Aumento da exposição às telas, ampliado pela pandemia, pode prejudicar a visão


A pandemia de Covid-19 provocou um aumento da utilização de dispositivos como celulares, tablets e computadores. Com o distanciamento social, os recursos passaram integrar de forma mais frequente a rotina de trabalho e o contexto escolar, além de já fazer parte das atividades de lazer, segundo especialistas consultados pela CNN.


Aumento de casos de miopia em crianças


O uso em excesso de equipamentos como celular, tablets e computadores pode provocar danos que vão da saúde ocular ao desenvolvimento cognitivo das crianças. De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o tempo de uso diário recomendado varia de acordo com a idade, sendo restrita a utilização por crianças menores de dois anos.


Segundo o médico Sérgio Fernandes, membro da Sociedade Brasileira de Oftalmologia, a exposição intensa aos eletrônicos pode levar ao desenvolvimento e agravamento de casos de miopia nas crianças, que podem ser irreversíveis. A miopia é um distúrbio da visão definido principalmente pela dificuldade de enxergar a distância devido a alterações provocadas no globo ocular.


“A visão aproximada de telas, como computadores e celulares, a uma distância de cerca de 40 centímetros e por tempo prolongado tem levado a um aumento da miopia. Isso é preocupante, é um fenômeno mundial”, afirma.


Segundo o especialista, o uso deve ser reduzido e intercalado com outras atividades. “Elas devem ter atividades ao ar livre diante da luz do sol, uma das coisas que inibem o aumento da miopia”, explicou.


Um estudo publicado na revista Nature revelou que o ensino em casa durante a pandemia aumentou a taxa de progressão da miopia em crianças, em comparação com os anos anteriores.


A pesquisa avaliou 115 crianças e adolescentes de 8 a 17 anos. O aumento está relacionado principalmente à redução do tempo dedicado às atividades ao ar livre. Segundo o artigo, passar 2 horas por dia em uma atividade ao ar livre diminui a progressão da miopia.


Já uma pesquisa publicada no periódico científico Lancet mostrou que, entre 2019 e 2020, a progressão da miopia cresceu 40% entre os jovens de 5 a 18 anos, principalmente devido às restrições de circulação impostas pela pandemia. A pesquisa contou com a colaboração de oftalmologistas de países de todas as regiões da América do Sul.


Outro impactos negativos do uso de telas


A professora da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Delma Simão, alerta que o maior tempo de exposição a telas também pode ocasionar prejuízos ao desenvolvimento cognitivo das crianças. “Uma criança que tem exposição precoce e exagerada às telas, em geral, pode ter atrasos no desenvolvimento de fala, de interação social e coordenação motora”, explica.


Segundo a especialista, a substituição de atividades de interação familiar e social pelo recurso tecnológico pode comprometer o aprendizado. “Esse tempo de tela exagerado acaba por limitar o desenvolvimento neuropsicomotor como um todo”, acrescentou.


A exposição precoce às telas também traz impactos negativos para o desenvolvimento visual e das primeiras estratégias de comunicação das crianças. De acordo com a professora da UFMG, as crianças aprendem a imitar os movimentos faciais dos adultos, incluindo as mais diferentes expressões, como medo, alegria e raiva. O contato com as imagens reproduzidas nas telas, no entanto, pode levar à uma espécie de desorganização do aprendizado dessas expressões.


“Brincar de careta, por exemplo, é algo que pedimos para que os pais façam com as crianças exatamente pelo aprendizado. É uma forma de desenvolvimento da comunicação não verbal, que faz com que elas aprendam a emitir melhor as suas emoções”, explica Delma. “A exposição prolongada à tela acaba por desorganizar o processo de comunicação e pode gerar um comportamento inapropriado socialmente, como as birras”, complementa.


Incentivo a atividades alternativas


Os especialistas ressaltam que a exposição das crianças às telas é um problema anterior à pandemia e que a mobilização voltada para a realização de atividades alternativas deve ser constante.


Segundo o professor da Faculdade de Educação da UFMG, Rogério Correia, um dos passos para reduzir o uso de computadores e celulares pelas crianças é a criação de rotinas funcionais, como horários regulares para dormir e realizar as atividades ao longo do dia.


O especialista recomenda que os pais estimulem o envolvimento dos filhos com as atividades da casa. “É importante para a criança participar das atividades diárias, como cuidar do quarto, organizar os brinquedos, ajudar a arrumar a casa ou a preparar os alimentos, fazer as refeições juntos. Além do tempo para as brincadeiras e para realizar as atividades da escola”, diz.


Segundo Correia, até mesmo o tempo diante das telas pode ser utilizado de maneira mais produtiva. “Não dá para afirmar tempo de assistir a um desenho animado ou programa televisivo tenha o mesmo valor de uma chamada com parentes que estão confinados em outros espaços, por exemplo. Vale a pena saber escolher aquilo que seja mais interessante”, afirma.


Ressecamento dos olhos causa desconforto


Segundo o oftalmologista Sérgio Fernandes, uma das principais consequências do excesso de uso de telas para os adultos é o ressecamento dos olhos. “Com o isolamento social, estar e trabalhar em casa fez com que as pessoas ficassem muito mais tempo nos computadores e celulares. Ao usarem as telas, as pessoas piscam metade das vezes do que acontece normalmente, que é de 15 a 20 vezes por minuto. Isso causa desconforto, sensação de ardência e cansaço no final do dia por conta do olho seco”, explica.


Para reduzir o problema, o oftalmologista orienta que, entre uma e duas horas de uso do computador, as pessoas façam intervalos de pelo menos cinco minutos. “Os recursos para combater o ressecamento causado pelo uso excessivo das telas envolvem ensinar o corpo a piscar para lubrificar os olhos. Também podem ser utilizados colírios lubrificantes, de duas a quatro vezes ao dia”, acrescentou.


A Sociedade Brasileira de Oftalmologia recomenda, ainda, que as atividades em computadores, celulares e tablets com duração superior a quatro horas devem ser interrompidas para pausas maiores com o objetivo de evitar a intensificação do desconforto visual.


Pandemia reduziu consultas oftalmológicas


Os especialistas apontam que a pandemia provocou quedas nos números de consultas, exames e procedimentos oftalmológicos, principalmente devido às medidas de distanciamento social e ao receio dos pacientes do contágio pela Covid-19.


Em uma comparação entre os anos de 2019 e 2020, houve uma redução de 81% no volume de atendimentos, segundo estimativas da National Patient and Procedure Volume Tracker Analysis, nos Estados Unidos. O cenário, de acordo com os especialistas, seguiu a mesma tendência no Brasil.


Segundo o médico Rodrigo Pegado, membro da Sociedade Brasileira de Oftalmologia, a interrupção de tratamentos oculares no período levou ao agravamento do quadro clínico de pacientes com doenças como catarata, ceratocone e problemas oculares em decorrência de diabetes.


“No retorno das pessoas para a continuidade do tratamento vemos que os quadros estão mais graves. Houve uma progressão de uma série de condições, principalmente aquelas crônicas como os pacientes diabéticos e a degeneração macular relacionada à idade. Foram doenças que pioraram bastante porque perderam o seguimento do tratamento”, afirmou Rodrigo.


Fonte: CNN

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