A história de Mary Wortley Montagu, a precursora da imunização contra a varíola



Se você pesquisar pela origem das vacinas, o primeiro nome que provavelmente vai aparecer é o médico inglês Edward Jenner. Em 1796, ele percebeu que os fazendeiros responsáveis por tirar leite das vacas não se infectavam com a varíola humana – provavelmente, porque haviam criado resistência pelo contato com a varíola bovina, que acabava sendo transmitida pelo pus presente nas tetas das vacas e causava a doença de forma leve.


Jenner ficou com os créditos – não à toa, a palavra “vacina” vem de vaccina (do latim vaccinus, “que vem da vaca”). Mas a história da imunização antecede a descoberta do médico. E uma das protagonistas dessa história é a aristocrata inglesa Mary Wortley Montagu, cujas práticas e experimentos no século 18 a fizeram ficar conhecida como uma “mulher ignorante”.


Em 1717, Montagu estava morando na Turquia com seu marido, que trabalhava no país como embaixador britânico. Lá, ela percebeu que muitas mulheres não tinham marcas de varíola, o que causa suspeitas quando se trata de uma doença altamente contagiosa e que tem as cicatrizes como uma de suas sequelas. Mary sabia bem disso, já que havia contraído varíola no passado e, apesar de ter sobrevivido, teve seu rosto desfigurado.


Havia uma explicação: a inoculação, ou seja, o ato de colocar propositalmente o vírus em alguém, é uma prática que surgiu ainda no século 10 nas regiões orientais da Ásia e que, no século 18, era popular na Turquia. As responsáveis pela aplicação eram, na maior parte das vezes, mulheres gregas e armênias analfabetas, que retiravam uma pequena quantidade de pus de uma pessoa com varíola e depois adicionavam o material à corrente sanguínea de outros indivíduos através de pequenos cortes nos pulsos e tornozelos.


As pessoas inoculadas acabavam adoecendo, porém de forma leve e sem possibilidades de contrair futuras infecções. Ainda na Turquia, Montagu aceitou o risco e deixou que seu filho mais velho recebesse o tratamento.


Em 1721, a família já havia retornado à Inglaterra. Mary teve uma filha que, àquela altura, tinha três anos – mas não havia sido inoculada. Na época, o país enfrentava um surto de varíola, o que serviu de estopim para que a aristocrata realizasse a imunização rudimentar em sua bebê.


Mary queria aproveitar a oportunidade para mostrar que a prática funcionava. Então, convidou um grupo de médicos respeitados e amigos da aristocracia para observarem a criança após sua recuperação. Um dos médicos aprovou o método e tratou de aplicá-lo em seu próprio filho. A notícia chegou até a realeza, e a princesa de Gales também deixou que as crianças reais fossem inoculadas.


Claro, nem tudo são flores: a inoculação feita por leigos, como Mary, ameaçava a posição profissional de médicos e também seu lucro, além de ter sido visto por clérigos como uma interferência humana na natureza. Isso fez com que muitos chamassem a moça de “ignorante” e rejeitassem suas ideias.


Fora isso, o procedimento era perigoso e, muitas vezes, mortal. Na Turquia, em que a inoculação estava estabelecida, as mulheres sabiam que a dose a ser administrada tinha que ser pequena para causar apenas sintomas leves, sem contar que o paciente precisava ficar isolado por um tempo para que o vírus não fosse transmitido. Na Inglaterra, a inoculação virou papel dos médicos, mas vários profissionais desinformados realizavam o procedimento de forma indevida, deixando que seus pacientes sangrassem e se “purificassem” durante semanas antes da inoculação.


Ao que parece, Edward Jenner foi inoculado na infância, mas passou por vários problemas e não guardou boas lembranças do método. Então, em 1796, percebeu que havia uma maneira mais fácil de realizar o procedimento ao observar os ordenhadores de vacas. Jenner, como médico, foi capaz de publicar artigos científicos sobre a descoberta, além de ser levado a sério por suas ideias. Tudo isso garantiu ao inglês o título de criador do primeiro imunizante do mundo.

Essa história aparece no livro The Pioneering Life of Mary Wortley Montagu, escrito por Jo Willett. Ele foi publicado na última terça-feira (30), mas ainda não possui versão em português.


Fonte: SuperInteressante

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