Dr. Wu Lien-teh, o primeiro herói a recomendar máscaras para enfrentar uma pandemia



A infância de Wu Lien-teh é tão desconhecida como são, para a maioria dos malaios, sua carreira profissional e seus feitos como médico. Até atingir a maioridade, sabe-se apenas que era filho de uma família de imigrantes chineses da cidade de Taishan; que nasceu em Penang, um dos Estados federados da Malásia, e que aos 17 anos foi estudar em Cambridge, no Reino Unido, com uma bolsa. A partir daí sua carreira é tão meteórica como reconhecida, depois de conseguir seu diploma de médico dois anos antes do previsto na grade curricular e receber todos os prêmios acadêmicos possíveis.


O fato de Wu Lien-teh colocar seus conhecimentos e sua formação a serviço da sociedade, em lugar de buscar o prestígio pessoal, não só mudou a sua vida como também chegou a alterar o curso da história médica na China e no mundo. Não à toa, é para ele a homenagem feita nesta quarta-feira pelo Google em um doodle.


Quando uma epidemia desconhecida afetou o nordeste da China, em 1910, causando centenas de mortes por dia, o Governo chinês recorreu ao médico Wu Lien-teh para que investigasse a doença. Ele a identificou como sendo a peste pneumônica, altamente contagiosa por transmissão respiratória. Graças a medidas propostas por ele, a epidemia durou apenas quatro meses. A maioria dessas medidas são as que aplicamos hoje para enfrentar a pandemia de covid-19: quarentena, restrições aos deslocamentos e, em especial, a fabricação de uma máscara cirúrgica especial com algodão, gaze e várias camadas de tecido, que ele recomendou à população que usasse.


Trajetória


Wu Lien-teh nasceu num dia 10 de março como hoje, o de 1879 – 142 anos atrás –, no Estado de Penang, na Malásia. Era filho de imigrantes chineses, fez o primário e o ensino médio na Escola Livre da sua cidade e, aos 17 anos, recebeu a prestigiosa bolsa Queen’s Scholarship e foi admitido na Universidade de Cambridge, no Reino Unido. Completou seus estudos de Medicina dois anos antes que seus 135 colegas e se tornou o primeiro aluno de ascendência chinesa a obter um doutorado em Cambridge.


O médico completou sua formação na Alemanha e em Paris e, apesar de ter obtido dinheiro e prestígio com a medicina privada, nunca deixou os mais necessitados de lado nem abandonou seu compromisso social. Reivindicou a igualdade de direitos e oportunidades na educação das mulheres e se posicionou contra a discriminação racial nos trens, por exemplo.


Com uma nova bolsa de pesquisa, o doutor Wu acabaria fazendo uma pós-graduação sobre a malária na Escola de Medicina Tropical de Liverpool, e outra de bacteriologia no Instituto de Higiene de Halle, na Alemanha, e no Instituto Pasteur de Paris.


De volta à Malásia, Wu Lien-teh passou um breve período no Instituto de Pesquisa Médica de Kuala Lumpur antes de montar uma clínica particular em Penang. Entretanto, sua vida mudou definitivamente em 1907, quando um importante assessor da Dinastia Qing, que então governava a China, lhe ofereceu o cargo de subdiretor do Colégio Médico do Exército Imperial em Tientsin.


No outono boreal de 1910, eclodiu no nordeste da China uma mortífera epidemia de uma doença que tinha dizimado um quarto da população europeia no século XIV. A primeira morte ocorreu na cidade de Manzhouli, na fronteira com a Rússia, e a doença se espalhou rapidamente para Harbin, a nova urbe cosmopolita que surgiu graças ao desenvolvimento ferroviário nessa região chinesa. Em quatro meses se espalhou por cinco províncias e seis cidades, matando mais de 60.000 pessoas.


A epidemia virou uma crise sanitária internacional quando os moradores de Harbin começaram a fugir da cidade, deixando os cadáveres atirados nas ruas. O crescente número de mortos alarmou as autoridades, e nesta situação crítica o dr. Wu foi encarregado de investigar a epidemia. Seguro de si, aceitou quase sem pensar um cargo que outros rechaçavam. Wu chegou a Harbin em 24 de dezembro de 1910, acompanhado de um tradutor, mas sem instrumentos médicos sofisticados.


Três dias depois de desembarcar na truculenta cidade, fez a primeira autópsia na China de uma mulher que tinha morrido por causa da epidemia. A partir de suas investigações, concluiu que a devastadora enfermidade era a peste pneumônica, que poderia ser transmitida pela expiração e por fluidos humanos, algo que contrariava a crença generalizada no Ocidente, onde se considerava que só pulgas (transportadas por ratos) a transmitiam.


Wu criou hospitais especiais para pacientes infectados, estações de quarentena, bloqueios para controlar os movimentos da população e dos transportes, e equipes de patrulha para revisar todos os lares em busca de novos casos. Entretanto, sua ideia mais revolucionária foi desenhar e fabricar uma máscara cirúrgica especial à base de algodão e gaze, à qual acrescentou várias camadas de tecido para filtrar as inalações, um produto que aconselhou toda a população a usar para evitar os contágios.


Outro feito que mudou a atuação contra a pandemia ocorreu quando o doutor Wu viu um cemitério com milhares de caixões e corpos de vítimas da pandemia. Então compreendeu que os cadáveres naquele gélido inverno serviriam de incubadora para o bacilo da peste, e por isso propôs que os caixões e cadáveres ainda insepultos fossem cremados de forma maciça, um ato estritamente proibido pela lei e que equivalia a um sacrilégio segundo a tradição popular.


Mas o médico soube convencer as autoridades, e em 30 de janeiro de 1911 foram incinerados 3.000 corpos e caixões. Essa medida reduziu imediatamente o número de mortos pela epidemia, e em 1º de março de 1911 já não foram contabilizados novos contágios.


Depois do sucesso na luta contra a chamada peste da Manchúria, Wu sugeriu ao governo de Pequim que convocasse uma conferência internacional para revisar e avaliar as medidas tomadas e documentar as experiências, de modo que pudessem ser preparadas recomendações a serem seguidas caso o episódio se repetisse. Renomados cientistas e epidemiologistas de 11 países, incluindo Estados Unidos, Reino Unido, Japão, Rússia e França, participaram de uma conferência presidida pelo médico de origem chinesa. As deliberações finais foram publicadas sob o título de Relatório da Conferência Internacional de Praga, 1911, e atualmente são material de estudo obrigatório em epidemiologia.


Durante as duas décadas seguintes, Wu esteve na linha de frente da prevenção das epidemias em Harbin. Foi diretor-médico do Serviço de Prevenção no Norte da Manchúria, que mais tarde se tornou o mais importante centro de pesquisas da peste no mundo. Sua perseverança foi recompensada quando conseguiu erradicar o reaparecimento da peste em 1921 e da epidemia de malária de 1919.


Também dedicou grande parte de seu tempo e esforço a criar hospitais, centros de pesquisa e faculdades de Medicina em Harbin, Nanquim e Pequim. Fundou a Sociedade Médica Chinesa e muitos outros organismos profissionais no país. Em 1931 se mudou para Xangai, depois que o Japão atacou a China. Foi detido pelos japoneses por suspeita de espionagem e só liberado graças à intervenção das autoridades britânicas.


Durante sua estadia em Xangai, o doutor Wu dedicou seu tempo à criação do Sistema Nacional de Quarentenas. Em 1935 se tornou o primeiro malaio – e a primeira pessoa de ascendência chinesa – a ser indicado ao Prêmio Nobel de Medicina por seu trabalho para controlar a peste pneumônica.


Retornou com sua família à Malásia em 1937, depois que sua casa em Xangai foi bombardeada e destruída, quando o Japão iniciou a sua invasão em grande escala da China.


Wu nunca renunciou à sua vocação e voltou à prática privada da Medicina, mas sua vida heroica não o impediu de sofrer um sequestro cometido por guerrilheiros comunistas ou de ser detido sob suspeita de apoiar as forças antijaponesas. Finalmente, foi absolvido pelo depoimento de um oficial japonês que era seu paciente.


O doutor Wu Lien-teh morreu vítima de um derrame cerebral em 20 de janeiro de 1960. Tinha 81 anos e uma semana antes havia retornado a seu novo lar em Penang.


Sua morte foi chorada pela comunidade médica internacional, mas seu legado perdura. Em 2008, o Hospital Memorial Dr. Wu Lien-teh e uma escola também com seu nome foram construídos na cidade que salvou da pandemia, Harbin. Numerosas estátuas de bronze na Universidade Médica de Harbin e no Hospital Universitário de Pequim homenageiam também o criador do Serviço de Saúde Pública da China e pai da medicina moderna no gigante asiático.


Fonte: El País

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