'Agorafobia me fez prisioneira dentro da minha própria casa'


Simon Clarke, secretário-chefe do Tesouro do Reino Unido, disse que não participaria de uma tradicional foto oficial junto ao ministro das Finanças em um evento do governo britânico por ser "agorafóbico".


Segundo ele, sua condição "impede que eu me sinta confortável em alguns espaços abertos". Mas o que é a agorafobia e como vivem aqueles que sofrem do transtorno?

Para Anneli Roberts, de 31 anos, do País de Gales, a porta da frente de sua casa na zona rural é onde sua sensação de estar segura começa e termina. Em alguns dias, até mesmo fazer a caminhada de um metro até o portão do jardim pode parecer uma jornada angustiante.

Anneli sofre de agorafobia, resultado do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), o que significa que ela tem medo de estar em espaços públicos. Mas não se trata apenas de espaços abertos ou lotados — Anneli diz sentir-se assim em qualquer lugar que possa encontrar homens que são estranhos.

Durante o lockdown, ela e seu companheiro moraram na casa dos sogros. Durante esse período Anneli ficou no quarto do sótão por mais de um mês, saindo apenas para usar o banheiro. "Fico nervosa o tempo todo em que estou fora, especialmente se estou sozinha", conta. "É realmente muito assustador para mim."

Anneli usa mecanismos de enfrentamento, como fones de ouvido para evitar ruídos altos e apenas rotas específicas que ela conhece bem.

No início deste ano, ficou 148 dias de sair de casa, e o autoisolamento só foi interrompido quando ficou doente. Agora, ela sente que precisa começar de novo. Não só em lugares abertos Na quarta-feira desta semana, Clarke disse que não participaria da foto da equipe responsável pela apresentação do Orçamento britânico por causa de sua agorafobia. No entanto, em um evento semelhante em março, ele esteve presente na foto, já que naquela ocasião a imagem foi registrada dentro da residência do ministro das Finanças, e não do lado de fora. No Twitter, ele escreveu: "Não estarei do lado de fora para as fotos em Downing Street (rua onde ficam as residências do ministro das Finanças e do primeiro-ministro) porque vivo com agorafobia — o que me impede de ficar confortável em alguns espaços abertos".

O serviço de saúde pública do Reino Unido, o NHS (o equivalente ao SUS para os britânicos), define agorafobia como o medo de estar em uma situação difícil de se escapar ou em que não se consiga obter ajuda. Muitos assumem que se trata apenas de um medo de espaços abertos — como afirmou Clarke — mas o transtorno também pode se manifestar como desconforto com transportes públicos, centros comerciais ou simplesmente ao sair de casa.

E nem sempre espaços lotados são um gatilho: para Anneli, por exemplo, uma rua isolada com uma pessoa pode ser mais assustador do que um lugar movimentado.

Ela diz, por exemplo, que consegue ir a um grande evento como um casamento com a família e amigos.

Estima-se que duas em cada 100 pessoas no Reino Unido tenham transtorno do pânico e um terço dessas pessoas desenvolverá agorafobia.

Segundo o NHS, a condição costuma afetar duas vezes mais mulheres do que homens e geralmente começa entre os 18 e 35 anos. Outras personalidades com agorafobia incluem a atriz Kim Basinger e o lendário músico dos Beach Boys, Brian Wilson. Em 2011, a atriz Emma Stone também disse que ela era "quase agorafóbica" durante sua infância. "Não podia sair do lado da minha mãe", disse ela em entrevista a uma revista. A britânica Tanya, de 36 anos, também teve agorafobia relacionada ao Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) durante a maior parte de sua vida adulta. Diferentemente de Clarke, sua condição não é desencadeada apenas em espaços abertos, mas pode estar ligada a momentos anteriores de alto estresse. No ano passado, Tanya teve um ataque de pânico em todo o corpo, durante o qual perdeu a sensibilidade nas mãos e nas pernas. E teve que ligar para um amigo para ajudá-la a voltar do centro da cidade para casa, uma jornada de cinco minutos. "Isso te deixa com medo, porque é muito humilhante chorar sem ninguém por perto", diz ela, acrescentando que sua mente tende a imaginar cenários extremos ou catastróficos, como desmaiar ou cair sem ninguém para ajudá-la.

Um porta-voz da Anxiety UK, ONG britânica de apoio a pessoas que sofrem de ansiedade, disse: "(Isso) varia enormemente, desde aquelas que ficam presas em casa, até mesmo em um quarto, até aqueles que podem viajar distâncias específicas dentro de um limite definido.

"Alguns agorafóbicos descobrem que podem viajar mais facilmente se tiverem um amigo ou parente de confiança acompanhando-os; no entanto, isso pode rapidamente levar à dependência de seu cuidador."

Já a britânica Ruth Hatton, de 43 anos, apresenta sintomas de agorafobia, mas não tem um diagnóstico oficial de seu médico. Ela diz lidar com o transtorno com o apoio da filha adulta, a quem pede ajuda até para ir ao supermercado.

Segundo Tanya, a forma como encara sua agorafobia é se esforçando para sair.

Ela diz que, embora inicialmente pareça um espaço seguro, a sensação é de "virar um prisioneiro em sua própria casa".

Durante a pandemia de covid-19, para muitas pessoas, o comportamento agorafóbico acabou potencializado quando elas foram impedidas de sair de casa.

Megan Pennell, gerente de campanhas da Mind (entidade britânica que ajuda pessoas com problemas de saúde mental), diz à BBC: "Muitas pessoas estão sentindo os impactos da pandemia na saúde mental".

"No momento, 1,6 milhão de pessoas estão em listas de espera para apoio ou tratamento de saúde mental, e mais 8 milhões de pessoas não podem nem entrar na lista de espera por causa dos limites atuais". Mas falar abertamente sobre a experiência de viver com um transtorno mental, como Clarke, é útil para aumentar a conscientização, argumenta o médico David Crepaz-Keay, da Fundação de Saúde Mental.

"Cada vez que uma pessoa pública revela que está tendo dificuldades psicológicas, isso tende a ajudar a reduzir o estigma em torno dos problemas de saúde mental, o que é extremamente útil."


Fonte: G1

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