A Tanzânia à mercê de um presidente negacionista



Em junho passado, o presidente John Magufuli declarou a Tanzânia livre da pandemia de Covid-19. Desde então, o país não atualiza estatísticas sobre a doença: os números estancaram em 509 casos e 21 mortos, embora os hospitais estejam abarrotados de infectados, relatados como doentes com pneumonia ou problemas respiratórios. Na saga por eliminar vestígios do vírus, o presidente desprezou o uso de máscaras, os bloqueios e o distanciamento social.

O governo age como se não houvesse pandemia. Magufuli dedica-se agora a propagar uma contundente campanha de desinformação sobre as vacinas, que ele rechaça como método de eliminar a doença. Orienta os tanzanianos a não serem cobaias e a não aceitarem os imunizantes doados à África, por serem “parte de uma conspiração do Ocidente para roubar a riqueza do continente”. O negacionismo reflete o método de Magufuli, de 61 anos, para comandar o país. Eleito em 2015 e reeleito em outubro passado, o presidente tanzaniano relega a ciência em prol da religião e consolida o regime autoritário no culto à personalidade. Seu governo difunde receitas caseiras -- uma bebida à base de gengibre, cebola, limão e pimenta -- para eliminar o vírus, que ele atribui ser proveniente de um demônio ocidental.


Enquanto os vizinhos Quênia, Ruanda, Uganda e Malaui acirram a disputa pelas vacinas e organizam programas de distribuição, a Tanzânia deliberadamente rejeita os imunizantes.

Cristão devoto, John Magufuli contraria a Igreja Católica ao afirmar com veemência que Deus poupou o país da Covid-19. As mortes de seu secretário-chefe John Kijazi e do vice-presidente da região semiautônoma de Zanzibar, Seif Sharif Hamad, esta semana, também contradizem a narrativa do presidente.

Sem estatísticas oficiais, tanto seus 60 milhões de cidadãos quanto a OMS e os países fronteiriços -- todos afetados pela pandemia -- estão no escuro sobre a extensão da doença na Tanzânia. Como previu recentemente John Nkengasong, diretor dos Centros Africanos para Controle e Prevenção do Doenças, “não cooperar tornará a pandemia perigosa para todos.”

Embora tenha sido repreendido pela OMS pela lenta atuação, o presidente tanzaniano se mostra indiferente às críticas. Magufuli chegou ao poder com o rótulo de incorruptível. No primeiro dia de governo, saiu à caça dos funcionários fantasmas, aparecendo de surpresa no Ministério das Finanças. Dispensou centenas de servidores que constavam da folha de pagamento, mas não trabalhavam. Suspendeu viagens ao exterior e cancelou as comemorações da independência para poupar despesas. Com Magufuli no comando, não restam dúvidas de que o país da África Oriental se desenvolveu. Seu estilo populista e intolerante, contudo, acirrou a repressão a grupos e políticos de oposição, endureceu as leis que supervisionam a mídia e minou a liberdade de expressão, conforme resumiu o professor Karuti Kanyinga, do Instituto de Estudos de Desenvolvimento da Universidade de Nairobi, em artigo no site The Conversation. Sua reeleição, em outubro passado, com 84% dos votos, foi cercada de desconfiança no processo eleitoral. A embaixada dos EUA em Dar es Salaam relatou uso de força contra civis desarmados, pré-contagem das cédulas eleitorais e prisão de opositores, entre outras irregularidades. John Magufili se alinha ao ditador Kim Jong-un, da Coreia do Norte, ao reter informações sobre a evolução da doença no país. Está na rota inversa dos esforços que a comunidade internacional faz para erradicar o novo coronavírus.

O presidente representa um risco maior para a Tanzânia do que a pandemia em si. Sua campanha negacionista diante da pandemia sustenta o movimento antivacina e ameaça não apenas a população do país, mas as de seus vizinhos.


Fonte: G1

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