Enfermeira de UTI acompanha médicos noticiarem mortes: 'Comunicar mãe de jovem de 29 anos me marcou'


“Vou precisar que seja bom mesmo meu plantão. Não aguento mais ter que acompanhar os médicos darem notícias de falecimento. Faz 15 dias que é pelo menos uma morte por plantão.” O desabafo é de Karina Brazinkas Rocha Guzzo, de 34 anos, enfermeira de um hospital da rede privada da cidade de São Paulo.


Desde o início da pandemia, Karina tem trabalhado na linha de frente da Covid-19. Em 2020, estava num hospital da rede pública e, agora, em um particular. Ela compara o cenário de trabalho ao de uma guerra e cita o que muitos colegas têm comentado: a dificuldade de lidar com a sensação de impotência diante do crescimento de casos de contaminação por coronavírus em um ritmo muito maior do que o sistema de saúde pode suportar.

No estado de São Paulo, são 31.216 pacientes internados, sendo 18.305 em enfermarias e 12.911 em UTI. O número é mais que o dobro do registrado no pior momento da epidemia em 2020, quando o total de internados chegou a aproximadamente 15 mil em alguns dias de julho. Neste domingo (28), foram contabilizados 244 novos óbitos em 24 horas no estado, elevando o total para 71.991. Também foram registrados 9.602 novos casos confirmados de Covid-19, elevando o total para 2.420.100. “Está cada dia mais difícil, não sei se na guerra é assim. Mas você fazer o que ama, o que te faz feliz, que é salvar vidas, e ter que sair do trabalho se sentindo impotente não é fácil. Saio do hospital com a sensação de que fui derrotada”, afirma. A enfermeira fala sobre a mudança de perfil dos pacientes da Unidade de Terapia Intensiva (UTI): “Antes, tínhamos uma parcela maior de idosos [em estado grave]. Mas neste ano a coisa está diferente, estamos perdendo pacientes com menos de 40 anos, ou seja, pessoas que tinham muito a viver. É triste, dói demais."

“Tivemos uma situação com um rapaz de 29 anos que a mãe não sabia nem que ele estava internado, muito menos intubado. Agora imagina o quanto foi difícil dar a notícia de que ele havia falecido. Foi um dos casos que mais me marcou, pois tive que ver o médico explicar desde a internação, dois dias antes, a ida para a UTI, a intubação, todos os esforços realizados e, infelizmente, a perda da nossa batalha. Isso dói demais.”

Hospitais públicos e privados do estado de São Paulo já registraram em março 7% mais internações por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) entre pessoas de 40 a 59 anos do que em todo o mês anterior. Até 22 de março, foram 11.887 registros, contra 11.062 casos registrados nos 28 dias de fevereiro.

Os dados, analisados pela produção da TV Globo a partir do Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica de Gripe (Sivep-Gripe), foram atualizados na noite de quarta-feira (24) pelo Ministério da Saúde. Eles mostram pela primeira vez em 2021 um aumento mais significativo de casos graves entre os adultos não idosos. Silêncio pós-plantões Karina lembra como mudou sua rotina no hospital antes e depois da pandemia: “Chegava em casa feliz com meu dia de trabalho e contava para o meu filho o que havia acontecido, que havíamos conseguido despertar um paciente, que ele estava se reabilitando e saindo da UTI para a enfermaria. E que muitas vezes eles passavam na UTI para dar tchau e agradecer, pois estavam indo de alta”. “Hoje chego em casa e permaneço em silêncio”, conta a enfermeira. “Quando meu filho me pergunta se tenho alguma história, eu apenas respondo que foi cansativo. Apesar disso, digo que no momento estou em casa com os que amo. É isso o que importa.” “Infelizmente a rotina mudou. Leitos de UTI não ficam nem uma hora vazios. Muitas vezes ouvimos a frase: ‘Graças a Deus, surgiu um leito’, quando solicitamos que seja convocada uma família para ser comunicado o óbito. Isso é horrível, mas é nossa realidade.” A alta procura por medicamentos para intubação é outro elemento de estresse no trabalho em uma UTI Covid. “Há uma semana, vivemos aquela situação tensa: não tínhamos mais bloqueadores neuromusculares num plantão, uma das medicações utilizadas para intubação. Felizmente chegou mais no dia seguinte.”

Karina não é a única envolvida com a área da Saúde em sua família: o pai é motorista socorrista do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e o marido trabalha controlando acessos em uma Unidade Básica de Saúde (UBS).

“Meu pai tem 69 anos, mas ele não sabe ficar quietinho dentro de casa. Tenho muito orgulho dele, mas também tenho medo. Sempre falo para minha mãe ter cuidado ao lavar a roupa dele e para ficar em casa. Quase sempre ameaço, dizendo que chamo a polícia se ela sair. Por que eles são meu porto seguro e, se eu perder meu porto seguro para esse vírus, sei que vou perder meu chão e não conseguirei mais cuidar de nenhum paciente.”

“Meu marido trabalha com controladoria de acesso em uma UBS então é mais tranquilo, ele não tem tanto contato com o paciente diretamente. Mas mesmo assim ainda mantemos algumas restrições em casa. No começo, fiquei literalmente afastada dele e de meu filho. Eles ficavam na minha sogra, e eu em casa, sozinha.” Ela chegou a ficar três meses sem ver o filho, até que a distância pesou de vez: “Meu filho começou a ficar doente por estar longe de mim, então estamos juntos novamente. Mas não uso uniforme e, quando chego em casa, ninguém chega perto de mim. Vou direto para o banho.


Saindo do banho, é álcool nas mãos e nos braços e só depois de 30 minutos disso tudo é que vem o abraço. Também tranquei o Luigi, meu filho de 10 anos, dentro de casa, pois agora temos variantes do vírus atacando crianças, e ele tem problemas respiratórios”.

“No começo [da pandemia], não sabíamos como tratar [a doença], o que esperar… Agora sabemos tratar, mas lutamos lá dentro. Está muito mais difícil do que no ano passado, estamos esgotados e, quando saímos [do hospital], vemos as pessoas se aglomerando, sem tomar cuidado nenhum… Parece que é tudo em vão.”


Fonte: G1

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