A saúde mental entrou definitivamente na pauta das empresas


Em abril de 2020, pouco mais de um ano atrás, neste mesmo espaço nobre de Época NEGÓCIOS, eu escrevia que a crise gerada pela pandemia da covid-19 nos afetava em três esferas: saúde física, saúde financeira e saúde mental – “essa, ainda pouco estimada pelas empresas”.


O tempo e um enfrentamento estrambelhado da epidemia, infelizmente, se encarregaram de esparramar o colapso para a política e a comunicação, entre outros domínios.


O que era tendência no “Novo Normal” virou realidade e a saúde mental já recebe tratamento digno de parte considerável das médias e grandes empresas do país.


Primeiro, porque ficou claro que o festejado home office tem seus lados B, C e D. Depois, porque gestores se deram conta de que funcionários pressionados, infelizes ou desestimulados entregam bem menos e, com o passar dos meses, isso afeta a cultura da empresa.


Fui atrás da Vittude, plataforma que conecta usuários a psicólogos das mais diversas linhas de abordagem terapêutica, unindo tecnologia e saúde mental, para saber de sua CEO, Tatiana Pimenta, se a saúde mental tinha, finalmente, sido tratada como merecia por parte do mundo corporativo.


Recebi a resposta em números: um crescimento acumulado desde o início da pandemia de 700%, puxado, especialmente, pela chegada de 120 novos clientes corporativos, em sua maioria empresas de grande porte.


“E esse número não para de crescer. Nosso pipeline de empresas em negociação já ultrapassa 300 organizações. A saúde mental é a pauta da vez nas reuniões das principais lideranças de RH e dos CEOs. O aumento dos índices de adoecimento, a constante convivência com quadros de luto decorrentes de covid-19 e a incerteza que vivemos fez os custos com afastamentos, absenteísmos e turnover dispararem”, me revela ela.


Colaboradores têm, inclusive, abandonado empresas que não olham para esta pauta e buscado novos locais onde saúde mental e bem-estar estão no rol de benefícios do contrato de trabalho.

Segundo Tatiana, os três setores em sua plataforma mais preocupados com o tema são:


Tecnologia, Scale-ups (startups com modelo de negócio altamente escalável) e Serviços, seguidos em 4º e 5º por Varejo e Agências de Publicidade.


“Dos nossos 128 clientes atuais, 28% são empresas de tecnologia; 15% são startups e scale-ups; 12,5% são prestadores de serviço; e o varejo de moda, beleza e farmácias soma 9%, mas representa 90% das vidas cobertas.”


Pergunto por que as empresas decidiram olhar para a saúde mental como benefício somente agora, em pandemia, e não antes: “Sendo bem direta: porque está custando no bolso não ter.


Uma pesquisa da London School of Economics já apontava, em 2019, que as empresas brasileiras desperdiçavam mais de R$ 200 bilhões por não tratar os quadros de depressão e ansiedade. O Fórum Econômico Mundial, por sua vez, reforça que a economia global perde US$ 1 trilhão por não endereçar adequadamente o problema”.


Match


Não bastassem esses números, por si só, gritantes, o que temos visto no Brasil é uma escalada de afastamentos, internações psiquiátricas e consumo de medicamentos psicotrópicos. Mais do que isso, o custo do desengajamento, da baixa produtividade e do alto turnover tem onerado cada vez mais as despesas.


Por outro lado, me revela a CEO da Vittude, clientes que largaram na frente já conseguem comprovar ROI (retorno sobre investimento) de 3 a 8 vezes o valor investido em programas de saúde mental e bem-estar.


“Em operações de margem apertada, cada centavo conta, logo, atuar de forma assertiva na redução dos custos, no aumento da produtividade, na melhora do clima, engajamento e marca empregadora está totalmente ligado à sustentabilidade do negócio.”


Tatiana costuma dizer que seus serviços englobam dois pilares principais: a psicologia online e a educação emocional: “O Vittude Match, como chamamos nosso sistema, é uma ferramenta pioneira no Brasil, que utiliza Inteligência Artificial, Machine Learning e Processamento de Linguagem Natural (NLP) para ajudar pessoas acometidas com algum tipo de adoecimento emocional ou em busca de autodesenvolvimento e/ou autoconhecimento a encontrarem o psicólogo ideal para suas demandas. O sistema utiliza uma combinação de sete perguntas fechadas e abertas e cruza essas informações com a experiência clínica e abordagem terapêutica dos nossos psicólogos”.


O consultório virtual, desenvolvido exclusivamente para atendimentos de saúde, utiliza o streaming de vídeo Peer to Peer, em total compliance com LGPD e atos internacionais de segurança da informação em saúde como o HIPAA e o Hitech Act.


Grupo Boticário


Eu quis saber igualmente do “outro lado” – daqueles que consomem o serviço.


Suelen Morais, gerente de Saúde Integral do Grupo Boticário, me lembra que a saúde mental sempre foi o tema mais complexo dentro da área de saúde do Grupo Boticário, “principalmente, por ser algo com tanto estigma e preconceito”.


“Vivendo uma pandemia, era importante focar nessa atuação, ainda que já estivéssemos traçando este plano desde 2019. Todo o trabalho que o time de Saúde Corporativa realiza é em prol da educação em saúde, prevenção e bem-estar dos colaboradores.”


O Boticário, que implementou o benefício em maio de 2020, conta com um grupo de especialistas em diversas áreas da saúde, como Psicologia, Psiquiatria, Fisioterapia, além de parceiros, como a Vittude, na missão de acompanhar 12 mil colaboradores – a maioria 100% em home office desde março de 2020.


Suelen me diz que o impacto tem sido muito satisfatório. “Ao longo de 12 meses, tivemos mais pessoas buscando proativamente atendimento de Psicoterapia (foram mais de 4.000 atendimentos na Vittude) e 13.000 participações em rodas de conversas e lives sobre o tema.


Além disso, temos uma metodologia própria para mapeamento dos casos, com contato ativo convidando para o programa de cuidado, que conta com um care team de psicólogos e psiquiatras.”


Do grupo, indica Suelen, 18% dos colaboradores realizam psicoterapia. “Além disso, no programa de cuidado com busca ativa temos uma adesão de 61% e, destes, 98% não precisaram de afastamento ou internação depois de passarem pelo tratamento proposto pelos profissionais.”


Na opinião da CEO da Vittude, Tatiana Pimenta, a tendência desse tipo de serviço é de crescimento: “Com o número de mortos chegando a 500 mil em decorrência da covid-19, estima-se que mais de 4 milhões de brasileiros estejam convivendo com perdas e luto. Além disso, estudos demonstram uma piora dos índices de transtornos mentais como abuso de álcool e drogas, compulsão alimentar, transtorno obsessivo compulsivo, ansiedade generalizada (TAG) e esgotamento emocional (burnout)”.


Nossa saúde mental também está na UTI. É urgente cuidar.


Fonte: Época Negócios

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