Entidades médicas divulgam documento com recomendações para triagem de pacientes em UTIs



Entidades médicas divulgaram nesta sexta-feira (9) um documento com orientações (veja mais abaixo) sobre como conduzir as triagens de pacientes em unidades de terapias intensivas (UTIs).

As recomendações foram elaboradas pelas associações de medicina intensiva, de geriatria, de emergência e de paliativa, e endossadas por um comitê da AMB (Associação Médica Brasileira), composto por 14 diferentes especialidades, entre elas a dos infectologistas, pneumologistas e médicos de família.

O objetivo é auxiliar os profissionais da saúde que atuam em UTIs neste momento de colapso. Segundo o comitê, o documento visa “oferecer transparência ao processo, orientar profissionais de saúde acerca de decisões e, acima de tudo, manter o compromisso maior dos médicos que é salvar o maior número de vidas possível”. “Existem vários aspectos que precisam ser tratados, mas vivemos uma situação cruel, do ponto de vista de pacientes que estão à espera de um leito e do ponto de vista da tomada de decisão no médico na triagem dos pacientes”, explica Cesar Fernandes, presidente da AMB. No documento, os especialistas alertam que a ausência de recomendações contribui com o aumento do número de mortes e também com o aumento na carga de estresse dos profissionais da saúde.

Suzana Lobo, presidente da Associação de Medicina Intensiva Brasileira, reforça que a decisão de triagem é complexa no momento em que o Brasil vê o sistema de saúde colapsar – 19 estados e o Distrito Federal encontram-se com taxas de ocupação de leitos de UTI superiores a 90%, segundo a Fiocruz.

“A decisão é complexa e está sendo tomada por inúmeros profissionais. O documento é muito importante para melhorar a consistência das tomadas de decisões. Nem todos os profissionais [que estão atuando na linha de frente] têm treinamento”, diz Lobo.

As sociedades médicas explicam que as orientações não são obrigatórias, mas visam nortear o profissional do ponto de vista científico. “O documento permite orientação adequada do que fazer em determinadas situações. Ele não tem poder de lei, mas ele é construído nas melhores evidências científicas”, explica Hélio Penna Guimarães, presidente da Associação Brasileira de Medicina de Emergência. Veja as recomendações O documento ressalta que, para salvar o maior número de vidas em uma situação de crise, é preciso identificar quem tem mais chances de sobreviver ao receber recursos em esgotamento.


O modelo utiliza dados relativos à gravidade do quadro agudo que o paciente apresenta, dados sobre a presença de doenças avançadas e dados relativos à funcionalidade (ou estado de saúde física) dos pacientes. A idade dos doentes não é utilizada como critério único de triagem.

  • A alocação de recursos baseados unicamente em ordens de chegada ou atendimento são inadequadas;

  • O princípio mais sólido, ainda na ausência de consenso absoluto, é o de priorização de pacientes com melhores chances de benefício e com maiores expectativas de sobrevida;

  • A identificação de maior chance de benefício ou sobrevida deve utilizar medidas objetivas, com boa base de evidência e que possam ser aplicadas universalmente;

  • O uso de um único critério não é recomendado sob risco de maior erro preditivo e de inserção de viés discriminatório no processo. A idade, por exemplo, não deve ser utilizada como critério único de triagem;

  • Avaliações baseadas na subjetividade do julgamento clínico individual também devem ser evitadas, porque são mais sujeitas a vieses, potenciais discriminatórios e ao uso inconsistente;

  • Transparência e clareza: critérios devem ser claros, transparentes e expostos ao escrutínio (técnico e público) e a revisões sempre que apropriado;

  • A triagem deve ser aplicada a todos os pacientes, independente da doença apresentada (pandêmica ou não pandêmica);

  • Pacientes que não foram priorizados na alocação de recursos escassos devem continuar a receber os demais tratamentos não racionados, quando clinicamente apropriado e consentido por eles, incluindo a imperativa oferta de cuidados de conforto caso a morte seja inevitável;

  • Comunicação a pacientes e familiares da existência do protocolo e da prioridade alocada e, sempre que possível, incluir seus valores e desejos;

  • Respeitar diretivas antecipadas de vontade relacionadas a recusa de tratamentos de suporte de vida no final de vida para aqueles pacientes que as redigiram antes do acometimento pela doença aguda ou exacerbação da doença crônica que motivou a internação;

  • Sempre que possível e apropriado discutir com os pacientes e familiares o plano de cuidado a ser adotado em caso de deterioração clínica, incluindo a não oferta de medidas de suporte orgânico;

  • O prontuário deve conter registros claros de todas as decisões tomadas entre equipe e o paciente;

  • Formar sempre que possível uma equipe de triagem treinada em cada unidade de atendimento, ou uma equipe regional com representantes nas unidades de atendimento;

  • Reavaliação da evolução clínica dos pacientes, de maneira a evitar o prolongamento do morrer (distanásia) naqueles pacientes que não conseguiram obter a recuperação, e dessa forma, manter a consistência com o princípio de maximização de benefícios.

Fonte: G1

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