Enfermeiras de UTIs neonatais contam como é passar o Natal com os prematuros - e longe das próprias



O contexto da prematuridade e de outras condições de risco envolve muitas particularidades quanto à presença familiar em uma UTI Neonatal/Pediátrica e não somente em período de pandemia, como o atual. Pais e bebês prematuros vivenciam outras formas de vinculação, contato afetivo, aleitamento materno e experiências durante os seus primeiros dias e meses de vida. Essas particularidades são tantas que permaneci juntamente com a CRESCER o ano todo escrevendo sobre a Vida de Prematuro e suas famílias. Gostaria, primeiramente, de agradecer a todos por nos acompanhar e de dizer que durante o ano de 2021 continuaremos juntos nessa jornada tão especial chamada prematuridade.


O período de Natal e fim de ano é sempre um momento muito esperado por todos nós, pois, independente da espiritualidade individual, esperamos encontrar e ficar bem juntinho das pessoas que mais amamos: nossos pais, filhos, irmãos, sobrinhos, tios, primos, amigos... creio que todos nós, diante dessa pandemia, mas, especialmente, os pais de prematuros que passarão as festas em uma UTI Neonatal/Pediátrica, estão sentindo um aperto no coração de não poder dar aquele abraço presencial e ter aquele contato afetivo íntimo que gostaríamos de ter com as pessoas amadas. Sabemos o quanto essa falta das pessoas que mais amamos, como os nossos bebês, gera marcas e sentimentos difíceis.


Se não estivéssemos em um período tão difícil de pandemia e com tantas diversidades em protocolos de visitas de pais de prematuros nas UTIs em nosso país, apesar de tantas campanhas contra a separação entre pais e prematuros - separação zero -, contaria aqui para vocês várias estratégias para amenizar a dor de não ter o bebê conosco, em casa, em um período tão aguardado. Eu mesma passei por isso duas vezes e tentei alegrar aquele momento da melhor forma possível. Lembro-me que levei comida para compartilhar com a equipe hospitalar, presentinhos de Natal, mimos para minha prematura extrema de 23 semanas e 1 dia, flores para mim mesma, em meu repouso com o Lucca, abraços calorosos e cheios de gratidão nas enfermeiras, médicos, fisioterapeutas, amigos de UTI... Mas, este ano, infelizmente, alguns pais passarão esse momento sem ao menos poderem entrar na UTI.


Então, decidi para o último texto do ano de 2020 trazer à tona a importância de uma equipe hospitalar e que também passa esse período festivo em longos plantões e longe de seus familiares, bebês, companheiros, pais e amigos íntimos; assim como também acontece com os pais que estão nesse momento em um contexto hospitalar.


Para que esse texto fosse carregado de verdade e significado, pedi para algumas enfermeiras neonatais muito especiais para mim, para meu marido, Marcel, e meus dois prematuros, Maitê Maria e Lucca, para escreverem seus depoimentos sobre o que significa para elas passar esse período bem pertinho dos nossos guerreiros prematuros e suas famílias e longe de seus próprios familiares. Creio que todos os pais de prematuros irão compreender o motivo pelo qual escolhi as enfermeiras para esses depoimentos. Sim! As enfermeiras (os) são as segundas mães e pais de nossos bebês. São elas/ eles quem ninam, trocam a fralda, acalentam, passam a medicação, cantam, conversam, dão banho, alimentam em todos os períodos em que não estamos presentes. As enfermeiras literalmente ganham filhos e mais filhos ao longo de suas vidas e jamais se esquecem de nenhum deles. Elas conseguem guardar detalhes, minucias, particularidades e características de todos os bebês e famílias que foram designados a elas... São verdadeiras mães que estão ali transmitindo todo o seu amor, acalento, força e fé para os nossos guerreiros e suas famílias. Tenho a certeza absoluta de que toda mãe e pai de prematuro (s) carregam em seus corações, pelo menos uma enfermeira... Ou várias, como eu! Assim como os nossos filhos as marcam, elas também fazem isso conosco...


Suely, Marli, Viviane e Ely foram mães para os meus dois filhos, mas especialmente para a Maitê Maria que, no Natal e fim de ano de 2012, estava apenas começando uma bela e difícil batalha em prol da vida. Desejo que essas quatro enfermeiras e seus depoimentos possam representar todos os profissionais de UTIs Neonatais, desde a equipe da limpeza até os coordenadores, e a gratidão de todo pai prematuro pelos cuidados prestados a nossos bebês e a nós mesmos.


Suely de Freitas, a primeira enfermeira que colocou as mãos em minha filha, afirma que ¨trabalhar em uma UTI Neonatal tem suas particularidades e que talvez seja compreensível apenas para quem está lá, vivenciando o seu dia a dia. Naquele ambiente de trabalho e de acolhimento aos bebês e seus pais, formamos uma nova família, dividimos todos os tipos de sentimentos como: alegrias, tristezas, medo, esperança e tantas outras coisas com familiares e colegas de trabalho. E como é lindo ver a cumplicidade e o amor que surgem. Fazemos a festa de Natal e Final de Ano lá, com nossos queridos bebês, famílias e equipe, preparamos um café/almoço, nos abraçamos e mantemos o clima de festa nessas datas tão maravilhosas.


Ligamos para nossos filhos, maridos, pais e familiares queridos, prometendo que, assim que terminar o plantão, estaremos festejando com eles ou, para os que estão longe, a promessa de tentar uma folga no próximo ano para festejar junto. Temos também a capacidade de ter um 'calendário móvel', comemorando um dia antes, um dia depois e assim vai. Mas o que se torna importante é termos o privilégio de participar e comemorar com duas famílias: a família biológica e a afetiva. Com elas, temos a oportunidade de tamanhos aprendizados sobre o valor de batalhas em prol da vida e do afeto.¨


Marli de Lima Arnaut, a enfermeira que virou vovó de Maitê Maria e Lucca, disse que todo plantão de Natal e dia 31, ela sai de casa com coração apertado, com uma vontade de ficar, ao ver toda a família se reunindo. "Sempre choro, pois deixar o filho e o marido é tão difícil! Sempre dou aquele abraço, com a promessa de que uma ligação à meia-noite acontecerá se tudo estiver ocorrendo bem com os bebês. Porém, quando chego no plantão e olho para os pais e seus bebês, sinto o quanto, naquele dia especial, eles precisam muito de mim, muito mais dos que aqueles que estão em casa com saúde... Com esse sentimento de prontidão e afeto ao outro, a noite passa tão rápido e, em poucas horas, já consigo estar com minha família novamente. Ao contrário de nossos guerreiros prematuros, que ainda ficarão um tempo prolongado sem o acalento de seus pais. Nesse momento, tudo ganha uma outra dimensão e significado: um olhar, um abraço, um presente... Mesmo ouvindo e desejando feliz Natal e Ano Novo aos meus familiares no banheiro e pelo celular, faço plantão em datas comemorativas há mais de 30 anos e nunca me arrependi, nem por um instante. Afinal de contas, estar com os bebês e suas famílias sempre foi muito satisfatório".


Viviane Bianca Bella, a enfermeira que colocou minha prematura extrema pela primeira vez em meu colo, disse que escolheu a profissão já sabendo que em alguns momentos teria de abrir mão do convívio familiar para cuidar dos pacientes. "Dentro de uma UTI Neonatal, saber que um pequeno ser, com toda sua fragilidade, luta incansavelmente pela vida é um dos fatores que me motiva a oferecer o meu melhor para esse bebê e família, independente de calendários festivos.


Nesses anos como Enfermeira Intensivista Neonatal, aprendi a aproveitar meus momentos de folga com a família para viver o equilíbrio entre os plantões e a vida pessoal. Sou extremamente feliz e realizada por exercer uma profissão que contribui para o maior bem desse mundo: a vida de pequenos grandes guerreiros e suas familias!"


Elyana Reducino, a enfermeira dos laços de fita e gravatinhas, afirmou que passar o Natal e o Ano Novo dentro de uma UTI Neonatal a fez ressignificar muitas teorias. "Nos primeiros anos, era tudo novo, ficava uma mistura de sentimentos entre querer muito estar em casa, mas, ao mesmo tempo, me sentir essencial dentro do ambiente hospitalar para os bebês e suas famílias.


Eles precisavam ser cuidados nessa data, aliás, com ainda mais empatia e carinho. É como se nossa vida profissional e pessoal se permeassem, pois desejamos muita saúde e paz para os amigos de trabalho (não os considero colegas, pois são pessoas com as quais passo junto mais de 12 horas por dia), para os bebês (falando baixinho em cada leito, mesmo sabendo que ainda não entendem) e também para os pais desses bebês, que estão ali, em estado de fragilidade emocional. Em um dos meus plantões de Ano Novo, em um 31/12, um dos pais quis levar algo para colaborar com nosso lanchinho. Chegou ali com muitos sucos de caixinha dos filhos mais velhos. Foi uma atitude que me emocionou e que nunca irei esquecer. Percebi o quanto era essencial estar ali. Criei laços afetivos com alguns pais. Assim como enxergamos o bebê como um ser único e totalmente dependente do afeto e presença de seus pais, também precisamos enxergar um profissional da enfermagem dentro de uma UTI com um grande envolvimento emocional. Sentimos amor por todo bebê que ali está. Equipe, bebês e seus pais, naquele momento de internação, também são nossas famílias¨.


Com esses singelos e verdadeiros depoimentos das segundas mães de nossos bebês em tempos de UTI, esperamos que o Natal e Fim de Ano em uma UTI, apesar de um momento muito difícil, possa ser vivenciado com a certeza de que até o Deus menino passou por momentos de dificuldades e escassez em seu nascimento... Mesmo que um nascimento seja inesperado e muito longe do que imaginávamos ou desejávamos, o Deus menino veio a nós como um recém nascido, exatamente porque, mesmo que os nossos prematuros estejam entre fios, máquinas, muitas adversidades e longe do acalento de seus pais, um bebê significa ternura, esperança, fé e força para trilharmos o tempo de vida terrestre designado a cada um de nós... Desejo que venha um novo ciclo, com muita resiliência e amor para curar e acalentar todas as nossas dores. Que a empatia, o respeito e a admiração por todas as caminhadas de lutas e batalhas em prol da vida seja a grande conexão entre a equipe hospitalar, os prematuros e suas famílias... Que cada olhar trocado entre os profissionais e seus pais seja sentido como um abraço de fraternidade e acalento para todos nós. Com amor e afeto Teresa Ruas, Marcel Desco, Maitê Maria, Lucca, equipe @prematurosbr e todos os nossos parceiros em prol da prematuridade.


Fonte: Revista Crescer

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