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Conflito em Israel: como imagens em tempo real podem (e muito) afetar a saúde mental?



Imagens do conflito entre Israel e o grupo terrorista Hamas estão por todo lugar. Além da televisão e veículos jornalísticos, elas inundam as redes sociais. Para piorar, nestas plataformas, são os vídeos e imagens mais aterrorizantes que são impulsionados e atingem o maior número de usuários.


— Por conta das mídias sociais e da tecnologia, vivemos uma disseminação das repercussões emocionais e psicológicas de qualquer tragédia. Mesmo conflitos locais, que antes não chegavam ao alcance da opinião pública mundial, agora são divulgados e deixa outras populações expostas ao impacto indireto dessas tragédias — diz o psiquiatra Rodrigo Mastins Leite, professor colaborador do Instituto de Psiquiatra da USP (IPq), que também está à frente do canal de divulgação de conteúdo especializado "Psiquiatria da Sociedade".

Nesse contexto, muitas pessoas estão se perguntado porque a sua saúde mental está sofrendo como resultado das notícias e imagens mesmo estando tão distantes do conflito. A resposta para isso está justamente na natureza humana.

— Existe uma identificação humana natural, uma empatia primária em que acabamos nos colocando no lugar dessas pessoas. Então uma mãe brasileira, por exemplo, se coloca no lugar de uma mãe israelense ou palestina e assim por diante. Essa identificação por comparação é um comportamento bastante primitivo do ser humano que acaba levando ao sofrimento por compaixão e empatia. Isso não pode ser negligenciado, pois é o que permite diferenciar a civilização da barbárie — explica Leite.

Além disso, nossos cérebros são projetados para procurar ameaças para nos proteger de perigos potenciais. Ver imagens e notícias de tragédias, como uma guerra, pode levar a uma análise constante e quase imparável das notícias para ajudar a nos preparar para o pior.


Entretanto, diversas pesquisas mostram que mesmo uma breve exposição a notícias ruins pode levar a níveis aumentados de estresse e ansiedade. Essas notícias também podem perpetuar o pensamento negativo, o que pode fazer com que a pessoa se sinta presa num ciclo de angústia. A Associação Americana de Psicologia divulgou um comunicado esta semana alertando que o consumo de notícias violentas e traumáticas pode, por si só, afetar negativamente a nossa saúde mental.

“A ciência psicológica diz-nos que o medo, a ansiedade e o estresse traumático têm efeitos a longo prazo na saúde e no bem-estar. Estes impactos também estão a ser sentidos por pessoas de todo o mundo que têm familiares e amigos na região, bem como por aqueles que estão preocupados com os efeitos da guerra em todo o mundo”, afirma.

Segundo Leite, existem vários estudos que mostram que essa publicização das guerras aumenta a taxa de estresse, de sintomas ansiosos e depressivos e até mesmo eventos cardiovasculares.

— Isso também pode exacerbar ou contribuir para piora da saúde mental de pessoas vulneráveis e que já têm um transtorno mental. Também precisamos lembrar que acabamos de passar por uma pandemia. Foram 2 anos de uma experiência traumática mundial coletiva e as pessoas ainda estão muito vulneráveis. Acredito q isso contribua para o impacto negativo da guerra da saúde mental de pessoas que estão distantes do conflito — avalia o psiquiatra.

Outro ponto importante é que a quantidade de mídia que alguém consome e o quão gráfico é esse conteúdo influenciam o quanto ele irá afetar a saúde mental. Um estudo publicado em 2013 mostrou que pessoas que assistiram a pelo menos quatro horas de cobertura televisiva por dia durante a semana seguinte aos ataques de 11 de setembro relataram aumento de estresse e sintomas de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e correram maior risco de desenvolver problemas de saúde, em comparação com as pessoas que assistiram menos tempo de noticiário.

A forma como esse conteúdo chega até o espectador também afeta a dimensão do impacto na saúde mental. Segundo Leite, pessoas que são expostas involuntariamente, como crianças e idosos que podem se deparar com cenas trágicas ao assistir televisão ou navegar nas redes sociais "tendem a ter uma reação de estresse maior do que pessoas que estão ativamente acompanhando o noticiário do conflito". Gerenciando o bem-estar Mas afinal, é possível se proteger do impacto negativo desse tipo de conteúdo na saúde mental sem ficar alienado? Especialistas afirmam que sim.

Entender os motivos do conflito e até mesmo acompanhar seu desenrolar é importante em um mundo globalizado como o que vivemos, afinal, isso tem repercussões globais. No entanto, é importante buscar informação de qualidade, de fontes confiáveis e evitar as cenas mais aterrozantes e chocantes.

A recomendação de Leite, por exemplo, é respeitar seu limite pessoal sobre o tipo de conteúdo do conflito ao qual você será exposto.

— Até mesmo pessoas que buscam informação sobre o assunto podem desenvolver sofrimento mental relacionado a essa exposição.

Também é recomendo evitar ouvir ou ver informações sobre o assunto antes de dormir e logo pela manhã, pois isso aumenta o estado de alerta do cérebro, o que pode aumentar os níveis de estresse e dificultar o relaxamento.


Fonte: O Globo

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