Alimentação vegana altera o microbioma e a sensibilidade à insulina, e faz perder peso

Barcelona, Espanha — A alimentação vegana com baixo teor de gordura promove alterações na microbiota intestinal que estão relacionadas com a alteração da composição física e da sensibilidade à insulina, e promove perda ponderal, de acordo com resultados de um estudo randomizado e controlado feito com adultos com sobrepeso ou obesidade.

Durante as 16 semanas da intervenção o peso diminuiu significativamente nos participantes fazendo a alimentação vegana em comparação com os que mantiveram alimentação cotidiana não vegana, com uma perda de – 5,8 kg (P < 0,001), em grande parte devida à diminuição da ingestão de gordura, com um efeito de tratamento – 3,9 kg (P < 0,001). A gordura visceral também diminuiu significativamente com o plano de alimentação vegana.

Não foi imposta nenhuma restrição calórica nos dois tipos de alimentação.

Dra. Hana Kahleova, Ph.D., médica e diretora de pesquisa clínica no Physicians Committee for Responsible Medicine (PCRM), nos Estados Unidos, – cuja principal missão é promover alimentação de origem vegetal – liderou o trabalho e apresentou os resultados na reunião anual de 2019 da European Association for the Study of Diabetes (EASD).

“Este resultado, da perda de em média meio quilo por semana no grupo vegano, é bastante bom”, disse a Dra. Hana.

A Dra. Hana explicou que trabalhos anteriores mostraram que as pessoas podem perder duas vezes mais peso com a alimentação vegana do que com uma alimentação não vegana com o mesmo aporte calórico.

“Com o nosso estudo, queríamos saber por que isso acontece”, observou a pesquisadora em uma entrevista para o Medscape.

Os resultados sugerem modificações da microbiota intestinal, produzindo efeitos benéficos, disse a autora.

“Comer alimentos de origem vegetal com muitas fibras modifica para melhor a composição da microbiota intestinal, alimentando o tipo certo de bactéria, sobretudo a Fecalibacterium prausnitzii, produtora de ácidos graxos de cadeia curta que oferece muitos benefícios metabólicos, como perda ponderal, aumento da sensibilidade à insulina e perda de gordura, inclusive perda da gordura visceral”, observou a pesquisadora.

No entanto, Emma Elvin, conselheira clínica sênior da organização filantrópica Diabetes UK, advertiu que “é necessário haver mais pesquisas para esclarecer como a alimentação vegana modifica microbiota intestinal e – fundamentalmente – quais são os efeitos diferenciados que podem ser atribuídos à alimentação vegana especificamente em relação ao seu menor valor calórico, antes de recomendar a adoção de uma estratégia vegana”.

“É verdade que muitos alimentos de uma alimentação vegana balanceada são bons para nós, mas isso não significa que todos os tipos de alimentação vegana sejam saudáveis”, acrescentou.

“Dito isto, até hoje as evidências têm mostrado que alguns alimentos de origem vegetal – como as frutas, os vegetais e os cereais e grãos integrais – têm sido associados a redução do risco do diabetes tipo 2”.

Alterações da microbiota intestinal com a alimentação vegana versus a alimentação regular cotidiana

Para o estudo, foram randomizados 148 adultos com sobrepeso ou obesidade, sem história de diabetes para fazer uma alimentação vegana com baixo teor de gordura (N = 73) ou não modificar a alimentação (N = 75). A média de idade no grupo vegano e no grupo de controle foi de 53 e 57 anos, respectivamente; 60% e 67% eram mulheres, respectivamente; e o índice de massa corporal (IMC) foi de aproximadamente 33 kg/m3 em ambos os grupos.

A alimentação vegana não contém produtos de origem animal sendo composta de legumes, nozes, vegetais, frutas e cereais e grãos integrais. Nenhum grupo fez restrição calórica.

O objetivo do estudo foi testar o efeito da alimentação vegana de origem vegetal na composição da microbiota intestinal, no peso corporal, na composição física e na sensibilidade à insulina durante 16 semanas.

“Estávamos interessados nos desfechos metabólicos”, explicou a Dra. Hana.

“Já sabemos há algum tempo que a alimentação de origem vegetal é muito eficaz para o controle do peso, porque, ao contrário de muitas dietas, a alimentação vegana é sustentável em longo prazo e os seus benefícios vão além dos obtidos com a intervenção imediata. Comparativamente, a dieta cetogênica, por exemplo, é boa enquanto você está fazendo, mas as pessoas param de fazer e recuperam o peso acima do peso inicial.”

No entanto, a pesquisadora acrescentou que, até hoje, pouco se sabe acerca dos mecanismos que determinam os benefícios da alimentação vegana, o que este estudo e outros visam esclarecer.

F. prausnitzii se alimenta de fibras e induz perda da gordura, inclusive da gordura visceral

Ao avaliar a composição da microbiota intestinal dos participantes, Dra. Hana e colaboradores descobriram que toda a família de bacteroidetes estava em maior quantidade entre os participantes fazendo alimentação vegana.

E uma espécie foi considerada especialmente importante – a Fecalibacterium prausnitzii. “A abundância relativa de F. prausnitzii aumentou no grupo vegano e foi associada a um efeito de tratamento de + 4,8%”, disse Dra. Hana.

“Já foi descrito que pacientes com diabetes têm contagens mais baixas dessas bactérias e isso tem sido associado à resistência à insulina e à inflamação”, acrescentou a pesquisadora.

A F. prausnitzii produz ácidos graxos de cadeia curta, e estes promovem muitos benefícios metabólicos, como a prevenção das doenças cardiovasculares, os efeitos de sensibilização à insulina e os efeitos positivos no sistema imunitário.

Estes ácidos graxos de cadeia curta são produzidos por estas bactérias, que se alimentam das abundantes fibras residuais da alimentação de origem vegetal, mas não de produtos de origem animal.

“Quanto mais vegetais comemos, mais alimentos ficam disponíveis para essas bactérias e maior a quantidade de ácidos graxos de cadeia curta produzidos”, explicou a Dra. Hana.

“O aumento da quantidade de F. prausnitzii observado no nosso estudo teve correlação com a perda ponderal e com o aumento da sensibilidade à insulina”, disse a autora.

E essencialmente, dois terços da perda ponderal foram “explicados pela perda de gordura”, assinalou, acrescentando que “a perda da gordura visceral também foi rápida com a alimentação vegana”.

Alimentação vegana vs. vegetariana e os desafios do veganismo

Estudos anteriores demonstraram que os veganos têm menos risco de diabetes, até mesmo do que os vegetarianos, disse Dra. Hana. A alimentação vegetariana é mais liberal e pode ter altos níveis de gordura saturada, observou.

Mas a pesquisadora reconheceu que a mudança para uma alimentação vegana não é isenta de desafios.

“Pode ser difícil no início, por exemplo, encontrar e fazer receitas, assim como comer fora. Além disso, muitas vezes, comemos a mesma coisa que os nossos familiares ou precisamos cozinhar para eles”, disse a médica.

A Dra. Hana também alertou em relação à queda dos níveis de vitamina B12, que podem estar associadas à alimentação vegana.

Os pacientes com diabetes tomando metformina (que também diminui os níveis de vitamina B12) e especialmente as pessoas mais velhas (tomando metformina ou não), podem ter deficiência de vitamina B12, e estas pessoas podem precisar tomar suplementos, orientou.

A Dra. Hana disse que entre seus planos de futuras pesquisas está um ensaio clínico cruzado comparando a alimentação vegana com baixo teor de gordura à dieta com restrição de carboidratos e controle do tamanho das porções preconizada pela American Diabetes Association (ADA) para os pacientes com diabetes. A composição da microbiota intestinal será medida.

“Estamos no meio de um outro estudo comparando uma alimentação vegana com baixo teor de gordura à dieta mediterrânea rica em azeite e nozes, que irá abordar a qualidade e a quantidade dos componentes de gordura de cada tipo de alimentação. E, no futuro, poderemos comparar a alimentação vegana com baixo teor de gordura à alimentação vegana com alto teor de gordura.”

Fonte: Medscape

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