Dia do Médico: profissionais relatam como trabalhar na pandemia mudou suas vidas


Pelo segundo ano consecutivo, o Dia do Médico, celebrado em 18 de outubro, ocorre em meio à pandemia de coronavírus. Desta vez, contudo, em um cenário de maior otimismo e esperança em relação a uma possível retomada da normalidade, graças ao avanço da campanha de vacinação.


Em homenagem a todos os médicos, em especial àqueles que estão ou em algum momento já estiveram na linha de frente do combate à covid-19, GZH reuniu relatos de quem teve sua vida transformada pela árdua, exaustiva e ao mesmo tempo emocionante experiência de salvar vidas — e ter de lidar com a perda de tantas outras — diante da maior crise de saúde do planeta.


Em suas declarações, profissionais da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre e dos Hospitais Moinhos de Vento e Nossa Senhora da Conceição contam quais foram os momentos mais difíceis da pandemia, que já dura mais de um ano e meio, e quais suas esperanças para o futuro.


Confira os relatos:


Taiani Vargas, médica intensivista e coordenadora da UTI do Hospital Nossa Senhora da Conceição


Médica Taiani VargasArquivo pessoal / Arquivo pessoal


“A pandemia foi um enorme desafio, não só pelo aumento da demanda, da carga e da força de trabalho, mas principalmente por tudo que vivenciamos ao longo desse período nas unidades de terapia intensiva. Pacientes muito complexos, com tempo de internação muito prolongado, a impossibilidade do convívio com a família — esse foi o ponto crucial, e acho que o mais difícil de conviver ao longo de todo período. Quando as pessoas estão fragilizadas e vulneráveis, tudo que elas querem é os seus por perto e, infelizmente, essa doença tem a característica de ter uma recuperação solitária. Muitas vezes, os pacientes só tinham a nossa presença (médicos e equipes multidisciplinares) ao longo de toda sua internação, e tínhamos a tarefa de transmitir o que estava acontecendo lá dentro para a família que estava do lado de fora. Então, certamente passar essas informações, boletim médico, conversar, acolher e trazer esperança para essas famílias foi o momento mais difícil de toda a pandemia.


Junto com isso, acabávamos sendo vulneráveis e expostos diariamente ao contato com o vírus. Eu tinha um grande receio de contaminar outras pessoas. Não tinha medo de ficar doente, mas o meu maior receio era me transformar em um vetor da doença pela exposição, então, o distanciamento foi uma situação bem presente na minha vida e difícil, porque não conseguia pensar que poderia estar transmitindo isso para minha família, para os meus amigos, então acabei ficando bastante tempo mantendo esse distanciamento.


Um dos momentos mais difíceis da pandemia foi o início, quando não sabíamos com o que iríamos lidar, quando começou toda a preparação e todas as informações foram chegando. A gente já estava preparado desde março, mas o pico (no Rio Grande do Sul) aconteceu um pouco mais tarde, a partir de maio/junho. Mas nada se compara ao que foi o início de 2021, entre março e abril, aquele período de alta demanda por necessidade de leitos de terapia intensiva, um alto número de pessoas contaminadas e não tendo a capacidade e a condição de atender todo mundo. Sabíamos que cada um que conseguia ter acesso à unidade de terapia intensiva e ao sistema de saúde era um privilégio, um conforto para aquelas pessoas. Nada foi tão difícil de lidar quanto março e abril de 2021.


O que espero ao longo desse período é que as coisas sigam melhorando, como vem acontecendo até agora, com redução do número de casos e, principalmente, redução do número de pacientes graves, de necessidade de internações em UTI. O aumento do número de pessoas vacinadas certamente é o definidor dessa situação, é isso que vai nos tirar dessa crise e que a nossa vida volte ao mais próximo do normal possível, porque acho que o normal ainda vai levar algum tempo.”


Jorge Amilton Hoher, pneumologista e chefe do Serviço de Medicina Intensiva da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre


Médico Jorge Amilton HoherDivulgação / Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre


“A pandemia mudou a minha vida substancialmente do ponto de vista pessoal, social e, principalmente, profissional. De repente, acontece uma pandemia, não estávamos preparados, tivemos que organizar protocolos e respeitar rigorosamente esses protocolos de controle de infecção, e isso atrapalhou muito a rotina de trabalho.


A par de os cuidados precisarem ser todos redobrados, triplicados, porque não se sabia a intensidade daquele contágio e a ameaça séria, que realmente se materializou com as primeiras mortes. Isso fez com que a gente tivesse que trabalhar de uma forma muito ansiosa e difícil pela incerteza, especialmente com relação ao prognóstico.


O pior momento foi o início, pois não tínhamos experiência, não sabíamos como proceder e a par disso, também, a incerteza prognóstica. A gente não sabe até hoje quais os pacientes que vão evoluir bem e quais que vão evoluir mal. E, com as primeiras perdas, os primeiros pacientes que morreram, acho que foi o pior momento para nós por motivos óbvios.


Agora, com as vacinas, temos todas as esperanças. A vida está mudando, estamos retomando as esperanças, voltando a trabalhar como se trabalhava antes, e cheios de esperança. Parece que a vida se renovou com o evento do controle da pandemia, muito disso às custas das vacinas, então a vida está melhor e vai continuar melhorando.”


Juçara Gasparetto Maccari, gerente médica do Hospital Moinhos de Vento


Médica Juçara Gasparetto MaccariDivulgação / Hospital Moinhos de Vento


“Trabalhar na pandemia nos ensinou muito. Me ensinou sobre a importância do trabalho em equipe, sobre finitude, sobre o medo do desconhecido, o medo de contaminação, o medo de ficar doente, o medo de que as pessoas próximas pudessem ficar doentes. Me ensinou a superar desafios diários, especialmente entre março e abril de 2021, quando foi o momento mais desafiador desses últimos dois anos, sem dúvida nenhuma. Agora, com uma grande parte da população vacinada e com a visível redução no número de pacientes internados, tenho esperança de que em breve possamos ter uma vida mais próxima da normalidade.”


Marcela Souza, pneumologista e coordenadora médica da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre


Médica Marcela SouzaDivulgação / Arquivo Pessoal


“A pandemia foi um desafio para todos nós. Trabalhar com o desconhecido é um sentimento de medo e de angústia muito grande, a gente nunca sabe o dia de amanhã, a gente não sabe o que esperar disso tudo. Do ponto de vista de trabalho diário, foi um crescimento, um trabalho em equipe extremamente importante, com uma dedicação de todas as equipes assistenciais da Santa Casa. Em poucos dias, em turnos, em horas, montávamos unidades, conseguíamos receber o maior número de pacientes possível, então realmente foi um grande desafio e um novo momento para todos nós.


O momento mais duro da pandemia foi provavelmente no pico que nós tivemos, onde a gente tinha quase 300 pacientes internados com covid-19, as UTIs lotadas, e a gente tinha que selecionar, tentar de certa forma escolher o paciente que mais se beneficiava para, naquele momento, receber o cuidado na UTI. Esse momento foi muito duro, de sofrimento pessoal, principalmente para mim que também sou intensivista. Foi realmente um momento muito tenso, de muita angústia e muita dor.


Agora é um momento de esperança e de desejar que o maior número de população se vacine, para podermos chegar a ter uma vida relativamente dentro da normalidade, já que acho que a gente vai conviver com esse vírus durante muito tempo, como foram com tantas outras situações diferentes e graves também. Mas, o que a gente deseja é que o maior número de pessoas se vacine, para que a gente possa ter segurança para trabalhar e para atender um maior número de pessoas.”


Fonte: GauchaZH

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