Abuso na infância é, “de longe”, o principal fator de risco de transtorno mental

As adversidades no início da vida, incluindo negligência e abusos físico, emocional e sexual, são o maior fator de risco de transtornos psiquiátricos, segundo novas pesquisas.

No que foi descrito como uma revisão seminal, os pesquisadores da Dell Medical School, nos Estados Unidos, concluíram que maus-tratos na infância são “de longe” o maior fator de contribuição para doenças em adultos.

Sofrer abuso físico na infância foi associado a uma expectativa de vida menor, devido ao aumento do risco de doença cardíaca, acidente vascular cerebral (AVC), obesidade, diabetes e certos tipos de câncer, disse ao Medscape o coautor do estudo, Dr. Charles Nemeroff, Ph.D., médico, professor e chefe do Departamento de Psiquiatria da Dell’s Mulva Clinic for the Neurosciences, e diretor do Institute for Early Life Adversity Research.

Em termos de impacto psiquiátrico, os “maus-tratos aumentam o risco de depressão, abuso de substâncias, suicídio, abuso de álcool, e também pioram o curso de todos os transtornos psiquiátricos analisados”, acrescentou o Dr. Charles.

O artigo foi publicado na edição de janeiro do periódico American Journal of Psychiatry.

Altas taxas são subestimadas?

Surpreendentemente, as estimativas mostraram que cerca de uma em cada quatro crianças sofrerá abuso ou negligência, embora isso possa ser subestimado, já que a maioria dos casos de maus-tratos não é reportada.

“Isso é especialmente verdadeiro para certos tipos de maus-tratos na infância (principalmente abuso emocional e negligência), que podem nunca chegar ao atendimento médico, mas têm consequências devastadoras para a saúde, independentemente se for abuso físico e negligência ou abuso sexual”, escreveram o Dr. Charles e a coautora, Dra. Elizabeth Lippard, Ph.D.

Citando uma metanálise recente que mostrou que 46% dos pacientes com depressão sofreram maus-tratos na infância, os autores também destacaram que até 57% dos pacientes com transtorno bipolar referiram abuso e/ou negligência na infância.

A pesquisa também concluiu que os maus-tratos na infância estão associados a desfechos negativos no tratamento de pacientes com transtorno depressivo, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) ou transtorno bipolar.

Essas descobertas reforçam a necessidade de os médicos conduzirem avaliações detalhadas da história do trauma, disse o Dr. Charles.

“É extremamente importante que os médicos obtenham um histórico detalhado sobre os traumas na infância do paciente, para que eles saibam com o que estão lidando. Muitos pacientes não compartilham essas informações voluntariamente, especialmente durante a primeira consulta, sobre se vivenciaram algum tipo de violência no início da infância”, ele pontuou.

“Precisamos tentar entender a melhor forma de tratar esses pacientes, porque eles não respondem bem aos tratamentos convencionais – medicamentos ou psicoterapias”, disse o Dr. Charles.

As pesquisas sendo feitas estão estudando o momento, a duração e a gravidade dos maus-tratos na infância. Alguns estudos indicaram que os maus-tratos que começam no início da infância e se estendem por um período mais longo estão associados a piores desfechos. No entanto, os autores enfatizaram que a exposição a maus-tratos em qualquer momento da infância aumenta significativamente o risco de transtornos do humor.

A revisão também incluiu estudos sobre as consequências negativas do bullying. Embora existam algumas evidências para indicar que o cyberbullying muitas vezes pode levar ao suicídio, e que isso parece ocorrer mais frequentemente com mulheres do que com homens, disse o Dr. Charles, muitos dos dados nessa área são apenas “relatos informais”.

Mais prevalentes, mas menos estudados

Com relação aos subtipos de maus-tratos na infância, os autores escreveram que o abuso emocional e a negligência são provavelmente os mais prevalentes nas populações psiquiátricas, mas são os menos estudados.

Em parte, isso ocorre porque os pacientes que sofrem estes tipos de abuso, geralmente, são os que têm menos chances de receber atendimento médico, em comparação com aqueles que são vítimas de abuso físico e sexual, pois esses eventos geralmente resultam em lesão física.

“Em muitos estudos, mas não em todos, a negligência tem as piores consequências em termos de transtornos de humor e de ansiedade“, disse o Dr. Charles. No entanto, acrescentou, poucas pessoas sofrem um único tipo isolado de abuso.

“Com frequência, elas são vítimas de várias formas de abuso, como abuso físico e sexual, e abuso emocional.”

Novas evidências indicaram que os maus-tratos na infância podem aumentar o risco de transtornos do humor e de progressão da doença via inflamação, como indicado por medidas como proteína C-reativa (PCR) e citocinas inflamatórias, incluindo fator de necrose tumoral alfa e interleucina 6.

Anti-inflamatórios são uma nova estratégia terapêutica promissora para pacientes com transtorno depressivo que apresentam marcadores inflamatórios elevados. No entanto, essas evidências ainda são preliminares, disseram os autores.

Outro mecanismo em potencial é por meio de alterações dos circuitos do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e do fator de liberação de corticotropina (FLC), que regula as respostas endócrina, comportamental, imunológica e autonômica ao estresse.

A predisposição genética também provavelmente desempenha um papel na patogênese dos transtornos do humor após o estresse na infância. Apenas 35% a 40% dos indivíduos expostos a eventos traumáticos desenvolverão TEPT, disse o Dr. Charles. “Isso provavelmente é em grande parte determinado pela genética.”

Ele estimou que pode haver cerca de uma dúzia de genes, cada um dos quais contribui com um pequeno grau de vulnerabilidade a transtornos psiquiátricos após algum trauma.

Trauma genético intergeracional

Os autores também citaram novas pesquisas na complexa área de transmissão intergeracional de trauma e psicopatologia – um fenômeno que tem sido estudado em vítimas do Holocausto.

“Quando um indivíduo é traumatizado, seus óvulos, no caso das mulheres, e espermatozoides, no caso dos homens, podem ser alterados por mecanismos epigenéticos”, disse o Dr. Charles.

“Dessa forma, a criança que é um produto desses gametas pode levar consigo um efeito do trauma das gerações anteriores.”

A pesquisa também sugere que os maus-tratos na infância podem levar a alterações estruturais e funcionais no cérebro. Algumas evidências relacionaram o abuso no início da vida a volumes e espessuras menores de massa cinzenta no córtex pré-frontal ventral e dorsal, incluindo os córtices orbitofrontal e cingulado anterior, hipocampo, ínsula e estriado.

Estudos mais recentes também mostraram uma associação com a diminuição da integridade estrutural da substância branca dentro dessas regiões e entre elas.

“Diferentes tipos de abuso e negligência resultam em diferentes alterações cerebrais. Provavelmente, depende em parte da idade da criança no momento do abuso”, disse o Dr. Charles.

Os pesquisadores estão avançando no que se sabe sobre o porquê de nem todas as pessoas expostas a traumas na infância desenvolverem algum transtorno de humor. Fatores ambientais, como os genes, podem mediar a relação entre abuso infantil e transtornos do humor, escreveram os autores da revisão.

Estudos também mostraram que o apoio social e as relações seguras podem proteger contra a depressão.

Dr. Charles acredita que existem três importantes áreas para futuras pesquisas. Como, por exemplo, determinar se as alterações no cérebro e no corpo que ocorrem por conta do abuso e negligência na infância podem ser revertidas. Além disso, ele disse, é preciso haver mais pesquisas sobre tratamentos ideais para essa população e melhores métodos para identificar aqueles em risco de adversidade na infância.

“Não demorará muito para que a varredura do genoma inteiro se torne parte do prontuário eletrônico”, disse o Dr. Charles. “Fazemos rastreamento para doenças genéticas o tempo todo em outras áreas; por que não o faríamos para isso?”

Além disso, quando as pessoas em risco forem identificadas, as intervenções podem se concentrar no núcleo familiar, famílias monoparentais, famílias com condições financeiras precárias e responsáveis fazendo jornada dupla, disse o Dr. Charles.

Educar profissionais da saúde mental, professores e enfermeiros também é importante, disse ele, mas também é extremamente importante educar os médicos sobre como fazer avaliações corretamente.

Pontos fortes e limitações

Comentando sobre o estudo para o Medscape, o Dr. David Fassler, médico, professor de psiquiatria da Larner College of Medicine, University of Vermont, nos EUA, descreveu a revisão como “abrangente”.

Os autores “demonstraram que as pesquisas existentes mostraram consistentemente que os maus-tratos na infância aumentam o risco de transtornos do humor”, disse o Dr. David.

“Eles também abordaram adequadamente as limitações da revisão, como a variedade de definições de maus-tratos e o uso de diferentes instrumentos de avaliação nos estudos”, disse ele.

Dada a prevalência de maus-tratos na infância, a revisão “ressalta ainda mais a importância de iniciativas destinadas a proteger os jovens de experiências traumáticas e prejudiciais. Espera-se que os achados também informem pesquisas futuras sobre o tratamento e a prevenção dos transtornos do humor em adultos”, disse o Dr. David.

Fonte: Medscape

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