Assinatura do autismo na visão parece ser um marcador neural objetivo da doença

Pacientes com autismo podem ter um processamento visual alterado, o que poderia servir como um marcador neural objetivo e não verbal da doença, sugerem novas pesquisas.

Usando a eletroencefalografia (EEG), os pesquisadores descobriram que adultos com autismo têm diferenças na parte do cérebro que processa informações visuais – e essas diferenças podem ser usadas para identificar quais indivíduos têm autismo.

“Essa assinatura do autismo na visão parece ser um bom marcador neural objetivo da doença em adultos”, disse a pesquisadora Dra. Caroline Robertson, professora assistente de ciências psicológicas e do sistema nervoso central de Dartmouth College, nos Estados Unidos, e diretora do Dartmouth Autism Research Initiative, disse ao Medscape.

“É importante ressaltar que não exige manifestação verbal do indivíduo, tornando-o adequado para futuras pesquisas com crianças pré-verbais e também adultos não verbais”, disse Dra. Caroline.

Os resultados foram publicados on-line em 15 de agosto no periódico Current Biology.

“Rivalidade binocular” alterada

“Por muito tempo acreditamos que o autismo se tratava fundamentalmente de alterações nas regiões do cérebro que processam informações sociais. Os sintomas sensoriais apenas recentemente foram reconhecidos como essenciais para o autismo”, explicou a Dra. Caroline.

Em trabalhos anteriores, os pesquisadores observaram taxas comportamentais relatadas mais lentas de um fenômeno visual básico conhecido como “rivalidade binocular” em pacientes com autismo.

Durante a rivalidade binocular, duas imagens – uma apresentada a cada olho – disputam a atenção, alternando na percepção. Essa competição depende em parte do equilíbrio de excitação e inibição no córtex visual, que pode ser alterado no autismo. Mas, até o momento, não havia evidências neurais diretas desse possível marcador de equilíbrio de excitação/inibição (E/I) no autismo, escreveram os pesquisadores.

Seu estudo mais recente mostra uma alteração “impressionante” na dinâmica neural da rivalidade binocular em indivíduos com autismo, acrescentaram eles.

O estudo incluiu 18 adultos com autismo e 19 indivíduos pareados por idade e QI para serem controles saudáveis. Os pesquisadores mediram potenciais evocados visualmente (PEV) em estado estacionário através de um único eletrodo de EEG colocado na cabeça de um participante sobre a região visual do cérebro.

A eles foram então apresentados uma de duas imagens na tela do computador: tabuleiros de damas vermelhos no olho esquerdo e tabuleiros verdes no olho direito, que acendiam e apagavam em diferentes frequências.

Abordagem não está pronta para o uso na rotina

Os pesquisadores replicaram os resultados anteriores de rivalidade binocular mais lenta e supressão perceptiva reduzida nos pacientes com autismo em comparação com os controles. Os resultados também fornecem “evidência neural direta” para uma rivalidade mais lenta no autismo em comparação com o grupo de controle, eles escreveram.

Usando apenas os dados neurais do teste visual, eles foram capazes de prever a gravidade dos sintomas do autismo e classificar corretamente o status diagnóstico dos indivíduos (autismo ou controle) com 87% de precisão.

“Esses resultados claramente implicam processamento visual atípico na neurobiologia do autismo”, escreveram os pesquisadores.

No entanto, a Dra. Caroline alertou que, embora os resultados os tenham permitido prever quais adultos tinham e quais não tinham diagnóstico de autismo, há muito trabalho a ser feito.

“Como próximo passo precisamos saber se essa diferença no processamento visual que identificamos no autismo é específica para a doença, em comparação com outros transtornos psiquiátricos”, disse ela.

Para desenvolver a medida como uma ferramenta de rastreio para o autismo, também é importante avaliar se os resultados são válidos em “indivíduos mais jovens, idealmente pré-verbais”, acrescentou.

“Em outras palavras: poderemos identificar quais lactentes com risco de diagnóstico de autismo pela história familiar serão diagnosticados em função das diferenças precoces no processamento visual? Essa é uma questão em aberto atualmente, mas temos esperança”, disse a Dra. Caroline.

Difícil generalização

Ao comentar os resultados para o Medscape, Dr. Alexander Kolevzon, diretor médico do Seaver Autism Center for Research and Treatment, Icahn School of Medicine at Mount Sinai, nos EUA, disse que o estudo é interessante e bem feito.

“Há muito potencial no uso de biomarcadores por meio do EEG para tentar entender melhor a biologia do autismo e analisar melhor o fenótipo”, disse Dr. Alexander, que não participou do estudo.

“Mas, como ferramenta diagnóstica, acho muito difícil generalizar o que vemos nesta pequena amostra para o autismo como um todo.”

Ele observou que a abordagem precisa ser testada em uma população separada de pacientes e em comparação com controles com alteração do desenvolvimento, e em uma amostra muito maior, para se ter confiança nela como ferramenta diagnóstica.

“O mais interessante sobre o uso de potenciais visualmente evocados é que eles capturam algo sobre o equilíbrio subjacente de excitação/inibição no autismo, e sabemos que este é um importante fator pelo menos em alguns casos do transtorno. Portanto, entender melhor o uso de uma medida objetiva e facilmente obtida pode ser muito valioso”, afirmou.

Além disso, o PEV pode ser feito muito rapidamente, fornece uma resposta imediata e pode ser usado “em crianças com baixo desempenho funcional que não seguem as instruções”, disse o Dr. Alexander.

Ele observou que sua crença pessoal sobre esse tipo de ferramenta é que ela seria melhor para prever ou monitorar a resposta ao tratamento, porque refletiria diretamente a atividade excitatória e inibitória no cérebro.

Também pode ser possível “estratificar grandes grupos de crianças com autismo com base nesses tipos de perfis de PEV, a fim de selecionar melhor o tratamento”, disse ele.

O fato de esse grupo ter mostrado uma correlação entre algumas das mudanças no PEV e a gravidade geral do autismo também é interessante, disse Dr. Alexander.

Ele observou que “seria ainda mais interessante aprofundar um pouco” nas sensibilidades sensoriais, particularmente dentro do sistema visual.

“Se as respostas nesse paradigma específico estiverem relacionadas com o grau de sintomas visuais de reatividade sensorial dos pacientes”, disse o Dr. Alexander, “então tem-se um possível alvo para o tratamento e um biomarcador para medi-lo – e um sintoma clínico realmente importante de ser melhorado”.

O estudo foi financiado por doações do MIT-MGH Grand Challenge e da Simons Foundation Autism Research Initiative (SFARI). Os pesquisadores e o Dr. Alexander informaram não ter relações financeiras relevantes.

Fonte: Medscape

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