Coronavírus: falta de testes, assédio e esgotamento rondam profissionais da saúde em Minas



Apesar de hipertensa, Simone*, continua trabalhando como técnica de enfermagem no CTI do Hospital Universitário São José. No início do mês de junho, ela se contaminou pelo novo coronavírus. Sentiu fortes dores de cabeça, falta de paladar e teve febre. O teste deu positivo para Covid-19. Ela ficou afastada, em casa, durante 14 dias.

“Não desenvolvi forma grave porque sou saudável, minha pressão está sob controle. Mas uma colega que já era hipertensa e tinha diabetes não resistiu e morreu na semana passada, em um hospital particular”, contou. Simone acredita que a contaminação tenha ocorrido dentro do hospital onde trabalha e afirma que pelo menos 50 colegas tiveram a doença. Segundo a técnica de enfermagem, os equipamentos de proteção individual fornecidos aos profissionais não são adequados. E aponta outros problemas: "O hospital não tem ala específica para Covid-19. A gente recebe pacientes de UPAs. As UPAs estão todas com pacientes com Covid. Estes pacientes chegam ao hospital sem passar por teste. Só depois que já estamos há dias cuidando destes pacientes é que descobrimos que estão com Covid”, falou.

Simone relatou que a autorização para retornar ao trabalho foi dada pelo médico, por telefone, sem exames para saber se ainda está com o vírus. Apesar de já ter tido a doença, ela ainda tem muito medo. “Se eu não precisasse trabalhar, não pisava ali mais. Preciso trabalhar para pagar minhas contas”, disse. O Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos de Serviços de Saúde de BH e Região (Sindees) confirmou que pelo menos 50 funcionários do hospital já foram contaminados. “O hospital alega que gastou mais de R$ 600 mil com material de EPIs, mas não foi de qualidade. Esta foi a razão de os trabalhadores terem se contaminado”, afirmou a diretora Adnalva Alves de Oliveira. “Isso é um desrespeito. Trabalhador foi contaminado dentro do hospital e não está tendo apoio do hospital, nem na hora de voltar. A médica está liberando por telefone, colocando em risco inclusive a vida de outros trabalhadores e pacientes também”, declarou. Em nota, o Hospital Universitário Ciências Médicas afirmou que não é unidade de referência para o tratamento de casos de Covid-19 e que, por isso, não tem área exclusiva para assistência a pacientes com a doença. E disse que todos aqueles que testam positivo, são encaminhados para outros hospitais.

Sobre os EPIs de baixa qualidade, o hospital disse que não procede e que todos os equipamentos disponibilizados atendem aos requisitos de órgãos competentes. E afirmou que não é possível dizer onde os profissionais se contaminaram, já que a transmissão é comunitária e pode ocorrer em qualquer local.

Em relação à volta ao trabalho sem exames, o hospital informou que a prática de teleconsulta é legítima e legal, autorizada pelo Conselho Federal de Medicina, e o retorno só é considerado após 96 horas sem sintomas. E afirmou que não justifica fazer exames para o retorno, já que um tipo, o PCR, é para identificar a presença do vírus no organismo e só pode ser feito em 15 dias. E o outro é apenas para verificar se houve produção de anticorpos. * Simone é um nome fictício. A entrevistada não quis se identificar. Situação se repete com outros profissionais A situação narrada por Simone* tem sido vivida não só por técnicos de enfermagem, como também os enfermeiros, em várias instituições de saúde. Segundo o Sindicato dos Enfermeiros de Minas Gerais, pelo menos 450 profissionais em todo o estado já foram contaminados pelo coronavírus. “O enfermeiro já vinha tendo problemas psicológicos, devido ao trabalho pesado, à falta de equipamentos, antes mesmo da pandemia. Com a pandemia, a situação se agravou”, afirmou Anderson Rodrigues, presidente do Sindicato. Segundo Anderson, os transtornos psicológicos têm se potencializado também por causa da coação que os profissionais têm sofrido por parte das instituições.

“Quando você fala que o trabalhador é potencial transmissor da Covid-19, isso coloca em risco o hospital. Então, não estão testando todo mundo. Isolam o profissional e não dão atestado. Mas a Covid é um acidente de trabalho e deveria ser notificada”. Leis ainda precisam de regulamentação As condições de trabalho e de saúde dos profissionais de saúde pautaram três projetos de lei, aprovados pela Assembleia Legislativa em maio e sancionados pelo governador Romeu Zema (Novo) em junho.

Uma destas leis, 23657/2020, prevê que trabalhadores da categoria sejam hospedados em hotéis ou espaços de alojamento, por requisição do Estado, para se evitar a proliferação do vírus. A outra lei, 23656/2020, prevê intervalo para repouso ou alimentação de, no mínimo, duas horas, para profissionais com jornada de 12 horas contínuas.

A última lei, número 23659, determina a realização de testes diagnósticos a cada 15 dias ou com a frequência que atenda critérios e padrões de biossegurança.

A presidente do Conselho Regional de Enfermagem Carla Prado afirma que, apesar de sancionadas, as leis precisam ser regulamentadas para efetivamente saírem do papel. E que o governo não deu prazo para isso. “Ainda não tem efetividade. A categoria está insegura”, afirmou. A preocupação de Carla, neste momento de avanço do novo coronavírus, é que as pessoas se mantenham em casa para evitar a sobrecarga dos hospitais.

“A enfermagem já é uma profissão sofrida. Você tem que lidar com o sofrimento humano o tempo todo. E é ilusão achar que a gente não sofre. A gente sofre, porque não somos máquinas. Mas, neste momento, tudo potencializa de uma maneira gigantesca. Profissionais tem medo por eles, pelos familiares, é muita incerteza. Ainda gira muita dúvida em torno do que vai acontecer. Isso traz um desgaste psicológico para o profissional”, concluiu.

Até a publicação desta reportagem, o G1 aguardava posicionamento do governo do estado sobre a sanção das leis. Contaminações entre profissionais no SUS-BH Levantamento feito pela prefeitura de Belo Horizonte e divulgado no boletim epidemiológico de Covid-19 mostra que os técnicos de enfermagem e enfermeiros estão entre os profissionais do SUS-BH mais susceptíveis à contaminação pelo novo coronavírus. No último boletim, de sexta-feira (3), dos 394 casos positivos para a doença, 64 são técnicos de enfermagem e 25 são enfermeiros. O número de casos confirmados mais que triplicou em um mês – em 3 de junho eram 120 casos positivos.


Fonte: G1

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