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Como doar seu corpo para a ciência (e por que você deve fazê-lo)



A legislação brasileira permite a doação de corpos para a ciência, mas efetivar esse processo ainda é difícil. Há cada vez menos cadáveres disponíveis para o estudo de alunos em cursos de anatomia, e o aprendizado com corpos reais está se tornando um privilégio no Brasil.


Segundo especialistas na conservação de cadáveres para o ensino, os maiores entraves para a doação são a falta de informação sobre o assunto para potenciais voluntários e a papelada necessária para efetivar o ato. Além disso, também é comum que falta estrutura nas universidades para receber os corpos.


A doação de corpos é uma possibilidade relativamente recente no Brasil. “Nós tínhamos um fluxo constante dos corpos não reclamados, antigamente conhecidos como indigentes. Tanto que as leis que temos nacionalmente que regulamentam o ensino de anatomia são pensadas para o uso desses corpos”, afirma a professora Andrea Oxley, da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre.


“A questão é que nos últimos anos, com a quantidade de informação circulando, é muito difícil que não sejam encontrados familiares de alguém que morre. Com isso, tivemos que procurar outras alternativas para suprir a demanda, e a doação voluntária se tornou uma alternativa para nós”, pontua Andrea, que é integrante da Sociedade Brasileira de Anatomia.

Além da quantidade menor de corpos não reclamados, a ciência brasileira começou a esbarrar em outros problemas. “Há muitas instituições no interior do Brasil que não têm cadastros de voluntários para a doação e sofrem com a falta de cadáveres disponíveis. Pior, há faculdades de saúde que não têm nem mesmo locais para armazenar os cadáveres”, frisa a professora de anatomia Flora Aparecida Milton, da Faculdade de Medicina da UnB.


Como funciona a doação de corpos?


No Brasil, não há um cadastro único que permita que interessados possam manifestar o interesse de doar seus corpos para a ciência depois da morte. Atualmente, segundo a Sociedade Brasileira de Anatomia, há 39 programas diferentes geridos pelas universidades para cadastros de voluntários. “Isso é uma pequena fração, não chega nem a 5% das universidades que têm cursos de saúde no país”, diz Andrea.


O processo de doação precisa ser feito de forma ágil, já que o cadáver começa a perder suas propriedades conforme se passam os primeiros dias do falecimento.


Saiba como fazer a doação:


1. Encontre uma instituição


Para fazer o cadastro como doador, é preciso encontrar uma instituição de ensino que receba corpos doados. Em Brasília, por exemplo, há um cadastro único de doação gerido pelo Ministério Público, o Pró-Vida. A Sociedade Brasileira de Anatomia mantém um cadastro de programas dividido por estados que pode ser consultado em seu site.


2. Formalize sua intenção


Depois de encontrar e contatar o programa de doação mais próximo, é preciso imprimir e preencher um termo de intenção de doação, como está no modelo criado pelo Conselho Estadual de Distribuição de Cadáveres do Paraná, por exemplo. É preciso assinar esse termo juntamente com duas testemunhas, que, preferencialmente, sejam parentes de primeiro grau. A assinatura do doador do corpo tem de ser reconhecida no cartório.


3. Converse com os parentes


O consenso com os familiares é fundamental, pois são eles os responsáveis finais pela doação. Se não for do interesse dos responsáveis pelo corpo, a doação não é realizada, mesmo que o cadastro tenha sido feito de forma correta. A família também é responsável por avisar a universidade do falecimento do doador, para que seja feito o transporte e a conservação do corpo o mais rapidamente possível.


Impedimentos e arrependimentos


Não há impedimentos para a doação de pessoas que morreram de mortes naturais, mesmo no caso de elas terem doenças infecciosas, pois o processo de conservação inativa os agentes patogênicos. Pessoas que morreram de mortes não naturais, porém, não podem ter seus corpos doados em razão de eventuais investigações policiais.


Além disso, tanto o doador quanto a família dele podem manifestar arrependimento a qualquer momento antes da doação. Entretanto, uma vez que o corpo é efetivamente encaminhado para a universidade, não é mais possível reavê-lo. Visitas também não são permitidas, e os parentes não recebem as cinzas caso o corpo seja incinerado após terminarem as possibilidades de estudá-lo ou de mantê-lo conservado.


A família também pode doar o corpo de alguém que não manifestou formalmente o interesse de doá-lo em vida. No entanto, é preciso contatar a instituição que receberá o corpo com antecedência para efetivar o processo.


Ensino com corpos reais


Para Reinaldo Tovo, coordenador de residência em Dermatologia do Hospital do Sírio Libanês, em São Paulo, é “gritante” a diferença de aprendizado entre estudantes que tiveram acesso a corpos reais em sua formação. “Daria como nota para os alunos que tiveram de aprender anatomia usando modelos anatômicos um 0,5 de 10”, diz o especialista.


Segundo Tovo, mesmo o ensino com cadáveres conservados em formol já não representa a melhor forma de educação, já que técnicas modernas de congelamento preservam melhor os corpos. Ainda assim, o conhecimento de alunos que tiveram contato com cadáveres reais, para o médico, é pelo menos 10 vezes melhor que os que não tiveram.


Para Flora, os alunos que nunca trabalharam com cadáveres perdem a possibilidade de aprender princípios básicos da medicina logo em seus primeiros anos de ensino. “Com o corpo real, os alunos têm a oportunidade de dissecar, ver as camadas de tecido, de gordura, além de perceber a variedade da vida humana para além de modelos anatômicos”, diz a professora.


Andrea destaca que o contato com cadáveres também contribui para a formação ética dos profissionais. “Tendo contato com os corpos, a gente aprende a respeitar a vulnerabilidade humana, a ter um contato com a fragilidade de nossa existência, o que é chave para um bom profissional de saúde”, afirma.


Importação de cadáveres


A busca por uma qualificação profissional usando cadáveres reais acabou criando um mercado curioso no Brasil. Como nos Estados Unidos e na Europa há muitas instituições de ensino que mantêm cadáveres congelados, algumas delas começaram a exportar essas “peças” para países como o Brasil, que não dispõe dessa tecnologia.


“Na UnB, tenho freezers em que consigo manter fetos, para o estudo obstétrico, mas manter um corpo adulto conservado em baixas temperaturas é caro e demanda uma estrutura que não temos”, aponta a professora Flora. Para manter os cadáveres conservados dessa forma, é preciso manter o corpo constantemente a uma temperatura de -15ºC.


Com isso, empresas particulares começaram a oferecer cursos dentro do país ou mesmo no exterior para médicos brasileiros, mas tudo isso com alto custo. “Os custos estão relacionados ao transporte do corpo. Nós não pagamos pelos cadáveres, é proibido”, afirma Jorge Aires, médico ortopedista do Instituto de Treinamento em Cadáveres em Brasília.


“Os custos variam muito pela quantidade de peças pedidas, pelo tamanho, até pelas cotações do dólar e pelo peso do paciente congelado. A gente trabalha, porém, com uma média de 120 a 150 mil reais por um corpo”, afirma Jorge.

Fonte: Metrópoles

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