhiana, Punjab. — De que outra forma vamos alimentar a nós mesmas e nossos filhos?”

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