Clientes que tiveram planos de saúde transferidos da Amil reclamam de falta de cobertura médica


 
 

Clientes da Amil que tiveram os planos individuais transferidos para outra empresa do grupo reclamam de falhas no atendimento e do descredenciamento de unidades. Eles dizem que não foram comunicados da mudança.


A representante comercial Letícia Fantinati descobriu, no meio de um atendimento, que não poderia mais continuar o tratamento. Ela tem um plano individual da Amil há 10 anos, sofre de uma doença crônica grave, e teve uma crise em dezembro de 2021, quando foi recusada em dois hospitais de São Paulo. “Já estava com o oxímetro e o aparelho de pressão no braço, entreguei os documentos para enfermeira. Quando ela olhou para o meu documento, começou a arrancar os aparelhos e falar 'Não, não... Seu plano está descredenciado. Nós não vamos te atender'. Eu estou até hoje sem tratamento, porque eu não tenho hospital para ir”, conta Letícia. A advogada Anne Bernadette Rabello não conseguiu atendimento para mãe de 83 anos com sintomas de Covid.

“Minha mãe acordou com febre e, às 6h30, eu entrei na teleconsulta. Nós pegamos uma fila de 3,6 mil pessoas. A 0h08 do dia seguinte, nós fomos simplesmente desconectados. Quando chegou a vez, o aplicativo não funcionou”, conta Anne Bernadette Rabello.

Após mais de 20 anos pagando o plano, ela não teve direito a um teste de Covid no prazo certo e na cidade onde mora, na região metropolitana do Rio. “O PCR pela Amil só poderia ser feito 15 dias depois. Nós teríamos de atravessar duas cidades até a capital, mais de 35 quilômetros para fazer um exame”, diz Anne. Somente em 2021, o Procon de São Paulo já recebeu 285 reclamações sobre a Amil. A carteira com cerca de 340 mil beneficiários de planos individuais e familiares da operadora passou a ser administrada por outra empresa do grupo, a APS. “A sucessora da Amil não está honrando os contratos e é obrigatório que ela cumpra tudo que está nos contratos entre o segurado e a Amil. Para transferir uma carteira, é necessário, além da autorização da ANS, a concordância dos segurados, porque eles não são obrigados a contratar com outra empresa que não foi aquela que eles escolheram quando assinaram o contrato. O segurado foi prejudicado e o último a saber”, explica Fernando Capez, diretor do Procon de São Paulo. “Ela recebeu, há 15 dias, uma carta comunicando. Foi uma decisão unilateral, teria que ser, assim, feito um acordo para migração de plano”, diz Anne Bernadette.

Uma outra negociação pretende entregar a APS para novos controladores. Pelo acordo, o grupo que assumir a empresa terá que receber da Amil um aporte de R$ 2,4 bilhões. Mas a Agência Nacional de Saúde suplementar suspendeu a transferência e questionou a capacidade financeira do grupo para garantir o funcionamento da operadora.

Um escritório em cima da garagem de um imóvel na Zona Leste de São Paulo é o endereço fornecido pela Fiord Capital para a junta comercial. A empresa, uma gestora de investimento criada há três meses, faz parte do grupo interessado em assumir a operadora que recebeu a carteira de segurados da Amil. As outras sócias no negócio são a operadora de saúde Seferin & Coelho, com sede em Porto Alegre, e Henning Von Koss, que se apresenta como o Ceo do grupo. Ele falou sobre a sede da Fiord capital em São Paulo.

“Essa empresa está em um processo temporário de definição de estruturas e sedes, que vão ser na região da Faria Lima, e deveria com isso estar esclarecido esse movimento. Porém, você tem outro sócio com a mesma porcentagem que tem um edifício belíssimo no centro financeiro de Porto Alegre, que é a sede da Seferin & Coelho desde 2015, além dos hospitais e assim por diante”, diz Henning Von Koss.

O gestor disse que está entregando a documentação solicitada pela ANS e que o primeiro objetivo do grupo, assim que assumir a operadora, será resolver as falhas no atendimento.

“Nós ainda não estamos na gestão do negócio, porém já estamos muito incomodados com o que está acontecendo. Nós estamos adquirindo uma plataforma para onde você pode crescer, que é estável, que tem uma rede muito forte, que tem uma operação muito sólida, que tem um contrato garantido, que tem os fundamentos financeiros no modelo atual, que ela é rentável no seu modelo e, com o investimento em crescimento, aí consequentemente o que a gente chama de novas vidas e oxigenação, vai ser sustentável daqui em diante. Nosso objetivo maior é ser a maior operadora de planos individuais do país”, afirma Henning Von Koss. O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor quer que a ANS reveja a decisão que autorizou a transferência dos planos individuais da Amil para a APS, devido às falhas no atendimento dos consumidores, e também considerando, segundo o Idec, os estranhíssimos movimentos empresariais que se seguiram à transferência.

O Procon de São Paulo também critica as transações envolvendo o plano de saúde. “O Procon vai contestar a transferência da carteira de mais de 300 mil segurados da Amil para a APS. A APS é uma empresa pequena, que ainda não demonstrou ter suporte financeiro para dar sequência nessa carteira”, diz Fernando Capez. O novo grupo afirma que tem condições financeiras de sustentar a operação.

“É uma empresa que nasce com mais ou menos R$ 3 bilhões de faturamento, ela tem uma margem positiva ainda. Nosso foco é tecnologia, estruturas, inovação, engajamento, aproximação do consumidor. Então, existe uma combinação de tempo, recursos, conhecimento e gestão que permite que possa evoluir com segurança para o nosso consumidor”, diz Henning Von Koss.

A Amil afirmou que encaminhou a documentação solicitada pela Agência Nacional de Saúde Suplementar e que tem como prioridade garantir aos segurados a assistência que esperam.

A ANS confirmou que recebeu os documentos sobre o possível repasse dos planos para um novo controlador; que convocou representantes da Amil para uma reunião na semana que vem, quando irá exigir um plano para reduzir os problemas no atendimento da APS; e que a operadora deve manter as mesmas condições dos contratos.


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