Alimentação, terapia e exercícios: mulheres alteram rotina para driblar o cansaço mental na pandemia



A pandemia trouxe diversas consequências para a saúde mental das pessoas. A mudança na rotina, o medo da contaminação e o distanciamento social estão entre os fatores que fizeram com que elas se sentissem mais estressadas ou ansiosas neste ano.


Um levantamento realizado pelo Google mostra que as buscas por termos relacionados à ansiedade no Brasil bateu recorde de interesse entre os meses de abril, maio, junho e dezembro de 2020.

Somente neste ano, os brasileiros buscaram duas vezes mais pelo termo "ansiedade" que na média dos últimos 10 anos. A procura foi até 147% maior do que a média registrada entre os anos de 2010 e 2019.

  • “Como se acalmar em uma crise de ansiedade?” saltou mais de 50 vezes na busca - alta superior a 5.000% - em 2020.

  • ansiedade também é um dos assuntos mais buscados com as palavras “como lidar”/ “como controlar” em 2020.

  • também aumentou a frequência de buscas por perguntas relacionadas a luto. “Como lidar com a morte”, por exemplo, subiu 60% em 2020 em comparação a 2019 e a pergunta foi uma das 10 mais pesquisadas com as palavras "como lidar" em 2020.

Desde outubro, um relatório feito pela Organização Mundial da Saúde (OMS) com a população europeia reconheceu o termo ‘fadiga da pandemia’, que classifica a exaustão da população.

Mas teve gente que decidiu não ficar parado durante o ano, justamente, para não sofrer com problemas de saúde causados pela pandemia. O G1 conversou com três mulheres que alteraram suas rotinas para evitar exaustão mental. Dia-a-dia de hospital Fernanda Magalhães, de 44 anos, não atuou na linha de frente no combate a Covid-19, mas acompanhou o dia-a-dia de um hospital na pandemia. Ela trabalha na parte administrativa: encaminhamento e monitoramento telefônico de pacientes com suspeita ou com exames confirmados para Covid-19. Uma pesquisa realizada em setembro deste ano aponta que, mesmo não atuando na linha de frente, 83% dos profissionais de saúde demonstram sinais da Síndrome de Burnout: doença que ocorre quando a exaustão em relação ao trabalho é física e mental. Considerando o total da pesquisa, incluindo os profissionais que estão e os que não estão na linha de frente, a Síndrome do Burnout apareceu em 79% dos médicos; 74% dos enfermeiros; e 64% dos técnicos de enfermagem. Os dados também apontam que, quanto mais jovem o profissional, maior a chance de esgotamento, e que a síndrome aparece mais em mulheres. "No início da pandemia, fui impactada por uma exaustão mental muito forte, não exatamente pelas tarefas do trabalho e do dia-a-dia, mas pela angústia de não saber o que esperar do futuro", afirma Fernanda. Para se sentir melhor, Fernanda decidiu mudar a alimentação e os horários em que realiza as refeições para fortalecer o sistema imunológico. Segundo ela, a prática deu certo e agora ela se sente menos exausta e mais confiante em relação ao futuro.

Ela passou a incluir um cardápio variado de legumes nas refeições e consumir frutas durante o dia para reestabelecer as energias.

Fernanda também está fazendo o uso de probióticos em cápsulas, que servem para aumentar a imunidade do organismo e são mais aptos a agir contra microorganismos que podem causar alguma doença.

"Minha maior expectativa agora é em torno de uma vacina contra a Covid-19, para que todos fiquem imunizados contra esse vírus. Acredito também que muita coisa em relação à maneira como nos importamos com outras pessoas irá mudar".

A rotina familiar foi afetada. Por trabalhar diariamente em um hospital, ela redobrou a atenção com a higienização em casa para evitar uma possível contaminação. Tirando o melhor da situação A analista jurídica Aline Pereira, de 24 anos, viu na mudança uma forma de "olhar mais para si mesma". "Antes da quarentena existia uma rotina de acordar cedo, ir para academia e, em seguida, para o trabalho. Tudo isso mudou. No começo, tentei fazer os mesmos exercícios que fazia na academia em casa, mas tive dificuldades e me senti desanimada". Aline não foi a única a passar por essa situação: um estudo coordenado por pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) mostrou que a realização de exercícios físicos de forma exagerada durante o isolamento social pode piorar o bem-estar das pessoas.

Segundo o levantamento, indivíduos sedentários que passaram a se exercitar somente na quarentena apresentaram piores níveis emocionais do que quem já praticava exercícios. Da mesma forma, aqueles que mantiveram uma rotina de exercícios e aumentaram a intensidade também tiveram baixos índices de bem-estar.

Sem a rotina e as dificuldades em manter exercícios físicos, ela sentiu um cansaço psicológico por não conseguir separar o trabalho da vida pessoal. Com isso, Aline recorreu à terapia para entender todas as dificuldades que estava passando, que foram pioradas pela pandemia. "Isso me fez bem em muitos sentidos, me sinto melhor dentro da minha própria cabeça, consigo me organizar e focar nos meus projetos pessoais e desenvolvi também uma clareza sobre o que eu quero para o futuro. Comecei a me organizar nos últimos 3 meses e passei a realizar caminhadas, com isso senti uma melhora no meu bem-estar". "Acredito que com a pandemia começamos a enxergar nossas próprias dificuldades e buscar melhorar isso. Principalmente, quem seguiu um isolamento rigoroso, que ficou ainda mais exausto mentalmente, já que foi mais impactado pela falta de contato com outras pessoas", pondera. Treino como terapia Um experimento realizado pela Universidade do Sul da Califórnia, nos Estados Unidos, descobriu que trabalhar em casa afetou negativamente a saúde física e mental, aumentando as expectativas de trabalho e distrações, reduzindo a comunicação com colegas de trabalho e diminuindo a produtividade.

Apesar de ter sido realizado com um grupo pequeno, o estudo reflete a realidade de muitas pessoas que foram drasticamente afetadas pela mudança no local de trabalho.

"Sempre tive uma rotina muito agitada com estudos, trabalho e encontros com os meus amigos. Quando a pandemia chegou, o meu quarto virou meu escritório, faculdade e academia. Confesso que no começo foi desafiador, e até hoje vivo uma montanha-russa de emoções em relação a tudo isso", afirma a estudante Juliana Esparza, de 21 anos.

Juliana passou a se exercitar na quarentena como uma forma de se distrair e consequentemente melhorar a saúde. "Comecei a treinar em casa todos os dias, desde o 1° dia da quarentena. Essa pequena atitude mudou literalmente a minha vida". "Quando bate o estresse da rotina, ansiedade ou desânimo, é com meu treino que eu me conecto de novo comigo mesma. Também perdi o medo da cozinha, comecei a arriscar algumas receitas saudáveis para somar no meu novo estilo de vida", conta A estudante está contabilizando todos os dias de treino e passou a realizar - além dos exercícios em casa - caminhadas ao ar livre.

Boa parte das atividades físicas é na base do improviso, com o que está ao seu alcance - produtos de limpeza, cabo de vassoura e garrafas de água estão entre os objetos que são utilizados por Juliana para treinar. "A atividade física deixou de ser uma obrigação e passou a ser um momento único para cuidar da minha saúde mental, corpo e energia. É uma sensação única. Além dos 10 quilos que perdi nesse caminho, estou descobrindo uma nova versão de mim mesma que já não me vejo sem", comemora.


Fonte: G1

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