Estudo constata frequência e profundidade ideais das compressões na RCP

Novas pesquisas identificaram a combinação ideal de taxa de compressão torácica (TCT) e profundidade de compressão torácica (PCT) ao realizar a reanimação cardiopulmonar (RCP) para melhorar as taxas de sobrevida.

Uma equipe de pesquisadores analisou dados de mais de 3.600 pacientes que sofreram parada cardíaca fora do hospital, e para os quais o TCT e o PCT foram registrados simultaneamente.

Eles constataram que a combinação ideal de TCT-PCT é de 107 compressões por minuto com uma profundidade de 4,7 cm.

Quando a RCP foi realizada com variação de até 20% desse valor, a probabilidade de sobrevivência foi significativamente maior. Os achados continuaram os mesmos, independentemente da idade, sexo, ritmo cardíaco de apresentação ou uso de um dispositivo de RCP.

As chances de sobrevida foram ainda maiores quando um dispositivo de RCP foi utilizado, em comparação com a RCP padrão, mas a efetividade do dispositivo foi dependente de estar próximo da combinação de TCT-PCT alvo.

“As descobertas aqui não apenas enfatizam a importância da qualidade do desempenho da RCP, mas provavelmente ajudarão os paramédicos e outros profissionais na linha de frente a salvar muito mais vidas”, disse o coautor do estudo, Dr. Paul Pepe, médico e professor de medicina de emergência da University of Texas Southwestern Medical School, nos Estados Unidos, em um comunicado de imprensa.

O estudo foi publicado on-line em 14 de agosto no periódico JAMA Cardiology.

Um passo a mais

“Alguns anos atrás, estudamos as taxas de RCP para ver se a alteração na frequência de compressão afetava o desfecho”, disse o Dr. Paul ao Medscape.

“Encontramos uma faixa de frequência de compressão de 100 a 120 por minuto, que parecia correta, e a publicamos, mas também descobrimos um problema – que a maior frequência levava a menor profundidade ou que maior profundidade significava que as compressões eram mais lentas”, disse ele.

“Queríamos fazer um trabalho melhor, ensinando as equipes de resgate a desenvolver a memória muscular para a frequência e profundidade corretas, por isso buscamos uma combinação ideal”, disse ele.

Além disso, Dr. Paul e a sua equipe decidiram dar “um passo a mais” com a pesquisa, estudando as diferenças entre os pacientes – por exemplo, se um homem grande ou uma mulher pequena e mais velha exigiam frequência ou profundidade diferentes ou se a duração da parada cardíaca fazia diferença, ele explicou.

Para investigar, os pesquisadores usaram dados coletados entre junho de 2007 e novembro de 2009 do National Institutes of Health (NIH) Ressuscitation Outcomes Consortium (ROC), que estudou intervenções farmacológicas, procedimentais e dispositivos para parada cardíaca fora do hospital.

Em seu estudo anterior, os pacientes foram aleatoriamente distribuídos para receber RCP convencional usando um dispositivo de limiar de impedância simulado (ITD, da sigla em inglês impedance threshold device) ou um dispositivo de ITD ativo que forneceu resistência de 16 cmH2O.

A amostra do estudo foi de 3.643 pacientes que sofreram parada cardíaca fora do hospital, e para os quais TCT e PCT foram registrados simultaneamente durante um ensaio clínico do NIH de um dispositivo de RCP.

Os pesquisadores realizaram análises de subgrupos que incluíram avaliações de acordo com idade, sexo, ritmo cardíaco de apresentação e uso de um dispositivo de RCP.

As recomendações da American Heart Association (AHA) foram usadas para instruir os socorristas do serviço médico de emergência:

  1. 80 a 100 compressões por minuto (cpm)

  2. Profundidade de compressão de 4,0 cm a 6,0 cm

  3. Manejo avançado de via aérea

  4. 10 respirações por pressão positiva por minuto com volume corrente de aproximadamente 600 mL

  5. Respirações produzidas em uma proporção de 30:2 entre compressões e respirações ao usar técnicas avançada de vias aéreas

Os locais participante do ROC foram obrigados a demonstrar que, por vários meses, a RCP poderia ser feita com essas métricas predefinidas ≥ 50% do tempo.

Os critérios de inclusão exigiam a disponibilidade de conjuntos intactos de gravações simultâneas de TCT-PCT durante os primeiros cinco minutos da RCP realizada por socorristas. Foram excluídos os pacientes com valores de TCT-PCT fora dos limites prescritos (de 60 cpm a 160 cpm e profundidade de 2,0 a 8,0 cm).

Mapa de calor

Os pesquisadores usaram um modelo de regressão com um termo linear e um quadrático para cada uma das frequências e profundidades (e a sua interação), que foi ajustada aos dados em geral, e depois ajustada separadamente, para os grupos ITD simulado (inativo) e ITD ativo.

Os valores ótimos de combinação TCT-PCT foram calculados a partir desses modelos, usando “técnicas de otimização numérica”, com uma combinação ótima proposta posteriormente avaliada dentro de uma faixa que estava dentro de 20% do alvo de TCT-PCT identificado.

Além disso, os pesquisadores realizaram análises de subgrupos para determinar se os alvos ótimos do TCT-PCT variavam por sexo, idade, ritmo cardíaco de apresentação ou duração da parada cardíaca.

As combinações ideais de TCT-PCT para ITD simulado (RCP padrão) e ITD ativo (RCP adjunto) foram estimadas dentro de cada subgrupo, bem como entre os subgrupos combinados.

Para exibir visualmente as combinações ótimas de PCT-TCT, os gráficos de contorno construídos colorimetricamente, separados para grupos ITD simulado e ITD ativo, mostraram as proporções relativas de sobreviventes na amostra total de sobreviventes, e as proporções ponderadas de sobrevida para a coorte geral dentro de cada célula.

As zonas “mais frias” representavam proporções menores de sobreviventes ou de probabilidade de sobrevida, enquanto as zonas “mais quentes” representavam proporções maiores de sobreviventes ou de sobrevida.

“Apresentamos os dados de uma maneira completamente diferente”, disse o Dr. Paul. Ele comparou esse novo gráfico de contorno a um mapa que usa cores para transmitir a combinação ideal de velocidade e profundidade.

“Ponto ideal”

A coorte do estudo teve 3.643 pacientes (média de idade = 67,5, desvio padrão, DP, de 15,7 anos; 64,4% eram do sexo masculino). Para 41,9% desses pacientes, pessoas ao redor testemunharam a parada cardíaca fora do hospital; e realizaram a RCP em 36,3% dos pacientes.

Quase metade dos pacientes (47,8%) apresentou assistolia, enquanto cerca de um quarto (24,5%) apresentou fibrilação ventricular ou taquicardia ventricular.

Nas 130 combinações de TCT-PCT, a combinação de 100 cpm a 109 cpm e 4,0 cm foi a mais populosa para ITD simulado, ITD ativo ou coorte geral.

No grupo sobrevida, a célula mais povoada foi a combinação de 90 cpm a 99 cpm e 4,5 cm.

O TCT-PCT ideal para todos os pacientes foi de 107 cpm, com profundidade de 4,7 cm, com uma probabilidade de sobrevida significativamente maior quando a RCP foi realizada com variação de até 20% desse valor (6,0% versus4,3% fora desse intervalo; razão de risco ou odds ratio, OR, = 1,44; intervalo de confiança, IC, de 95% de 1,07 a 1,94; P = 0,02).

Esses achados permaneceram os mesmos, independentemente da idade, sexo, ritmo cardíaco de apresentação ou uso de dispositivo de RCP.

“Consideramos essa combinação como uma ‘área ideal'”, comentou o Dr. Paul.

Quando os 93 do grupo sobrevida com ITD simulado (RCP padrão) (mRS ≤ 3) foram comparados com seus 93 pares com ITD ativo usando gráficos de contorno, as combinações ideais de TCT-PCT foram semelhantes, ou seja, a célula com a maior proporção de sobreviventes foi 100 cpm a 109 cpm e de 4,5 cm a 5,0 cm.

O TCT-PCT ideal foi associado à probabilidade de sobrevida significativamente maior com o dispositivo de RCP em comparação com a RCP padrão (OR = 1,90; IC 95% de 1,06 a 3,38; P = 0,03), com a efetividade do dispositivo dependente de estar próximo à combinação de TCT-PCT alvo.

“Não encontramos uma indicação conclusiva a favor de uma combinação variável para nenhum dos subgrupos predefinidos em comparação com os achados gerais”, afirmaram os autores.

“Quando usamos o dispositivo, a taxa ideal foi a mesma que para a RCP padrão, mas conseguimos quase o dobro da taxa de sobrevida”, comentou o Dr. Paul.

“A lição aqui é que o ITD melhorou significativamente os desfechos, mas a melhora foi altamente dependente de estar nessa faixa ideal, o que a torna ainda mais interessante, especialmente se usarmos o dispositivo”, disse ele.

O “mantra” da RCP

Em seus comentários sobre o estudo para o Medscape, o Dr. David Kessler, médico e professor associado de pediatria em medicina de emergência, Departamento de Medicina de Emergência, Columbia University Vagelos College of Physicians and Surgeons, nos EUA, chamou o estudo de “um grande exemplo de análise secundária que pode ser feito usando um grande conjunto de dados clínicos sobre a frequência e profundidade das compressões na RCP”.

O estudo “ressalta a necessidade de registros melhores e bem financiados de desempenho real de RCP vinculados aos desfechos”, afirmou Dr. David, que também é vice-presidente de inovação.

O Dr. David, que não participou do estudo, observou várias limitações.

“Os dados sobre a inclinação não foram incluídos; portanto, não podemos avaliar como este terceiro fator da RCP de alta qualidade interage com as outras metas de frequência e profundidade”, disse ele.

Além disso, há “zero dados sobre crianças, e estudos futuros são realmente necessários para responder perguntas semelhantes para todas as idades e pesos de crianças”, comentou ele.

O Dr. Paul disse que, mesmo os socorristas bem treinados, que para serem incluídos no estudo precisaram demonstrar que sabiam realizar a RCP, eram “tiveram um desempenho bastante variável”, em grande medida.

“É difícil para a equipe de socorro conseguir manter a mesma frequência e profundidade de compressões no mundo real, por isso precisamos fornecer a tecnologia com retorno em tempo real ou usar dispositivos mecânicos que ajudem na frequência e profundidade corretas”, acrescentou.

Em um editorial que acompanha o estudo, o Dr. David Cone, médico, disse que as conclusões do estudo “não devem levar a uma mudança nas diretrizes internacionais de RCP”.

No entanto, “elas sustentam o mantra da RCP: empurre com força, rápido e não pare”, afirmou.

Os dados utilizados no estudo foram fornecidos pelo NIH e pelo Resuscitation Outcomes Consortium. Dr. Paul Pepe informou não ter conflitos de interesses relevantes. As informações dos outros autores constam do artigo original. Dr. David Kessler informou não ter conflitos de interesses relevantes.

Fonte: Medscape

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