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Comparação entre cenas eróticas e realidade: por que a pornografia faz mais mal ao adolescente



A pornografia está muito mais acessível aos adolescentes de hoje. Se no passado este conteúdo ficava restrito a revistas "adultas" e fitas VHS guardadas em ambientes proibidos para menores de idade em locadoras, hoje é possível acessar uma grande quantidade de fotos e vídeos eróticos na palma da mão, por meio do smartphone. Se o conteúdo pode ser prejudicial para os adultos, ele impacta ainda mais a sexualidade dos adolescentes.

O turbilhão de hormônios característico desta faixa etária aflora ainda mais a curiosidade sobre temas como a sexo. E, uma das formas de se aproximar do assunto é consumindo a pornografia. O problema é que, por muitas vezes, esses conteúdos eróticos são as únicas fontes de conhecimento dos adolescentes e isso faz com que eles criem uma imagem deturpada do que pode ser o sexo.

A psiquiatra Carmita Abdo, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), explica que durante a iniciação sexual de um adolescente é comum que ele procure conteúdos sobre o tema, inclusive pornografia. Problemas podem surgir quando esses jovens não recebem orientações sobre aquele tipo de conteúdo, principalmente explicações de que este material é roteirizado e editado, e que na vida real a prática sexual é diferente.

— Nesses vídeos os corpos são exuberantes, a performance é muito perfeita, os movimentos são diversificados. O adolescente pode querer comprar esses aspectos com a sua realidade, seu corpo. Isso pode afetá-lo negativamente se ele não for orientado a entender que as pessoas que estão ali são adultas e trabalham com este tipo de conteúdo, são profissionais — alerta Abdo, que é coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade da USP.

A médica esclarece que a falta de compreensão desses aspectos pode impactar na autoestima e autoimagem do adolescente, desencadeando ansiedade e, em quem tem predisposição, até compulsividade. Isso pode fazer com que o adolescente ou jovem evite ter relações sexuais presenciais com outra pessoa, preferindo o sexo remoto, para não se sentir frustrado ao não conseguir performar como nos filmes pornográficos. Por outro lado, se fazem sexo com alguém, tendem a controlar os movimentos, posições, como se estivesse reproduzindo as cenas eróticas. — Se uma pessoa que tem predisposição a compulsividade, esse adolescente pode ficar refém, vir a se tornar uma pessoa que não tem mais controle sobre esse acesso. Ele precisa descarregar a ansiedade que só cessa depois de consumir o conteúdo — diz a psiquiatra.

Para a especialista, o caminho para pais e cuidadores não é coibir, mas alertar sobre os riscos e estar aberto para possíveis dúvidas. Segundo ela, os adultos precisam ser o um canal aberto e estarem atentos para observar se o consumo da pornografia está afetando a visão do adolescente sobre o sexo.

Em casos de compulsividade, a pornografia pode afetar outras áreas da vida do adolescente para além da sexualidade. Muitas vezes, os conteúdos são consumidos à noite, quando não há ninguém por perto. Isso custa noites de sono que impactam diretamente no rendimento do dia seguinte, podendo afetar, por exemplo, o desempenho escolar.

Um artigo publicado por pesquisadores da Universidade Ludwig-Miximilians, na Alemanha, em 2021, diz que 25% de todas as pesquisas na internet levam a conteúdo explícito de sexo. No trabalho eles se debruçam sobre um levantamento feito com adolescentes britânicos que indicou que 78% dos usuários com idades entre 16 e 17 anos relataram ter encontrado pornografia na Internet. "Além disso, muitos deles afirmaram visitar frequentemente sites dedicados à pornografia. Aqueles que participaram da pesquisa admitiram que, em média, visualizaram esse conteúdo pela última vez 6 dias antes do preenchimento do questionário. E muitos entrevistados disseram que assistiram a vídeos pornográficos e visualizaram galerias de fotos naquele mesmo dia. A análise das respostas indicou que os adolescentes passavam em média 2 horas por mês em sites pornográficos", destacava o comunicado de imprensa da instituição de ensino.

Não existem muitos estudos que detalhem como a pornografia condiciona a resposta sexual em humanos. Um trabalho feito por pesquisadores holandeses em 2014 relatou como alguns homens — que assistiram pornografia combinada com objetos comuns, como um pote cheio de moedas, apresentaram excitação apenas com a presença do objeto, sem a necessidade de conteúdos eróticos.

Os adolescentes podem ficar excitados de forma muito mais rápida do que adultos. E eles são mais vulneráveis a criar conexões que possam gerar desejo sexual. A excitação — seja ela provocada ou não pela pornografia — gera uma onda de dopamina no cérebro, neurotransmissor associado ao prazer e à recompensa. Mas, assim como eles ficam "entusiasmados" com mais rapidez, também ficam entediados com muita facilidade. Isso faz com que o desejo por consumir mais conteúdos eróticos seja sempre crescente, aumentando também a liberação de dopamina. Levando em consideração que o cérebro humano só está totalmente formado por volta dos 25 anos, o consumo de pornografia na adolescência pode impactar não só a fase, como também a vida adulta.

Um outro estudo publicado na revista científica Nature mostrou símbolos (como uma árvore e uma cadeira) antes de apresentar a imagens pornográficas a um grupo de homens com compulsão por pornografia. Após várias sequências, os participantes associaram consciente e inconscientemente o símbolo à excitação sexual. No final, todos rapidamente condicionaram sua excitação à árvore ou à cadeira. Até mesmo o grupo controle — composto por homens sem compulsão, fez essa associação, apesar de ter demorado mais que aqueles que tinham a compulsividade.


Fonte: O Globo

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