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Como os testes genéticos podem prever o risco de câncer e aumentar sucesso de tratamentos



Há onze anos, quando Angelina Jolie anunciou ter removido as mamas, por conta do altíssimo risco de desenvolver câncer, o mundo se chocou: a atriz estaria sendo muito radical? O que teria levado uma das figuras mais poderosas de Hollywood, símbolo de beleza feminina mundo afora, a optar pela mastectomia dupla baseada “apenas” num teste genético, e não num diagnóstico propriamente dito? Dois anos depois, a atriz ainda retiraria os ovários e as trompas. Mais uma vez, para se precaver de possíveis tumores, como os que haviam tirado a vida de sua mãe e avó muitos anos antes.


Com o avanço das pesquisas na área, os exames genéticos são cada vez mais indicados pelos médicos a pessoas com diferentes perfis e suscetibilidades. Não apenas para a prevenção de cânceres hereditários — no caso de quem tem parentes de primeiro grau ou familiares jovens, de menos de 50 anos, com histórico da doença — mas também para tornar mais eficaz o tratamento de pacientes com tumores já detectados, explica o geneticista Salmo Raskin, colunista do Globo e diretor do Centro de Aconselhamento e Laboratório Genetika.


— Em termos de prevenção, os testes germinativos, que detectam mutações em todas as células do corpo, devem ser feitos se há casos no núcleo mais próximo, mãe, pai, irmã, tia, filho. Também quando há casos na família do mesmo grupo de câncer, como ovário e mama, intestino e estômago, ou ainda quando o parente foi diagnosticado muito jovem. De fato, não é para todo mundo. Em 90% das vezes o câncer não tem nada a ver com hereditariedade. Ainda assim, temos tido cada vez mais solicitações de pessoas que não têm histórico algum — esclarece o médico.


Já os exames somáticos, feitos nas células cancerosas, indicam qual tratamento pode ter uma maior taxa de sucesso, se a quimioterapia deve ser aplicada e qual o prognóstico da doença, ao mostrar que tipo de gene está alterado.


— Sabe-se que quem mutação no gene BRCA 1 ou BRCA 2 (associados a tumores como os de mama, ovário e pâncreas) tem indicação de determinados tratamentos e contraindicação de outros. É comum também pessoas que já tiveram tumores procurarem o teste para saber se são hereditários e resguardar os filhos. Todos os pacientes oncológicos deveriam discutir com seus médicos se devem fazer exames somáticos — conclui.


Novas diretrizes


A relevância dos painéis genéticos pode ser medida pela publicação recente de novas diretrizes pela Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), organização com protagonismo mundial no tema. Em janeiro, entre outras medidas, a ASCO passou a orientar que toda mulher de até 65 anos que já teve ou está enfrentando um câncer de mama seja encaminhada para o exame germinativo. A recomendação se estende àquelas que têm mais de 65 e histórico familiar da doença. O objetivo é medir o risco de surgimento de novos tumores — avaliar se alguém que já teve câncer num seio tem predisposição a apresentar no outro, por exemplo.


Estima-se que de cada dez casos de câncer, um seja hereditário, cinco ou seis tenham relação com questões ambientais (tabagismo, má alimentação, bebida alcoólica em excesso, exposição intensa à radiação solar) e três ou quatro, tenham causa desconhecida. À medida em que aumenta na sociedade a conscientização quanto à importância do diagnóstico precoce para a cura, cresce também a demanda por painéis genéticos, diz Helio Magarinos Torres Filho, patologista clínico e diretor médico do Richet Medicina e Diagnóstico. Ele calcula que a procura tenha aumentado em até 30% nos últimos anos.


— Houve um tempo em que se achava que os testes preventivos só serviam para gerar ansiedade nas pessoas, mas hoje está claro que, quando bem utilizado, o exame mede os riscos, muda condutas e pode salvar vidas — afirma o médico, que acredita na possibilidade de os painéis virarem até exames de rotina, a serem sugeridos mesmo a quem não tenha ocorrência de câncer em parentes (afinal, sempre pode existir uma primeira vez na família).

Para ele, esse tipo de avaliação integra hoje o amplo arsenal da medicina para prevenir a doença e aumentar as chances de cura.


— Durante muito tempo, o câncer foi encarado como um mal incurável. Hoje não é necessariamente uma sentença de morte, é uma doença mais bem controlada. Sabe-se da importância da detecção cedo para se ter maiores chances. Se uma mulher está ciente de que tem propensão ao câncer de mama, ela vai fazer mamografia de seis em seis meses, e não anualmente. Se existe fator de risco para tumor intestinal, o intervalo da colonoscopia, que é de cinco anos, baixa para três ou dois. Ou seja, identificada a predisposição, toma-se mais cuidado. É preciso conversar muito com o paciente, dar a orientação correta e tranquilizá-lo — resume.


Os exames custam cerca de R$ 3 mil, e são cobertos pelos planos de saúde em casos específicos, como os de histórico familiar que indique predisposição. O aperfeiçoamento dos testes permite que, hoje, num único teste se investiguem mutações que podem elevar o risco para mais de 30 tipos de câncer. No caso de pacientes que já concluíram um tratamento, a tecnologia é capaz de identificar células cancerígenas circulando pelo corpo, por meio da chamada biópsia líquida, até anos antes de um novo quadro se desenvolver e aparecer num exame de imagem. O médico pode verificar, assim, se há perigo de metástase ou recidiva.


— Os testes genéticos vêm sendo cada vez mais utilizados, porque em até 15% das vezes a mutação que leva ao tumor vem da mãe ou do pai. Nos casos de mama e ovário, orientamos que quase todas as pacientes o façam. Nos tumores de ovário, o mais grave câncer feminino, observar o tipo de mutação é importante para que a paciente receba inibidores de PARP (medicamentos que reparam o DNA danificado dentro das células) — aponta Fernando Maluf, oncologista da Beneficência Portuguesa e do Hospital Albert Einstein e fundador do Instituto Vencer o Câncer — Fazemos entre dez e quinze testes por mês. Os benefícios são muito grandes.


Fonte: O Globo

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