Estudo liderado por brasileiros identifica como antidepressivos atuam no cérebro



Um estudo liderado por cientistas brasileiros traz luz para uma velha questão na psiquiatria: a atuação dos antidepressivos no cérebro humano. Os medicamentos usados em larga escala para tratar depressão e ansiedade no mundo todo ainda se baseiam em diretrizes da tentativa e erro. Médicos receitam doses de fluoxetina, sertralina e amitriptilina que aumentam, diminuem e se somam em busca da combinação ideal, embora incerta, que traga o conforto terapêutico desejado.


O uso dos antidepressivos para o tratamento dessas doenças se baseia, sobretudo, na chamada hipótese monoaminérgica, segundo a qual os distúrbios do humor são causados por uma deficiência no nível de neurotransmissores como serotonina, norepinefrina e dopamina. Esses medicamentos visam aumentar a concentração dessas substâncias no cérebro para eliminar a doença. Entretanto, a melhora diante do tratamento medicamentoso nem sempre é certa. Considerada o mal do século 21, a depressão atinge cerca de 4,4% da população do planeta e é a principal causa de incapacidade, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). De 10% a 30% das pessoas com depressão não apresentam melhora depois do início do tratamento com remédios, segundo estudos de 2019. Novas descobertas A chave para finalmente entender a atuação dos antidepressivos nos neurônios está na identificação da partícula celular responsável por facilitar a atuação dos medicamentos. É o que mostra o estudo liderado por pesquisadores da Universidade de Helsinque, na Finlândia, que contou com a participação dos neurocientistas brasileiros Plínio Casarotto e Caroline Biojone e do cientista Cassiano Ricardo Alves Faria Diniz, que realiza pós-doutoramento na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP). Até então, acreditava-se que a ação terapêutica dos antidepressivos acontecia com a ativação de um receptor chamado BDMF, que é acionado com o acúmulo dos medicamentos nos neurônios, deixando o cérebro mais flexível a novos estímulos para a recuperação da doença. O estudo publicado na revista científica americana ‘Cell’ mostra que, tanto os antidepressivos clássicos quanto os de efeito rápido são bem sucedidos ao promover a ativação direta de outro receptor, o TRKB. “Antes, acreditávamos que o efeito no receptor TRKB era indireto, e hoje vemos que não. Todos os antidepressivos testados atuaram diretamente sobre essa estrutura. Isso muda o que entendemos sobre as drogas”, explica Cassiano Ricardo Alves Faria Diniz. Para chegar a esse resultado o grupo se valeu de pesquisas feitas anteriormente que apontam uma relação entre a atuação dos medicamentos e o receptor TRKB, testes in vitro, feitos em laboratório, e in silico, usando simulações computacionais de alta performance.

Essa descoberta é importante porque pode trazer assertividade a um tratamento que foi por décadas incerto. Desde que o primeiro ansiolítico foi utilizado no tratamento de distúrbios de humor, em 1956, as drogas são administradas com doses baseadas em tentativa e erro.

“A partir de agora, a indústria farmacêutica pode desenvolver drogas melhores porque até então eles estavam desenvolvendo drogas baseadas em um mecanismo de ação que não era o correto”, defende Caroline Biojone. Colesterol no cérebro O estudo também relevou, pela primeira vez, uma importante relação entre os níveis de colesterol no cérebro com a eficácia do tratamento realizado com drogas antidepressivas. De acordo com a investigação, há uma quantidade considerada ideal de colesterol no cérebro que facilita a ativação do receptor TRKB, o que promoveria um tratamento mais eficaz. “Até então, essa questão do colesterol nunca havia sido levada em conta quando os psiquiatras tratam seus pacientes e nem para investigar a interação que os antidepressivos podem ter com outras drogas que alteram os níveis de colesterol no cérebro também”, explicou Biojone. De acordo com Plínio Casarotto, um dos pesquisadores que lideraram a investigação, o colesterol encontrado nos neurônios é produzido no próprio cérebro e, a princípio, não possui relação com o colesterol sanguíneo. “Adoraria que fosse provado que comer churrasco ativasse o TRKB, mas não tem a ver”, explica o neurocientista.

Esses resultados abrem caminhos para a ciência, que pode começar a investigar a interação de antidepressivos com outras drogas que modulam o colesterol para descobrir como isso afeta a receptividade do paciente às drogas. “Isso não quer dizer, necessariamente, criar novas drogas, mas, sim, procurar por novos tratamentos com as drogas que já estão sendo usadas”, afirma Biojone. Tratamento combinado Para tratar a depressão e a ansiedade, entretanto, é necessário mais do que apenas a intervenção medicamentosa. As drogas aumentam a capacidade do cérebro de se adaptar aos novos estímulos, mas para que a recuperação aconteça esses estímulos precisam, obrigatoriamente, ser positivos. Tendo isso em vista, critérios externos, como renda e ambiente, afetam diretamente a recuperação do paciente. “Nossos dados mostram que terapia ou tratamento com drogas, isoladas, não funcionam muito bem. Quando você combina os dois, você costuma ter resultados muito melhores”, explica Casarotto. Além dos brasileiros, o estudo também contou com a participação dos pesquisadores das Universidades de Freiburg (Alemanha) e Bergen (Noruega), além do Departamento de Física da Universidade de Helsinque, responsável pela modelagem molecular.


Fonte: G1

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