Estudos indicam câncer como principal causa de morte nos países ricos, ultrapassando a doença cardio

O câncer é hoje a principal causa de morte nos países de alta renda, onde é responsável pelo dobro de mortes causadas por doença cardiovascular (DCV), segundo resultados de um novo relatório global.

“O mundo está testemunhando uma nova transição epidemiológica entre as diferentes categorias de doenças não transmissíveis, com a doença cardiovascular tendo deixado de ser a principal causa de morte nos países de alta renda”, disse em uma declaração, o primeiro autor, Dr. Gilles Dagenais, médico e professor emérito da Université Laval, no Canadá.

No entanto, a doença cardiovascular ainda é a principal causa de morte do mundo.

As mortes por doença cardiovascular foram 2,5 vezes mais comuns entre adultos de meia-idade em países de baixa renda do que nos de alta renda, apesar de a presença de fatores de risco de doença cardiovascular ter sido significativamente maior nos países mais ricos.

Os autores do estudo sugeriram que a maior mortalidade relacionada com a doença cardiovascular observada nos países de baixa renda pode ser incialmente atribuída à menor qualidade dos cuidados de saúde – as taxas de primeira internação e o uso de medicamentos para doença cardiovascular foram menores nos países de renda baixa e média.

“Nosso relatório mostrou que o câncer é a segunda causa de morte mais comum em todo o mundo em 2017, correspondendo a 26% de todas as mortes”, comentou o Dr. Gilles.

“Mas, à medida que as taxas de mortalidade por doença cardiovascular continuam a cair, o câncer provavelmente se tornará a principal causa de morte no mundo dentro de apenas algumas décadas”, acrescentou.

Os achados são do estudo Prospective Urban and Rural Epidemiologic (PURE), publicado on-line em 03 de setembro no periódico Lancet.

Este artigo e um complemento também foram apresentados no congresso de 2019 da European Society of Cardiology (ESC 2019).

Câncer é principal causa de morte nos países ricos

O estudo PURE incluiu 162.534 pessoas de 35 a 70 anos que viviam em 21 países.

Os países de alta renda foram: Canadá, Arábia Saudita, Suécia e Emirados Árabes Unidos.

O estudo não incluiu os Estados Unidos, mas pesquisas anteriores mostraram que atualmente o câncer é a principal causa de morte, superando a doença cardiovascular em cerca de metade dos estados do país, e que é a principal causa de morte na população hispânica, conforme publicado pelo Medscape.

Os países de renda média foram: Argentina, Brasil, Chile, China, Colômbia, Irã, Malásia, Palestina, Filipinas, Polônia, Turquia e África do Sul.

Os países de baixa renda foram: Bangladesh, Índia, Paquistão, Tanzânia e Zimbábue.

O acompanhamento médio foi de 9,5 anos. Durante este período, 9.329 participantes (5,7%) tiveram doença cardiovascular, 5.151 (3,2%) tiveram câncer, 4.386 (2,7%) sofreram lesões por causas externas com necessidade de internação hospitalar, 2.911 (1,8%) tiveram pneumonia e 1.830 (1,1%) tiveram doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).

Câncer, lesões por causas externas, DPOC e pneumonia foram mais comuns em países de alta renda e menos comuns em países de baixa renda. Este padrão foi observado para câncer de mama, pulmão, cólon, próstata e ginecológico.

A incidência de doença cardiovascular por 1.000 pessoa-ano foi de 7,1 nos países de baixa renda, de 6,8 nos países de renda média e de 4,3 nos países de alta renda. As taxas gerais de mortalidade foram duas vezes mais altas nos países de baixa renda em comparação com os de renda média, e foram quatro vezes maiores nos países de baixa renda em comparação com os de alta renda.

A doença cardiovascular e o câncer foram as causas mais comuns de morte em geral, e houve diferenças marcantes de acordo com a renda dos países. Nos países de alta renda as mortes por câncer (1,7 mortes por 1.000 pessoa-anos) foi aproximadamente 2,5 vezes mais comum do que as por doença cardiovascular (0,6 mortes por 1.000 pessoa-anos). Nos países de renda média foi 2,0 e 1,6 por 1.000 pessoa-anos. Nos países de baixa renda, a diferença foi muito mais acentuada – as mortes por doença cardiovascular foram três vezes mais frequentes do que as por câncer (4,2 versus 1,4 mortes por 1.000 pessoa-anos), ou seja, a proporção entre mortes por doença cardiovascular e por câncer foi de 0,4 em países de alta renda, 1,3 em países de renda média e 3,0 em países de baixa renda.

Esses achados, disseram os autores, são consistentes com os do estudo Global Burden of Disease (GBD), que descobriu que o câncer era a principal causa de morte entre adultos entre 50 e 69 anos de idade em países ricos, enquanto a doença cardiovascular era a principal causa de morte em nações de baixa renda.

Fatores de risco modificáveis para doença cardiovascular

No artigo que acompanha o estudo publicado no periódico Lancet, os pesquisadores estudaram a contribuição relativa (fração atribuível populacional, FAP) de 14 fatores de risco modificáveis para doença cardiovascular na coorte PURE.

O estudo incluiu 155.722 indivíduos de meia-idade, residentes na comunidade, sem história de doença cardiovascular e que viviam nos mesmos 21 países de alta, média e baixa rendas avaliados no estudo PURE.

Os fatores de risco modificáveis foram responsáveis por aproximadamente 70% dos casos de doença cardiovascular e de morte causada por esta doença na população geral. Os fatores metabólicos foram os fatores de risco predominantes para doença cardiovascular (41,2% da FAP); destes, a hipertensão foi o mais prevalente (22,3% da FAP).

Os fatores de risco comportamentais contribuíram para a maioria das mortes (26,3% da FAP), mas o maior fator de risco isolado foi o baixo nível de instrução (12,5% da FAP). A poluição do ar ambiente foi associada a 13,9% da FAP para doença cardiovascular.

Houve uma proporção maior de doença cardiovascular e óbito nos países de baixa renda do que nos de renda média. Nestes dois grupos de países, poluição do ar nas residências, alimentação ruim, baixo nível de instrução e baixa força de preensão tiveram efeitos maiores na doença cardiovascular ou na mortalidade do que nos países de alta renda.

Ambos os estudos têm limitações, advertiram os autores. Embora esses sejam os únicos estudos a incluir 21 países, os resultados podem não ser generalizáveis para todos os países.

Oportunidades para prevenir

Em um editorial que acompanha o segundo estudo, sobre fatores de risco de doença cardiovascular, a Dra. Stephanie H. Read, do Women’s College Hospital, no Canadá, e a Dra. Sarah H. Wild, University of Edinburgh, no Reino Unido, disseram que o resultados atuais “podem nos informar sobre o uso efetivo de recursos limitados – por exemplo, indicando a importância de melhorar a educação em todo o mundo, de melhorar a alimentação e de reduzir a poluição do ar em residências nos países menos desenvolvidos”.

“O valor de coletar dados semelhantes para informar políticas em uma ampla gama de países é claro, mas a promoção de escolhas de estilo de vida melhores e a modificação de determinantes sociais e comerciais permanece um desafio”, escreveram elas.

Em referência ao primeiro estudo, a Dra. Sarah disse ao Medscape que, nos países de alta renda, as doenças cardíacas e a mortalidade relacionada “estão se tornando menos comuns em parte como consequência das melhorias no tratamento, e como todos morrem de algo, o câncer está começando a ultrapassar a doença cardiovascular como a causa mais comum de morte.

“O câncer obviamente representa várias doenças, mas alguns tumores comuns estão relacionados com estilos de vida pouco saudáveis, e há claramente oportunidades para prevenir alguns tipos de câncer e para melhorar os tratamentos em todo o mundo”, disse ela.

O estudo foi financiado por Population Health Research InstituteHamilton Health Sciences Research InstituteCanadian Institutes of Health Research (inclusive através da Strategy for Patient-Oriented Research através da Ontario SPOR Support Unit), Heart and Stroke Foundation (Canadá), Ontario Ministry of Health and Long-Term Care e por doações sem restrições de várias empresas farmacêuticas. O estudo recebeu contribuições importantes da AstraZeneca (Canadá), Sanofi-Aventis (França e Canadá), Boehringer Ingelheim (Alemanha e Canadá), Servier Laboratories e GlaxoSmithKline, além de contribuições adicionais da Novartis, King Pharma e de várias organizações nacionais e locais em países participantes. Vários autores de ambos os estudos informaram conflitos de interesses relevantes conforme descrito nos artigos originais.

Fonte: Medscape

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