Alexandre Kalache: “Envelhecer sem saúde é um prêmio envenenado”

Um dos maiores especialistas em envelhecimento no mundo, o médico carioca Alexandre Kalache dirigiu o programa global de envelhecimento da Organização Mundial da Saúde, da ONU, e em 2012, fundou Centro Internacional da Longevidade Brasil. Nesta entrevista, ele aponta as grandes preocupações, como a saúde, a necessidade de uma educação continuada e a falta de preparo dos profissionais de todas as áreas para bem atender o público grisalho.

O Brasil está preparado para esta transição? Não. E é muito preocupante, porque não se vê políticas públicas, em todos os níveis. De certa forma, estamos até andando para trás. Saúde é primordial. Envelhecer sem saúde é um prêmio envenenado. O SUS, que já estava mal das pernas, está pior. Todos os dias têm manchetes de jornal mostrando que idosos estão morrendo na fila, esperando diagnóstico, um exame, às vezes meses a fio. Medicamentos em falta. E não estamos falando dos mais miseráveis, mas dos mais de 80% dos idosos do país, que dependem do SUS. Cada vez temos idosos que param de pagar planos de saúde, por não ter condições, e vão competir por recursos cada vez mais escassos.

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A saúde é o que mais preocupa? A saúde vem em primeiro lugar. A partir de certa idade, há risco maior de doenças, que poderiam ter sido prevenidas, mas não são. Precisamos também investir em prevenção de doenças e promoção da saúde ao longo de toda a vida. Aí vem o meu mantra: quanto mais cedo se preparar para o envelhecimento, melhor. Mas nunca é tarde demais. Começar na infância e na adolescência e com uma boa alimentação, evitando sedentarismo, não fumar. Se for beber, que seja com moderação.

Qual é o papel da educação? Começa pelo conhecimento, pela educação continuada. Você tem de adquirir conhecimento ao longo da vida para seguir viável e empregável. Muita gente perde emprego aos 40, 45 anos, e a chance de encontrar outro a gente sabe… A fila de gente que busca emprego há mais de dois anos está aumentando. Ou os que têm empregos muito precários, que não contribuem para seguridade social. E isso tem, na base, a falta de conhecimento. Não conseguem competir no mercado de trabalho porque ninguém se preocupou em investir no conhecimento e nas habilidades de que precisariam. Não estou falando só de médicos ou jornalistas. Mas de um mecânico. Há 20 anos, o que ele precisava saber era mecânica, então não aprendeu eletrônica. As pessoas vão trabalhar em bico, em algo precário, informal, para esperar lá no fim da vida uma pensãozinha rudimentar. Além disso, você precisa melhorar o lugar, a habitação, moradia, o entorno, para que essa pessoa envelheça com alguma qualidade de vida. Mas no nosso país a maioria da população não tem esgoto sanitário, não pode fazer uma caminhada porque não tem calçada, a iluminação é péssima, se você é velho enfrenta um transporte público que é feito para um macho forte. É muito complicado.

Como estão a adoção da premissas do projeto Cidade Amiga do Idoso pelas prefeituras brasileiras? Lamentável. Estive em Porto Alegre dando um curso, há um mês, de pós-graduação. Para 45 pessoas muito esclarecidas. Perguntei se alguém sabia que Porto Alegre está listada como uma das cidades amigas do idosos, no site da OMS. Este programa deveria refletir políticas públicas na cidade. Ninguém sabia. Isso é alarmante. Na época em que foi lançado, há uns quatro anos, foi um oportunidade para tirar uma foto legal do prefeito, alguns secretários e alguém que supostamente fez o diagnóstico do que as pessoas idosas querem, que na minha opinião foi mal feito. É muito pouco sério. Tentamos também no governo do Estado e não deu em nada. O que era o secretário da Saúde da época era ministro do Temer, agora é do Bolsonaro, lança um grande projeto, Brasil Amigo do Idoso. Soa grandioso. Mas o que quer dizer, além de uma foto? E o diagnóstico, ouvindo os idosos? Foi o legado mais importante na minha gestão da OMS. Está sendo bem feito em diversas cidades do mundo, menos no meu país. Cadê o orçamento? Quem está ouvindo o idoso, que é quem sabe as dificuldades de envelhecer? E o outro pilar, com politicas adequadas e sustentáveis que respondam às necessidades da grande maioria da população?

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