Aplicativos são aliados na busca pela saúde mental durante a pandemia



Confinamento, rotinas transformadas, incertezas. O período de pandemia do novo coronavírus, que já completa um ano, acentuou uma epidemia silenciosa: a que envolve problemas com a saúde mental. Segundo a OMS, entre esses transtornos, a ansiedade tem liderado o rol dessas enfermidades no Brasil. Entre 18,6 milhões de brasileiros com doenças dessa natureza, 86,5% sofrem de ansiedade.


Para o médico psiquiatra e colaborador do Programa de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo, Lucas Gandarela, a ansiedade é uma ferramenta de adaptação ao estresse. Por isso muitos compartilharam pensamentos ansiosos, como o medo de contrair a Covid-19 ou de alguém querido ser infectado. “Ela representa um estresse repetido e mantido. Nossa mente responde ao estresse com sintomas depressivos e ansiosos, são mecanismos que o corpo performa”, comenta.


Com tantas restrições para sair de casa, socializar, ir à terapia, fazer atividades físicas ou de lazer, os aplicativos têm sido grandes aliados na busca pelo equilíbrio da saúde mental.


Investir no condicionamento físico, em técnicas de meditação, yôga e em hobbies ajuda a reduzir estresse e ansiedade. Antes do cenário pandêmico, essas práticas já vinham sendo estudadas como importantes no tratamento de distúrbios psíquicos.


A psicoterapia também é fundamental no tratamento de sintomas depressivos e ansiosos e a boa notícia é que sua adaptação para o ambiente virtual na pandemia não diminui a eficácia. Segundo Gandarela, a sessão online é igual à presencial, desde que o paciente tenha um lugar seguro e confortável para conversar.


Entenda melhor os benefícios dessas práticas e conheça os aplicativos que permitem que você faça tudo isso de onde estiver:


Meditação


A prática de meditação tem sido uma ferramenta poderosa para a saúde mental. Estudos apontam que a prática consegue "limpar" a mente e gerar mais consciência do corpo e dos pensamentos. João Tolomei, professor de yôga e meditação da plataforma Gympass, comenta que a técnica pode ser feita de forma simples.


“Você não precisa se fantasiar de indiano para conseguir praticar. A prática tem mais de 5 mil anos e pode ser feita de forma atemporal, aqui e agora.”


A meditação gera mais consciência do presente, controlando melhor os anseios pelo futuro. A estudante de jornalismo Maria Eduarda Barros diz que costumava fazer meditação 1 vez por semana antes da pandemia, frequência que quadruplicou durante o isolamento social. “Quando me vi sem a rotina normal, precisei estar mais centrada, então passei a meditar mais, como uma forma de lidar com a situação caótica e com as questões internas, que só a escuta interior traz.”


Para praticar, ela usa o aplicativo Insight Timer, na função que tem marcador de tempo e som ambiente. Já experiente na prática, Maria Eduarda se adaptou a guiar os próprios pensamentos sem a narrativa para instruir.


Existem aplicativos e canais no Youtube que podem ajudar quem está começando a praticar. O famoso HeadSpace é um aplicativo gratuito com diferentes técnicas de meditação guiada. Em uma parceria com a Netflix, o aplicativo lançou a série animada “Headspace - Meditação Guiada”com 8 episódios de cerca de 25 minutos. Cada um oferece uma diferente técnica de meditação e uma prática de alguns minutos como experiência.


O instrutor de yôga comenta sobre uma técnica interessante para quem deseja começar a meditar, chamada mindfulness. Segundo ele, ela é um ‘degrau antes da meditação’, em que o aluno busca a atenção plena, criando um estado de tranquilidade.


Yoga


A técnica milenar que combina exercício com meditação foi uma das mais buscadas durante a pandemia. O professor de yôga João Tolomei teve que se adaptar à pandemia para continuar a ensinar yôga, trabalho que faz há 15 anos.


“A ostentação hoje é ter saúde mental, nunca esteve tão na moda. Mas sem ela, a gente não tem energia, nem bons relacionamentos, nem nosso metabolismo funciona direito. O yôga gerência o estresse e possibilita desenvolver maior consciência em todos os nossos comportamentos”.


Para começar a prática, o professor indica que, se possível, procure um profissional que trabalhe, em aula, suas necessidades psicológicas e físicas, o que ele chama de ter um ‘crush’ ou criar uma conexão entre professor e aluno. Mas também existem alguns aplicativos que ajudam na prática como o Down Dog e o Daily Yoga. Nessas plataformas é possível escolher o nível de dificuldade e o tempo de duração das aulas.


Se você deseja começar, não precisa montar uma micro academia em casa. Para praticar, basta ter espaço para ficar em pé, sentado e detado. “Dá para usar bloquinho, tapete e bola, mas a melhor prática é que você usa só o seu próprio corpo. Você pode praticar em pé, sentado, conversando com alguém e até dirigindo. A prática precisa se adaptar a você”, comenta o instrutor.

A bancária Marília Klug, começou a praticar yôga na pandemia para tentar sair do sedentarismo. Como viaja bastante, escolheu aprender a técnica que consegue fazer em qualquer lugar com um pouco de espaço e seu tapete.


Ela vê que a prática trouxe maior equilíbrio mental, a ajudou a controlar a ansiedade através de técnicas de respiração que aprendeu em aula e ainda conseguiu redução de peso e maior flexibilidade.


A prática traz importantes benefícios para o corpo. O yôga pode substituir a prática de exercícios, mas se você já está acostumado a fazer atividades físicas, não precisa parar. A técnica aliada a outros esportes gera melhor performance e resultados.


O yôga potencializa a meditação também. Juntas, geram uma prática poderosa de consciência do organismo e da mente. “A meditação é um estado de expansão. Às vezes a pessoa fica lá 30 minutos sentado, paralizado achando que está meditando e só retrai o corpo. Apenas um minuto de meditação junto com o yoga é capaz de atingir um potencial infinito”, garante João Tolomei.

Mesmo com a volta gradativa das atividades presenciais, o instrutor vê que muitos alunos gostam de poder praticar em casa. Marília Klug comenta que começou de forma online e se adaptou à praticidade.


“Sou do tipo de pessoa que desistia da academia só de pensar em chegar em casa, trocar de roupa e sair novamente. Com o yôga, a gente só precisa estar a fim, ligar o notebook, colocar uma roupinha confortável e participar.”


Mesmo à distância, o instrutor não vê diferenças entre a evolução de alunos que começaram presencialmente ou nas aulas online. Ele fala que o desenvolvimento depende das horas praticadas e do esforço. “Posso falar como professor: quem faz a aula é o próprio aluno independente da metodologia”.


Esportes e atividades físicas


A restrição das atividades fora de casa diminui ou até mesmo impediu as atividades físicas que muitos praticavam. Se você era do grupo que descia escadas e caminhava até o trabalho ou costumava ir a academias ou parques, deve ter sentido os efeitos de ficar em casa sem suas atividades de rotina.


“Um estudo brasileiro, publicado em julho do ano passado, fala que pessoas que passam mais de 10 horas por dia sentadas, têm mais sintomas depressivos. E os que fizeram atividade físicas moderadas a vigorosas durante o confinamento, tiveram menos sintomas depressivos e ansiosos”, comenta o psiquiatra Lucas Gandarela.


Praticar esportes e outras atividades físicas podem ter resultados importantes na saúde mental. É possível começar a praticar o tipo de exercício que desejar com ajuda de aplicativos e canais do Youtube.


O aplicativo Nike Training Club, disponível para IOS e Android, traz um leque interessante de exercícios, níveis e intensidade.


Ao criar uma conta, o aplicativo faz um questionário para personalizar a experiência do usuário, e você tem a opção de escolher os treinos prontos disponíveis ou criar um plano individual de acordo com seu tempo e condicionamento. Existe também a opção de escolher por atividades com e sem equipamentos.


Outra proposta é o aplicativo Exercícios de Alongamento, que permite a escolha de uma meta semanal, instalação de lembretes e até a definição do tempo de duração dos exercícios. Ele traz instruções narradas e vídeos para que o usuário possa acompanhar os movimentos.


Canais do Youtube também trazem experiências menos personalizadas, mas ainda muito fáceis de praticar exercícios e danças. O canal Roberta Gym’s Brasil tem mais de 1,23 milhões de inscritos e uma extensa gama de exercícios físicos para o espectador escolher. É possível selecionar qual parte do corpo deseja focar e a intensidade do exercício. A boneca virtual faz a atividade junto com o espectador e não é necessário nenhum equipamento além do corpo. Disponível também em inglês, francês e espanhol.


Hobbies e lazer


“As pessoas se viram impossibilitadas de atividades que traziam prazer, como ir ao cinema, restaurantes, bares e principalmente o contato social, que costuma ser muito bom para nós. Essas privações trazem sentimentos ruins, como tristeza e ansiedade. Uma maneira de contornar isso, é encontrar outras atividades que sejam prazerosas. Então entram hobbies e lazer”, destaca o psiquiatra Lucas Gandarela.


A recorrência mais comum é procurarmos entretenimento no computador, celular, televisão, como ver filmes e séries. Para muitos, essas atividades foram prazerosas, até gerarem uma sensação de cansaço.


“Esse excesso de atividades passivas dá um sentimento de descontentamento e desânimo. Fazer atividades onde você tem um papel ativo, como a culinária, ajuda a sair desse estado de tédio. Muito tempo se passou desde o início da pandemia e isso demandou ainda mais criatividade para explorar mais um hobbie que já gostamos, como por exemplo se você gosta de pintura, mas cansou, tentar aprender outra técnica”.


As redes sociais ficaram inundadas com os novos cursos e formas de lazer que as pessoas descobriram na pandemia. Curso profissionalizante, curso para aprender hobbies novos e quem nem fez curso, só foi se aventurar com tutoriais na internet.


Esse é o caso do Matheus Souza, de 24 anos, morador da Zona Sul de São Paulo, que aprendeu um universo novo na culinária. Antes da pandemia, Matheus conta que sabia fazer algumas receitas clássicas, como o combo arroz e feijão. De vez em quando, quando dava vontade, arriscava fazer um bolo.


Com a quarentena, o jovem começou a usar o tempo livre e a saudade de comer pratos diferentes na rua para testar receitas em casa. Depois que perdeu a mãe para a Covid-19, a responsabilidade de cozinhar dentro de casa passou para ele, já que os irmãos trabalhavam fora de casa.


“Fui pegando mais prática na comida do dia a dia e, naturalmente, conforme fui melhorando e aprendendo, comecei a sentir mais vontade de testar receitas diferentes e ver como fica”, lembra.


Pães, massas de pizza, cinnamon roll, falafel, tortas doces e salgadas, cookies e muitos outros foram aprovados pelos familiares.


De acordo com o psiquiatra, essas atividades ajudam a distrair da grande enxurrada de notícias que causam ansiedade. “Elas promovem emoções agradáveis, ajudam a distrair e ocupar o tempo. No caso de cursos profissionais, podem gerar uma sensação de competência e utilidade”, diz Gandarela.


A plataforma paga Domestika tem uma grande gama de cursos disponíveis de forma online. As opções variam desde funções profissionalizantes em design e comunicação, até funções como construir móveis em concreto, fazer crochê e marcenaria.


Lá você pode optar pelo nível de conhecimento que já tem (como iniciante, intermediário ou avançado), escolher o tempo de duração de todo o curso e até saber avaliação de outros estudantes.


Existem algumas opções gratuitas de cursos. O Sebrae tem diversos módulos para os que estão começando a empreender e querem aprender mais sobre administração e comércio.


Fazer cursos e ter outros pequenos objetivos, como manter a casa arrumada, passear com o cachorro diariamente ou fazer exercícios físicos, podem gerar a sensação de controle, de que tempo e atividades ainda são geridas pelo indivíduo, em um momento de tanta imprevisibilidade.


Fonte: CNN

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