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Como ser adulto nos relacionamentos? As 5 lições do terapeuta americano best-seller para um amor duradouro



O cuidado constante e permeado por gentilezas é um caminho para que as amizades, namoros, casamentos e parcerias durem, promete o terapeuta, autor e palestrante David Richo. Em seu livro “Como ser adulto nos relacionamentos”, lançado pela primeira vez há 20 anos e com traduções disponíveis para 12 línguas — mas só agora disponível no mercado brasileiro, pela editora Intrínseca — o autor faz um giro sobre as agruras e conflitos que podem se abater sobre a dinâmica a dois, da raiva ao ressentimento, além do temido fim. Isso sem contar aos episódios de controle e dependência.


Tendo em vista os capítulos espinhosos, mas também prazerosos, que se estendem nos contatos pessoais, o autor oferece na publicação algumas valiosas dicas para lidar melhor com os altos e baixos: entre elas ter a atenção no aqui e agora (a tal da prática do mindfulness) e a aplicação dos chamados “cinco As”. São eles: atenção, afeto, apreço, aceitação e admissão (algo como o aval para sermos nós mesmos). Em entrevista ao GLOBO, o especialista que mora em Santa Barbara, nos Estados Unidos, falou sobre os novos desafios que se estendem sobre as relações amorosas, como utilizar o celular com sabedoria e do papel da autoestima para o sucesso da dinâmica de partilhar a rotina. Abaixo, os melhores trechos da conversa.


Em 20 anos, o senhor sente que os desafios dos casais mudaram?


Com certeza, o senso de conexão reduziu, há menos interação face a face entre as pessoas desde a Covid. Com a redução de outras poucas relações fortes que tínhamos, além da relação principal, mais dependemos desse parceiro (afetivo) que estamos no momento. Há mais demandas sobre aquela pessoa em especial, porque ele tem que começar a cobrir, substituir, o espaço deixado pelos outros que deixamos de ver. Essa é a maior diferença. Quando você coloca muita demanda no outro, ele passa a se ressentir com isso. Há a sensação de que aquela situação não é justa. Também ficou mais difícil sair e curtir com outras pessoas, e é importante essa variedade de interações. Tudo isso coloca muito estresse em uma única pessoa de quem queremos coisas demais.


No livro, o senhor fala bastante sobre autoestima. Qual é o papel desse bem estar pessoal para a vida compartilhada?


Com uma boa autoestima, você consegue entender que é capaz de tomar conta de suas próprias necessidades. Esse aspecto pode justamente aumentar sua independência como indivíduo, mas paradoxalmente também ajuda na interdependência da relação. A autoestima que você cultiva individualmente ajuda nos relacionamentos. Originalmente, nos primeiros dias e meses de vida, colocamos todas as nossas necessidades nas mãos de nossos pais, claro pois não temos maneiras de nos manter a sós. O significado de crescer é, então, gradualmente assumir o controle das funções que satisfazem suas necessidades, o que antes estava com seus pais, mas agora você é capaz de fazer por si só.


E nas relações afetivas…


Funciona da mesma maneira. Temos uma necessidade de atenção, certo? Mas não é preciso esperar que a atenção venha toda do parceiro, você mesmo pode se dar atenção — e vale para seus sentimentos, necessidades, às questões físicas. Sempre vamos querer que o parceiro participe (dessa dinâmica de atenção), mas ele não deve ser a única fonte de satisfação..


Todo mundo pode estar em um relacionamento ou há pessoas que não são capazes de conseguir?


Existem pessoas que foram tão magoadas ou abusadas em sua vida pregressa que não podem mais confiar em outras pessoas. E a habilidade de se relacionar está baseada na confiança. Podemos dizer que alguém que foi muito magoado e prejudicado na infância terá que trabalhar isso em si mesmo antes de confiar em mais alguém. Em segundo lugar, há as pessoas tão introvertidas que não conseguem estar ao lado de outras pessoas por muito tempo. E elas não seriam capazes de viver com outra pessoa, pois para elas seria algo muito intrusivo. Elas precisam de um tempo a sós com elas mesmos. Mas isso é um exemplo extremo.


Solteiros, principalmente, costumam dizer que há muitas pessoas por ai que não são capazes de se relacionar…


Para essas pessoas que citamos pode ser muito difícil, mas elas podem trabalhar nelas mesmas e quem sabe conseguir. Mas há também quem não quer estar em relações e seguir só. E está tudo bem com isso. Nem todo mundo precisa estar em relações, não há necessidade pra isso. Existe a pressão social, mas não é realmente necessário. Você pode ter um ciclo de amigos no lugar de um parceiro e estar totalmente saudável.


Estamos desistindo das relações fácil demais?


Parece que o fim tem ocorrido antes do que em outras gerações, mas antes haviam as mulheres foram ensinadas que não podiam se separar, mesmo se estivessem em situações em que sofriam abusos. Estamos livres dessa ideia, não acreditamos mais nisso. Podemos deixar a relação se ela for abusiva, ou se o parceiro, por exemplo, passar a desenvolver vícios. Mas, por outro lado, não precisa ser tão rápido como tem sido agora (considerando outros casos), agora temos terapia, algo que não era tão disponível para nossas avós. Deveríamos tirar vantagem disso, e ver se a relação volta aos trilhos. Algumas pessoas desistem, sim, fácil demais.


O senhor cita o budismo na publicação, existem modos de pensar e práticas ligadas à religião que podem ajudar a levar os relacionamentos?


A coisa mais importante é dar e receber os cinco As (atenção, afeto, apreço, aceitação e admissão). As coisas não precisam ser perfeitas o tempo todo, elas precisam ser boas o suficiente a maior parte do tempo, essa é uma ideia que eu recomendo. E isso se aplica também aos nossos pais. Eles são bons pais o suficiente, não perfeitos o tempo todo. Não existe isso de perfeito o tempo todo. É bom o quanto pode ser.


Recentemente, viralizou na internet uma regra para casais chamada 2-2-2. Algo como, a cada duas semanas o casal deve ter um encontro a sós, a cada dois meses uma viagem de final de semana juntos e a cada dois anos tirar uma semana de férias sozinhos. Com orçamento apertado, dá para criar oportunidades de desenvolver o mesmo tipo de conexão?


Primeira coisa, recomendo que as pessoas saiam de suas casas, fiquem um pouco longe de onde vivem. E, uma vez no mundo lá fora, não tenha nada além do parceiro (para se distrair).


Esteja realmente com o outro, sem interrupções, interferência, sem celular para ligar para os outros, ou ficar olhando mensagens. Dá para fazer isso em apenas um dia. Vá a um parque público, por exemplo. É possível arrumar algo para fazer assim que caiba em seu orçamento. É uma experiência de retiro, ficar juntos a sós vai fortalecer os laços entre o casal.


Dá para usar o celular como ferramenta para unir o casal, de maneira saudável?


Ele dá a possibilidade de checar como o outro está, mandar uma mensagem dizendo “estou pensando em você”. Só não dá pra usar esse contato como desculpa para ser muito carente, e ficar toda hora acionando o outro, isso é coisa de criança, não de adulto.


Fonte: O Globo

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