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Boneca inflável, vibrador, cinto de castidade: como surgiram os objetos sexuais? Veja a história



Assim que você lê algo sobre sexualidade, é fácil saber que a invenção dos vibradores respondeu à necessidade dos médicos de curar a histeria feminina. Até então, conta a história, os médicos realizavam uma massagem manual na região genital para acalmar os sintomas que incluíam tonturas, fraqueza ou alterações de humor. Com a criação do vibrador elétrico, o tratamento se tornou mais eficaz e mais repousante para os braços dos sofredores médicos. Tem até um filme, Histeria (2011), que o recria e começa dizendo “baseado em acontecimentos reais”. É preciso reconhecer que a ideia de que os médicos masturbariam as mulheres nas suas consultas e para isso inventariam o vibrador tem muitos ingredientes para ter sucesso. Mas é falsa.

O sexo não está imune a boatos e já sabemos que uma mentira repetida mil vezes vira verdade. Foi o que aconteceu com a história da invenção do vibrador. Da mesma forma, sabe-se que as notícias falsas costumam ter mais alcance do que suas negações, o mesmo aconteceu neste caso. Numerosos artigos repetiram a história, mas muito menos repetiram a retificação.

Em 2010, foi publicado o livro Orgasm Technology: Hysteria, Vibrators, and Women's Sexual Satisfaction (Tecnologia de orgasmo: histeria, vibradores e satisfação sexual feminina, em tradução literal), de Rachel P. Maines, cientista especializada em história da tecnologia. E é aí que surge toda a teoria da invenção dos vibradores como tratamento médico. Maines justifica sua teoria com inúmeras citações e acrescenta a ideia de que o modelo falocêntrico de sexualidade tornou esse tratamento aceito porque, por não envolver penetração vaginal, não era considerado uma prática sexual naquela época.

No texto de Maines também se pode ler que o Mortimer Granville (inventor do vibrador) negou ter percutido mulheres, e a autora justifica isso assegurando que “claramente os médicos estavam interessados em preservar sua dignidade profissional”. Não sabemos se foi alguma inconsistência deste tipo ou a extravagância da história que fez Hallie Lieberman e Eric Schatzberg, também historiadores, focarem nesta teoria e concluírem que não havia evidências que a justificassem. Em 2018, publicaram o artigo A Failure of Academic Quality Control: Orgasm Technology (Uma falha no controle de qualidade acadêmica: tecnologia do orgasmo), onde explicam que revisaram cuidadosamente todas as fontes citadas por Maines e não acharam confirmação de que os médicos vitorianos usavam vibradores como tratamento médico. A isso, Maines respondeu que seu argumento era apenas uma hipótese que deu certo e que ela ficou até surpresa por ter demorado tanto para ser refutada.

É verdade que os vibradores foram inventados no final do século XIX e tinham uma utilização médica: massagear determinadas zonas do corpo para aliviar diversos males como problemas digestivos, flatulência e até para eliminar rugas. Mas não para causar orgasmos. Nas primeiras décadas do século XX, os vibradores domésticos se popularizaram e, na privacidade do lar, algumas mulheres começaram a utilizar estes estímulos para fins mais prazerosos. O que permanece até os dias atuais.

Cinto de castidade

A Idade Média é uma época da história humana que nos parece bárbara. Museus com dispositivos de tortura da época são exemplos. Neste contexto, se enquadra perfeitamente a existência de cintos de castidade, objetos de ferro em forma de calcinha que o marido colocava quando tinha que sair de casa por longos períodos de tempo para garantir que sua esposa não fosse penetrada por ninguém. O cinto de castidade teria um duplo objetivo: por um lado, garantir a fidelidade e, por outro, prevenir possíveis estupros. Também foi colocado nas filhas para garantir a virgindade. Certamente vem à mente a imagem de alguns desses objetos.

Mas, segundo José Manuel Rodríguez García, do Departamento de História Medieval da UNED, “não há uma única prova material de que existiram cintos de castidade naquele período”. Ou seja, há muita representação literária, mas não há referências históricas. Além disso, os aspectos práticos do dispositivo devem ser levados em consideração. Com um pesado cinto de ferro em torno dos quadris e da região pélvica, seria muito difícil viver meses ou anos, sem falar nas feridas causadas pelo atrito do metal na pele, que provavelmente causariam infecções em uma época em que havia não existiam antibióticos.

Talvez você já tenha visto um cinto de castidade medieval exposto. O Museu Britânico de Londres, por exemplo, removeu um depois de verificar que era falso. Segundo García, “esses cintos de castidade são recriações dos últimos dois séculos. O mais antigo que se conhece data do primeiro terço do século XVI”. Os cintos de castidade, assim como o direito ao descanso, foram imaginações criadas na era do Iluminismo para dar uma imagem sombria da Idade Média.

Boneca Inflável

O projeto Borghild é outra história não confirmada ligada ao sexo. Este é o nome dado a um suposto projeto nazista de 1941 para criar uma boneca inflável para soldados alemães durante a Segunda Guerra Mundial. As baixas por infecções sexualmente transmissíveis, principalmente a sífilis, eram um risco que diminuía os exércitos da época. Isso é verdade. Para evitar esta causa de baixas e dadas as necessidades sexuais dos jovens combatentes do sexo masculino, fazia sentido (segundo a mentalidade da época) criar uma boneca que os soldados transportassem na mochila. Num momento de excitação, eles pegavam a boneca, inflavam e pronto. Higiênico e fácil. Supostamente, assim foram criadas as bonecas infláveis. Para completar a lenda, foram fornecidos detalhes da boneca: no verdadeiro estilo ariano, era loira, de olhos azuis, 1,76 metros de altura, lábios e seios grandes, pernas, braços e cabeça articulada. O projeto, dizem, não se concretizou porque um bombardeio destruiu a fábrica que produzia as bonecas. No entanto, são inúmeras as fontes que refutam a veracidade da história ao não encontrarem, mais uma vez, referências fiáveis.

O projeto Borghild é, no mínimo, uma história curiosa. Assim como as outras duas, são histórias para serem contadas com sucesso no bar. O boca a boca ou sua versão moderna, o WhatsApp, são boa forma de consolidar boatos, independentemente da área. Além disso, há um velho ditado: “Não deixe a verdade estragar uma boa manchete”.


Fonte: O Globo

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