Avaliação do colesterol: quanto antes, melhor, sugere estudo

Novos dados de quase 400.000 pessoas acompanhadas por até 43 anos mostraram que a ligação entre o aumento do colesterol não HDL e o risco de doença cardiovascular é mais forte entre os jovens.

Os pesquisadores também simularam o efeito que uma redução de 50% nos níveis de colesterol teria ao longo da vida e descobriram que, embora isso fosse eficaz na redução do risco cardiovascular em todas as idades, as maiores reduções de risco relativo foram em indivíduos mais jovens — provavelmente porque a exposição ao colesterol teria sido reduzida por um longo período de suas vidas.

Os dados levantam dúvidas sobre a pertinência de avaliar o colesterol das pessoas em uma idade mais jovem do que atualmente é recomendado.

“Atualmente, a maioria das pessoas não pensa em avaliar o colesterol até os 50 ou 60 anos. A essa altura, elas podem estar vivendo com níveis elevados de colesterol há mais de 40 anos, e muitos danos já teriam sido causados”, disse ao Medscape o autor sênior Dr. Stefan Blankenberg, médico do University Heart & Vascular Center Hamburg, na Alemanha.

“Nossos dados sugerem que não devemos esperar até a meia-idade para pensar sobre isso”, disse ele. “Quanto mais jovem você for quando descobrir que tem colesterol alto, mais pode ser feito para minimizar os danos.”

“Não estamos recomendando que todo mundo tome estatinas a vida inteira, mas nossos resultados sugerem que avaliar o colesterol ainda jovem é uma boa ideia”, acrescentou o Dr. Stefan. “Dessa forma, será possível determinar o risco de cada um, para que a pessoa decida se deve tomar ou não alguma estatina.”

O estudo foi publicado on-line em 03 de dezembro no periódico The Lancet.

Os resultados fornecem mais informações do que as já disponíveis sobre a ligação entre os níveis de colesterol e o risco de doença cardiovascular durante a vida, principalmente em adultos mais jovens, disseram os autores.

Os ensaios clínicos sobre estatinas em sua maioria envolveram pessoas mais velhas e pessoas com risco elevado de doença cardíaca ou com a doença estabelecida. E o acompanhamento costuma ser relativamente curto, de cerca de cinco a sete anos, disse o Dr. Stefan.

“Nosso principal objetivo era observar como os níveis de lipídios previam o risco cardiovascular ao longo da vida – não apenas poucos anos adiante.”

Para o estudo, os pesquisadores identificaram 398.846 indivíduos (média de idade de 51 anos) sem doença cardiovascular no início do estudo, provenientes de 38 estudos de coorte distintos. Eles foram acompanhados por uma mediana de 13,5 anos (máximo de 43 anos) para eventos cardiovasculares.

Os resultados mostraram que as taxas de eventos cardiovasculares em 30 anos foram progressivamente mais altas nas categorias crescentes de colesterol não HDL, e foram aproximadamente três a quatro vezes mais altas na categoria mais alta de colesterol não HDL (≥ 220 mg/dL) do que na categoria mais baixa (< 100 mg/dL), com 33,7% vs. 7,7% em mulheres e 43,6% vs. 12,8% em homens.

“Encontramos uma relação muito forte entre os níveis de colesterol não HDL e o risco cardiovascular – não apenas por 10 anos, mas por até 30 anos”, disse o Dr. Stefan. “E a ligação se fortalece à medida que o tempo de acompanhamento aumenta. O nível de colesterol aos 40 anos foi fortemente relacionado ao risco cardiovascular aos 70 anos.”

“O que realmente sobressaiu, para mim, dos nossos dados foi a força incrível do aumento do risco em longo prazo com o aumento do colesterol”, acrescentou. “É muito impressionante ver como as curvas de Kaplan-Meier divergem dos 15 anos em diante, mesmo com pequenas diferenças nos níveis de colesterol. Em longo prazo, isso pode se traduzir em um grande risco.”

O aumento mais acentuado do risco relativo associado ao colesterol não HDL foi encontrado em indivíduos com menos de 45 anos no começo do estudo (razão de risco ou hazard ratio, HR, de 4,3 em mulheres e de 4,6 em homens, para colesterol não HDL ≥ 220 mg/dL vs. o valor de referência 100 mg/dL).

Nos grupos mais velhos, a associação entre colesterol não HDL e incidência de doença cardiovascular foi atenuada, mas ainda detectável em pessoas com pelo menos 60 anos de idade (HR de 1,4 em mulheres e 1,8 em homens, para colesterol não HDL ≥ 220 mg/dL vs. o valor de referência 100 mg/dL).

Instrumento para avaliar o risco ao longo da vida

Os pesquisadores também desenvolveram um instrumento para calcular o benefício potencial de uma estratégia precoce de redução de lipídios nas pessoas sem doença cardiovascular em uma variedade de categorias de colesterol não HDL.

O instrumento é específico para idade, sexo e fatores de risco cardiovascular e avalia a probabilidade individual em longo prazo de doença cardiovascular aos 75 anos de idade associada ao colesterol não HDL.

“As pontuações de risco usadas atualmente na decisão sobre o tratamento hipolipemiante avaliam apenas o risco cardiovascular em 10 anos e, portanto, subestimam o risco ao longo da vida, particularmente em pessoas jovens”, afirmaram os autores.

Eles disseram que seu instrumento de risco oferece “uma oportunidade de estimar os riscos ao longo da vida com base no colesterol não HDL, de maneira acessível e de fácil compreensão, podendo melhorar a comunicação médico-paciente sobre estratégias preventivas na prática clínica”.

O instrumento também prevê o risco potencialmente atingível de doença cardiovascular em longo prazo, assumindo uma redução de 50% do colesterol não HDL, que, segundo os autores, “fornece informações únicas sobre os benefícios de uma potencial intervenção precoce na prevenção primária”.

Os pesquisadores dão um exemplo da população com colesterol não HDL entre 145 mg/dL a 185 mg/dL com menos de 45 anos de idade e com pelo menos dois outros fatores de risco cardiovascular, para a qual o risco em longo prazo de doença cardiovascular poderia hipoteticamente ser reduzido de 15,6% para 3,6% em mulheres e de 28,8% para 6,4% em homens.

Isso se traduz em um número necessário para tratar (para reduzir um episódio de doença cardiovascular ao longo da vida aos 75 anos) de 8,3 em mulheres e 4,5 em homens.

“Nossos dados são um passo em direção a uma abordagem mais personalizada e sugerem que a identificação de pessoas mais jovens com altos níveis de colesterol tem um grande potencial de benefício futuro”, concluiu o Dr. Stefan.

Em um comentário que acompanha o estudo, a Dra. Jennifer G. Robinson, médica, da University of Iowa, nos Estados Unidos, disse que o instrumento descrito no artigo “poderia facilitar o processo decisório em conjunto na prevenção primária, estimando o risco ao longo da vida de doença cardiovascular aterosclerótica até 75 anos de idade, bem como o potencial de benefício individualizado da redução das concentrações de colesterol não HDL ou concentrações de colesterol-LDL ao longo da vida.

Ao elogiar o instrumento de risco da equipe de pesquisa para calcular o benefício líquido de intervenções para redução de lipídios no início da vida, a Dra. Jennifer disse que a equipe deveria dar um passo adiante.

“Os pesquisadores deveriam desenvolver uma calculadora on-line, além do instrumento de risco, para facilitar a ampla incorporação das recomendações em diretrizes futuras para a redução do colesterol”, ela escreveu.

Fonte: Medscape

#Avaliação #colesterol #estudo

5 visualizações

© 2020 Portal Saúde Agora. Tudo sobre SAÚDE em um só lugar!

  • Instagram